A proprietária do restaurante e pousada Sabor em Chã de Horta, na Ribeira Principal, Iolanda Tavares, descreve ao Expresso das Ilhas um pós-chuvas de perdas e incertezas.
“Quando caíram as primeiras gotas de chuva ainda era de tarde, mas foi-se intensificando ao longo da madrugada. A força das cheias era tanta que entraram no armazém onde eu tinha todo o meu stock: bebidas, farinha, açúcar, arroz, guardanapos, souvenirs, que já não podem ser vendidos. Tudo”, lamenta.
Segundo a proprietária, a água também invadiu a cozinha. “Perdi uma arca e um frigorífico”, contabiliza.
No exterior do estabelecimento, o cenário não foi diferente. “Tinha aqui uma esplanada com cadeiras, mesas, plantas ornamentais, bananeiras, papaieiras, e as cheias levaram tudo”, lamenta.
Iolanda Tavares diz que ainda não consegue contabilizar os prejuízos, mas sabe que são de valor elevado. Sem seguro empresarial e sem condições básicas para trabalhar, enfrenta dias de grande dificuldade.
“Desde o dia 13 estou sem electricidade em algumas partes e sem água canalizada. Trabalho com culinária, preciso de água, mas não confio em apanhá-la em qualquer lugar, com o estado actual das coisas. Muitos sítios entupiram e não sabemos se a água está própria para consumo. Para a cozinha, tenho usado água engarrafada, mais um gasto”, relata.
A empresária diz que não confia na água local actualmente e muito menos se atreve a molhar os pés na ribeira, onde ainda corre a água, porque havia muitos animais mortos, entretanto já retirados. “Isso pode trazer doenças”.
Desde o dia 13 o estabelecimento não facturou. “Ontem (dia 20) chegou um grupo de turistas com reserva feita há muito tempo. Conseguimos cozinhar na casa da minha mãe e contornar um pouco, mas no dia-a-dia está complicado”, avalia.
As dificuldades acumuladas levam a empresária a ponderar o futuro do negócio. “Nunca fiz empréstimo no banco e nem estou a pensar fazer agora, apesar das perdas. Estou a pensar muito mais em fechar as portas do que em tentar recuperar. Estou cansada. Tem sido uma semana exaustiva”, admite.
Isto porque, segundo Iolanda, não é certo quando a situação se irá normalizar ao ponto de voltar a receber turistas, já que o caminho das trilhas está totalmente danificado.
“Recebemos muitas pessoas que fazem o trilho Serra Malagueta, mas agora está muito perigoso. Ontem fui fazer uma caminhada para ver como estavam as coisas e realmente não dá”, afirma.
A empresária reconhece, porém, que a tragédia poderia ter sido maior. “Se a chuva tivesse sido durante o dia, haveria muitas perdas humanas. As cheias levaram muitos animais e, à luz do sol, os donos teriam entrado na água para tentar salvá-los”, reforça.
Stock de minimercado perdido
Carolino Monteiro, também da Ribeira Principal, é proprietário de um minimercado que teve todo o seu stock perdido com a invasão de água no armazém.
“Toda a comida que estava dentro do armazém ficou totalmente estragada e vamos dar de comer aos animais que ainda nos restam.”
“Tivemos outras perdas. Tínhamos um galucho estacionado aqui e tivemos de trazer uma máquina de Achada Monte, porque as das autoridades não estavam prontas para o tirar daqui. Depois, paguei a um atrelado que o levou à oficina em Milho Branco”, explicou.
A família utiliza a viatura danificada para actividades comerciais, o que agrava a situação. “Estamos à espera de ver quantas peças de carro perdemos. O escape sabemos que está entalado de lama. Usamos aquele carro para o comércio, para carregar as cargas da loja e não só.”
Pagou 21 mil escudos pela limpeza da via, mais 17 mil escudos pelo reboque. Carolino Monteiro também perdeu um boi arrastado pelas cheias e 90% da horta.
“As culturas serviam tanto para consumo como para venda. Tínhamos cana-de-açúcar, banana. Só prejuízo. Por sorte, os porcos que estavam no chiqueiro não foram com as cheias. A estrutura aguentou muito bem a pressão da água, mas nem todos tiveram essa sorte”, salienta.
Neste momento, Carolino Monteiro e a esposa estão a contabilizar as perdas e a tirar apontamentos para entregar às autoridades, conforme lhes foi pedido.
Tal como muitos moradores, Carolino está sem rendimento desde a enxurrada. “Desde o dia 13 estamos parados, a limpar o lugar e a tentar recuperar o que dá para recuperar. Não facturamos nada. Vamos ter de comprar as sementes para a horta, tudo.”
O morador teme um novo episódio semelhante. “Espero que não haja mais chuva como essa, porque senão é morte. Se vier, que seja uma chuva mansa.”
Agricultores de Ribeira dos Picos e Ribeira Seca à beira do colapso
Na localidade de Ribeira dos Picos, em Santa Cruz, as cheias deixaram muitos agricultores sem meios de subsistência e poderão comprometer o abastecimento de produtos agrícolas a vários pontos da ilha de Santiago.
A situação levou já ao aumento dos preços, especialmente da banana e da papaia, que começam a escassear no mercado, conforme o presidente da Associação Agre Várzea Nova de Ribeira dos Picos, Benjamim Mendes.
“Ficaram sem nada. Eu, particularmente, tive pequenos estragos, mas, por exemplo, tenho uma parcela onde os meus filhos trabalham, que fica numa encosta, e o sistema de rega gota-a-gota foi parar ao mar”, afirma.
Segundo o dirigente associativo, os prejuízos estendem-se às hortícolas. “Melancia, pepino, coqueiro, limoeiro… tudo desceu das encostas e foi para o mar. Tivemos grandes problemas aqui”, relata.
Ribeira dos Picos, conforme Benjamim Mendes, é responsável pelo abastecimento dos mercados da Praia, do Tarrafal, de São Domingos e de outras ilhas, o que agrava o impacto económico.
“Com estas perdas somos obrigados a subir os preços porque a quantidade de produtos que foi parar ao mar é enorme. Neste momento, temos poucos produtos, o que por si só já é razão para subir os preços, querendo ou não”, explica.
“Perdemos muita banana e papaia. A papaia custava 120 escudos o quilo e agora as pessoas vieram procurar e não tínhamos suficiente para vender. A banana está a custar perto de 150 escudos, tendo em conta que tivemos perdas totais em várias parcelas. Isto quer dizer que, noutros pontos do país, o preço é duplicado”, refere.
A associação estima que alguns produtores tenham perdido 50% da produção e outros 100%. Além disso, os criadores de gado também foram afectados.
“Muitos animais foram para o mar. Não tanto quanto os produtos alimentares, mas também os animais foram ao mar, como porcos, cabras, carneiros e galinhas”, lamenta.
“Não temos aqui reserva de sementes, nada. Os agricultores fazem agricultura para sustentar a família, pagar os estudos dos filhos e viver uma vida tranquila”, argumenta.
O próximo cultivo, prossegue, dependerá de apoios externos. “Para além da ajuda de Deus, terá que ser também com a ajuda do Governo.”
A associação pretende articular apoios institucionais. “Estamos a pensar procurar parcerias com a Câmara Municipal e o Governo para fazer um corredor e ver se conseguimos alavancar, porque tivemos perdas de verdade”, sublinha.
Benjamim Mendes alerta ainda para o risco de abandono da actividade agrícola. “Com estes prejuízos, os agricultores estão um pouco desanimados. Se o Governo não nos apoiar, sei que há agricultores que vão preferir sair do país do que voltar a cultivar”, diz.
A comunidade teme agora um período prolongado de escassez. “A partir de agora vai haver reclamações porque não temos esses produtos”, conclui.
Por seu turno, Nelson Varela, vice-presidente da Associação Agro Barragem, em Ribeira Seca, confirma que a situação na zona é igualmente grave.
“As chuvas tiveram um impacto grande demais, houve muita perda. Mais de 70% das produções de Ribeira Seca perderam-se”, afirma.
O agricultor refere que, no seu caso, perdeu uma parcela de pimentão e batata. “Não perdemos assim tantas bananas, perdemos mais pimentão e batatas. E normalmente mandamos esses produtos para a Praia e outras ilhas.”
Com a produção comprometida, o aumento dos preços é inevitável. “Os preços vão ter de aumentar, não por nossa vontade. Temos poucos produtos, então automaticamente os preços aumentam”, justifica.
A situação é agravada pelos danos no sistema de rega. “Metade do sistema gota-a-gota foi com as cheias, a outra metade está totalmente estragada pela lama e já não serve”, aponta.
Os prejuízos traduzem-se também em quebra de rendimento. “Por semana, com uma parcela de pimentão, podemos fazer 50 mil escudos ou mais. Agora temos de nos desdobrar para recuperar. Comprar sementes e fazer a plantação”, explica.
Sem sementes, sem reservas e sem condições para retomar a actividade, os agricultores vivem um momento crítico.
“O pimentão estava a 240 escudos, agora vamos ver quanto vamos vender quando apanharmos”, afirma Varela.
Nelson Varela explica ainda que o pimentão é apanhado a cada dez dias, enquanto as batatas são apanhadas a cada dois ou três meses.
“O que significa que a recuperação poderá ser lenta e dependerá de apoios para que a produção retome os níveis habituais”, reflecte.
Mercado do Plateau prevê subida iminente dos preços das bananas e papaias
No mercado do Plateau, na cidade da Praia, as vendedeiras admitem que a subida dos preços da banana e da papaia é apenas uma questão de dias. Embora, para já, os valores se mantenham estáveis, a pressão dos fornecedores e a fraca procura têm criado um clima de incerteza.
Mena, uma das comerciantes, relata que ainda mantém os preços habituais, mas prevê mudanças muito em breve.
“Temos banana quatro por 100 escudos, ou sete por 200 escudos. O preço vai aumentar e não tarda muito. Ainda este mês, os preços vão aumentar”, afirma. Segundo conta, o volume diário de compras varia muito.
“Costumo comprar o que achar, e isso varia entre 500 e 1000 escudos. Ainda ninguém no mercado aumentou o preço, mas não demora muito para que o cenário mude, e nem estamos a vender assim tanto.”
Também Celina confirma que a instabilidade já se faz sentir. “Os preços não aumentaram ainda, mas hão-de aumentar um dia destes. Alguns fornecedores até já aumentaram o preço”, explica.
As vendas, por sua vez, têm sido irregulares. “Há dias em que consigo uma boa venda e há dias em que nem por isso. Vou ter de aumentar o preço se os fornecedores aumentarem. Não tenho alternativa; agora o problema vai ser conseguir vender mais caro.”
Chuvas do dia 24 também fazem estragos
Uma parte da bancada do Estádio Municipal de Kizomba cedeu na madrugada desta segunda-feira, 24, após chuvas em São Miguel.
Segundo informou a Câmara Municipal de São Miguel, a zona afectada encontra-se isolada e está a ser alvo de monitorização contínua pelas equipas municipais.
A autarquia garante que, assim que as condições meteorológicas melhorarem, começarão os trabalhos de limpeza e reconstrução da estrutura danificada.
Enquanto decorrem estas acções, a população é chamada a respeitar toda a sinalização colocada no local e a evitar aproximar-se da área, por questões de segurança.
Mais cedo, a edilidade informou que, após as fortes chuvas de sábado, 22, e domingo, 23, as equipas da Câmara Municipal de São Miguel estão no terreno a trabalhar para restabelecer a normalidade na estrada de acesso à localidade de Pilão Cão. Embora a via já tenha sido reaberta, a circulação permanece condicionada.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1252 de 26 de Novembro de 2025.
homepage








