A informação foi avançada pela coordenadora do Laboratório de Entomologia Médica do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) e investigadora principal do projecto em Cabo Verde, Silvânia Leal, à margem da cerimónia oficial de encerramento.
Segundo a responsável, as espécies identificadas, conhecidas como Sergentomyia fallax e Sergentomyia squamipleuris, pertencem ao grupo dos flebótomos, vectores associados à transmissão de agentes patogénicos.
“Identificámos uma nova espécie de flebótomo, associada à transmissão de parasitas e vírus. Contudo, a espécie encontrada em Cabo Verde não está ligada à transmissão de agentes infecciosos”, precisou.
Apesar de não representar, para já, um risco directo para a saúde pública, Silvânia Leal considerou que a descoberta constitui um avanço relevante no conhecimento científico sobre os vectores existentes no arquipélago.
“Este tipo de identificação permite melhorar a vigilância e antecipar potenciais riscos”, sublinhou.
No seu entender, o projecto ONESVEC contribuiu igualmente para o reforço da capacidade nacional de diagnóstico e vigilância entomológica.
“O país ficou capacitado ao nível dos recursos humanos e da instalação de capacidade laboratorial para o diagnóstico de mosquitos, carraças e flebótomos”, afirmou.
Desenvolvido no âmbito da abordagem integrada das “três saúdes”, humana, animal e ambiental, o projecto envolveu estudos em vectores, população humana e animais domésticos.
“Trabalhámos de forma articulada a saúde humana, animal e ambiental”, explicou a investigadora.
O ONESVEC contou com o apoio técnico do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em Portugal.
“Foi assegurado todo o suporte técnico necessário para reforçar as capacidades locais, através de uma colaboração estreita entre os dois institutos”, indicou Silvânia Leal, acrescentando que o financiamento global rondou os 240 mil euros. O projecto decorreu entre 2022 e 2025.
Apesar do encerramento formal, a responsável garantiu a continuidade das acções. “O projecto termina, mas a vigilância contínua, sustentada nos ganhos obtidos”, frisou.
Também presente na cerimónia, a investigadora principal do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Rita Sousa, salientou que vigilância entomológica em países tropicais como Cabo Verde é essencial para mitigar riscos e controlar potenciais surtos.
A especialista destacou ainda a realização de um inquérito seroepidemiológico à população cabo-verdiana como um contributo para a saúde pública.
“O estudo permitiu avaliar a exposição da população a vírus como o dengue e o zika e apoiar a definição de estratégias de vigilância e intervenção”, explicou.
Rita Sousa observou que a ilha de Santiago apresenta maior exposição a estes vírus.
“É a ilha onde se verifica uma maior prevalência de anticorpos, o que coincide com o histórico dos surtos registados”, concluiu.
No seu discurso, a ministra da Saúde de Portugal, Ana Paula Martins, disse que o ONESVEC deixou como principal legado o reforço das capacidades nacionais de vigilância das doenças transmitidas por vectores, a melhoria da resposta integrada em saúde pública e a formação de mais de 120 profissionais em diferentes áreas.
“Isto reforça de forma duradoura as competências locais e aumenta significativamente o conhecimento dos profissionais de saúde de ambos os países”, disse.
Ana Paula Martins recordou que as doenças transmitidas por vectores correspondem actualmente a mais de 17% das doenças infecciosas a nível mundial, sendo responsáveis por mais de mil milhões de casos e mais de um milhão de mortes por ano, num contexto em que a urbanização acelerada e as migrações favorecem a expansão dos vectores.
“Investir em investigação nesta área é antecipar cenários, prevenir surtos, proteger as populações mais vulneráveis e reforçar a segurança sanitária”, afirmou.
Por seu turno, o ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, realçou que o ONESVEC traduziu a abordagem Uma Só Saúde não como um conceito abstracto, mas como uma prática aplicada ao território, às ilhas e às realidades concretas.
Jorge Figueiredo frisou que a cooperação em saúde pública entre Cabo Verde e Portugal não se limita a projectos, mas constrói sistemas, forma pessoas, transfere conhecimento e deixa capacidade instalada, como ficou patente durante a resposta à pandemia.
“Este projecto produziu conhecimento útil para a decisão política e para a acção no terreno”, afirmou, acrescentando que Cabo Verde continuará a contar com Portugal como parceiro estratégico.
Um flebotomo é um insecto muito pequeno, parecido com um mosquito, também conhecido como mosquito-palha ou mosquito da areia. Pica pessoas e animais para se alimentar de sangue e pode transmitir doenças, principalmente a leishmaniose.
Vive mais em lugares quentes, húmidos, com mato, lixo orgânico ou animais por perto e costuma picar ao entardecer e à noite.
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