Nova espécie transmissora de doenças identificada em Cabo Verde no âmbito do projecto ONESVEC

PorSheilla Ribeiro,29 jan 2026 12:20

Uma nova espécie de flebótomo foi identificada pela primeira vez em Cabo Verde no âmbito do projecto One Health Action for Enhancing Surveillance on Vector Borne Diseases in Cabo Verde (ONESVEC), um dos resultados científicos mais relevantes da iniciativa que reforçou a vigilância das doenças transmitidas por vectores no país.

A informação foi avançada pela coordenadora do Laboratório de Entomologia Médica do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) e investigadora principal do projecto em Cabo Verde, Silvânia Leal, à margem da cerimónia oficial de encerramento.

Segundo a responsável, as espécies identificadas, conhecidas como Sergentomyia fallax e Sergentomyia squamipleuris, pertencem ao grupo dos flebótomos, vectores associados à transmissão de agentes patogénicos.

“Identificámos uma nova espécie de flebótomo, associada à transmissão de parasitas e vírus. Contudo, a espécie encontrada em Cabo Verde não está ligada à transmissão de agentes infecciosos”, precisou.

Apesar de não representar, para já, um risco directo para a saúde pública, Silvânia Leal considerou que a descoberta constitui um avanço relevante no conhecimento científico sobre os vectores existentes no arquipélago.

“Este tipo de identificação permite melhorar a vigilância e antecipar potenciais riscos”, sublinhou.

No seu entender, o projecto ONESVEC contribuiu igualmente para o reforço da capacidade nacional de diagnóstico e vigilância entomológica.

“O país ficou capacitado ao nível dos recursos humanos e da instalação de capacidade laboratorial para o diagnóstico de mosquitos, carraças e flebótomos”, afirmou.

Desenvolvido no âmbito da abordagem integrada das “três saúdes”, humana, animal e ambiental, o projecto envolveu estudos em vectores, população humana e animais domésticos.

“Trabalhámos de forma articulada a saúde humana, animal e ambiental”, explicou a investigadora.

O ONESVEC contou com o apoio técnico do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em Portugal.

“Foi assegurado todo o suporte técnico necessário para reforçar as capacidades locais, através de uma colaboração estreita entre os dois institutos”, indicou Silvânia Leal, acrescentando que o financiamento global rondou os 240 mil euros. O projecto decorreu entre 2022 e 2025.

Apesar do encerramento formal, a responsável garantiu a continuidade das acções. “O projecto termina, mas a vigilância contínua, sustentada nos ganhos obtidos”, frisou.

Também presente na cerimónia, a investigadora principal do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Rita Sousa, salientou que vigilância entomológica em países tropicais como Cabo Verde é essencial para mitigar riscos e controlar potenciais surtos.

A especialista destacou ainda a realização de um inquérito seroepidemiológico à população cabo-verdiana como um contributo para a saúde pública.

“O estudo permitiu avaliar a exposição da população a vírus como o dengue e o zika e apoiar a definição de estratégias de vigilância e intervenção”, explicou.

Rita Sousa observou que a ilha de Santiago apresenta maior exposição a estes vírus.

“É a ilha onde se verifica uma maior prevalência de anticorpos, o que coincide com o histórico dos surtos registados”, concluiu.

No seu discurso, a ministra da Saúde de Portugal, Ana Paula Martins, disse que o ONESVEC deixou como principal legado o reforço das capacidades nacionais de vigilância das doenças transmitidas por vectores, a melhoria da resposta integrada em saúde pública e a formação de mais de 120 profissionais em diferentes áreas.

“Isto reforça de forma duradoura as competências locais e aumenta significativamente o conhecimento dos profissionais de saúde de ambos os países”, disse.

Ana Paula Martins recordou que as doenças transmitidas por vectores correspondem actualmente a mais de 17% das doenças infecciosas a nível mundial, sendo responsáveis por mais de mil milhões de casos e mais de um milhão de mortes por ano, num contexto em que a urbanização acelerada e as migrações favorecem a expansão dos vectores.

“Investir em investigação nesta área é antecipar cenários, prevenir surtos, proteger as populações mais vulneráveis e reforçar a segurança sanitária”, afirmou.

Por seu turno, o ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, realçou que o ONESVEC traduziu a abordagem Uma Só Saúde não como um conceito abstracto, mas como uma prática aplicada ao território, às ilhas e às realidades concretas.

Jorge Figueiredo frisou que a cooperação em saúde pública entre Cabo Verde e Portugal não se limita a projectos, mas constrói sistemas, forma pessoas, transfere conhecimento e deixa capacidade instalada, como ficou patente durante a resposta à pandemia.

“Este projecto produziu conhecimento útil para a decisão política e para a acção no terreno”, afirmou, acrescentando que Cabo Verde continuará a contar com Portugal como parceiro estratégico.

Um flebotomo é um insecto muito pequeno, parecido com um mosquito, também conhecido como mosquito-palha ou mosquito da areia. Pica pessoas e animais para se alimentar de sangue e pode transmitir doenças, principalmente a leishmaniose.

Vive mais em lugares quentes, húmidos, com mato, lixo orgânico ou animais por perto e costuma picar ao entardecer e à noite.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,29 jan 2026 12:20

Editado porSheilla Ribeiro  em  29 jan 2026 14:32

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