Em Porto Novo, na ilha de Santo Antão, António Guilherme mantém a tradição familiar de produzir queijo fresco desde criança, dedicando-se exclusivamente a esta arte aprendida com os pais, ao contrário de outros produtores que também fazem queijo curado.
Segundo explica, quem produz o curado continua a fabricar o fresco, beneficiando do escoamento de ambos. “O queijo fresco de Santo Antão é muito conhecido e muito procurado, assim como o curado”, afirma.
A produção diária varia conforme as condições naturais. Actualmente, Marciano produz cerca de seis queijos por dia, bem abaixo do normal. “Choveu pouco e estamos a dar milho às cabras”, refere.
Conforme lembra, em períodos favoráveis a produção pode chegar a 20 queijos diários.
A procura elevada contrasta com a oferta limitada, sobretudo numa zona turística como Porto Novo. “Há muito freguês e a produção é insuficiente”, admite. Além das vendas locais, parte da produção segue para Mindelo e, pontualmente, para outras ilhas.
Com cerca de 35 cabras, o produtor reconhece que o volume continua reduzido, devido à dependência do milho comprado e à escassez de chuva, factores que também influenciam o preço. “Neste momento o queijo é caro”, justifica.
Integrado na Cooperativa dos Produtores de Queijo do Planalto Norte, Marciano destaca a valorização do queijo da ilha, apontando a falta de certificação oficial.
Aliás, refere, apesar da procura por parte de emigrantes que levam o produto para o exterior, essa dinâmica não equivale a exportar de forma estruturada. Na sua visão, a certificação aumentará a confiança dos consumidores e permitirá a exportação.
O escoamento actual é facilitado pelo transporte regular para Porto Novo e Mindelo.
“Temos uma viatura a cada três dias, no qual mandamos os nossos queijos para Porto Novo. A partir daí, rabidantes de São Vicente asseguram a ligação ao Mindelo”, esclarece. O queijo sem saída imediata é seco, prolongando a conservação.
Seca dificulta produção no Fogo
Monte Grande, no concelho de São Filipe, na ilha do Fogo, continua a ser um dos pontos onde se preserva a produção artesanal de queijo fresco tradicional. Jorge Silveira, assim como António Guilherme, produtor local, afirma que aprendeu o ofício ainda em criança, acompanhando o pai para o campo.
“Comecei pequeno, a ir para o campo com o meu pai. Ele fazia o queijo ali mesmo e foi assim que aprendi. Eu e os meus irmãos ainda fazemos com o mesmo método de produção”, conta.
A produção, no entanto, tem sido condicionada pela falta de chuva. Segundo o produtor, a escassez de pasto obriga à compra de milho e ração, encarecendo todo o processo.
“Este ano é de crise, não há pasto e tenho de comprar alimentação para os animais, o que é um pouco difícil devido ao preço”, explica.
Nestas condições, Jorge Silveira e a irmã conseguem produzir cerca de 45 queijos por dia. Em anos mais favoráveis, a realidade é diferente. “Quando chove e há bastante pasto, fazemos muito mais queijo, porque os animais comem mais e produzem mais leite”, salienta.
O queijo é elaborado a partir de leite de cabra, coalho e cincho, um aro preparado com Carapate “Manel” para moldar e prensar a coalhada.
Com um efectivo actual de cerca de 70 cabras, Jorge Silveira refere que todo o queijo provém exclusivamente dos seus próprios animais. A comercialização acontece localmente e por meio de intermediários.
“Vendemos em casa, mas também enviamos para alguém em São Filipe, que depois revende na Praia através dos seus vendedores”, explica.
Os preços variam consoante o canal de venda. “Normalmente vendemos aos revendedores por 100 ou 90 escudos. Aqui em casa, o preço é de 120 escudos”, indica. Os emigrantes, prossegue, também procuram muito o queijo de Monte Grande.
“Há sempre muitas encomendas para os Estados Unidos da América e para Portugal”, diz.
Apesar da procura externa, o produtor reconhece que os rendimentos diminuíram significativamente este ano. “Quando é um ano de muita chuva, o dinheiro do queijo rende muito. Este ano gasto mais na produção devido ao milho e não há assim tanto rendimento”, lamenta.
A situação tem levado muitos criadores da zona sul da ilha a desistirem da actividade. “Muitas pessoas já venderam os seus animais. Mas, essa não é uma opção para a minha família. Se vendermos os nossos animais, não teremos outro meio de sustento. Não há muitas oportunidades de emprego, por isso temos de continuar mesmo sendo difícil. Vivemos dos animais”, conta.
Entre os principais constrangimentos, Jorge Silveira aponta ainda os transportes. “Quando os barcos avariam, temos dificuldades no escoamento dos produtos. Se as rabidantes que vendemos o queijo não conseguem mandar para Praia, não compram”, refere.
Outro desafio é que em períodos de grande produção, a falta de mercado provoca uma descida do preço do queijo.
Falta de leite limita produção apenas ao queijo fresco
A queijaria Cutelo Capado, também na ilha do Fogo, foi formalmente criada em 2015, mas resulta de um percurso iniciado mais de uma década antes. De acordo com João Andrade, sócio e gestor técnico, a cooperativa foi fundada em 2015, mas é o resultado de um trabalho que tinha sido feito entre 2002 e 2003.
Conforme conta, a estrutura surgiu da necessidade de dar resposta a limitações legais de uma associação existente, que não podia desenvolver actividades geradoras de rendimento, levando os responsáveis a optarem por um modelo cooperativo que permitisse produzir e comercializar queijo.
Além do tradicional queijo fresco, a queijaria dispõe de queijo curado e, sob encomenda, queijos temperados. No entanto, a actual produção está condicionada pela escassez de leite.
“Neste momento produzimos mais queijo fresco, temos pouca disponibilidade de leite, derivado ao mau ano agrícola”, explica João Andrade. Neste sentido, reforça que a produção diária ronda os 150 queijos, apesar da capacidade instalada permitir atingir cerca de 400 unidades por dia.
A comercialização concentra-se sobretudo fora da ilha do Fogo. “A maioria do nosso queijo é vendido na cidade da Praia e também na ilha do Sal”, diz. A expansão para outras ilhas enfrenta entraves logísticos.
“O transporte continua a ser o calcanhar de Aquiles da cooperativa. O transporte marítimo é o principal obstáculo à distribuição do queijo fresco, a par da dificuldade na aquisição de matérias-primas, embalagens, rótulos e equipamentos”, indica.
Sem certificação para exportação, a queijaria encontra-se a trabalhar com as entidades competentes para alcançar esse objectivo. Paralelamente, a produção de queijo assume uma dimensão social relevante.
“Tem sido uma das grandes ferramentas para tentar combater a desigualdade social e a pobreza no meio rural”, sublinha.
Dificuldades de escoamento é o desafio do Maio
Em Ribeira Dom João, a fábrica comunitária de queijos começou a funcionar em 2017, mas acabou por suspender as actividades em 2019, na sequência da pandemia da COVID-19.
O espaço voltou a abrir portas em 2023, inicialmente com três mulheres. Contudo, hoje Rosalina é a única produtora que trabalha no local.
“As outras queriam produzir, mas não queriam andar para vender o queijo. Aqui não podemos produzir e ficar à espera que as pessoas venham comprar”, explica.
Segundo afirma, a ausência de um mercado fixo obriga à venda directa, sobretudo no porto da cidade do Porto Inglês, sempre que chegam os barcos.
“As outras não quiseram continuar a sair com baldes de queijo à cabeça, por isso a Associação acabou por se desfazer à medida que algumas optaram por produzir em casa, outras desistiram devido à idade e, por fim, restaram apenas três, até eu ficar sozinha”, descreve.
Rosalina confessa que também pensou em abandonar a actividade, mas acabou por permanecer após o apelo da comunidade. “As pessoas pediram para deixar a porta da queijaria aberta, por isso fiquei”, afirma.
Actualmente, consegue produzir cerca de 20 queijos por dia, exclusivamente fresco, feito com leite de cabra. O saber vem de longa data: “Aprendi com a minha mãe. Faço queijo desde os 12 anos”.

A produção varia consoante as condições climáticas. Com as chuvas de Novembro, o pasto aumentou e a produção manteve-se elevada, mas a situação começa a inverter-se.
“O pasto já está a secar e com certeza a produção vai diminuir. Entre Abril e Junho a quebra é inevitável”, antecipa.
Apesar do esforço, o Rosalina afirma que o retorno financeiro é limitado. Cada queijo é vendido a 150 escudos, um valor que, considera, não compensar todo o trabalho envolvido.
“Se cobrarmos o preço justo pelo esforço, ninguém compra”, lamenta. Nisso, explica que o valor é pensado para facilitar a venda rápida, apostando sobretudo na qualidade do produto.
Os principais clientes encontram-se fora da ilha, nomeadamente na Praia e em São Vicente. “Quando o barco chega, levamos para o caís. Alguns encomendam, outros vêm por indicação de quem já comprou”, conta.
Ainda assim, nem sempre consegue escoar toda a produção, sobretudo quando vários produtores se juntam no mesmo local. “Às vezes somos cerca de sete pessoas, de diferentes pontos da ilha, a vender queijo e não dá para vender tudo”, refere.
Nessas situações, a produtora tenta enviar os queijos para a Praia por meio de conhecidos ou desloca-se a localidades como Mourinho ou Calheta para evitar perdas.
No passado, quando havia mais produtoras em Ribeira Dom João, o desperdício era maior, agravado pela falta de electricidade e pela limitação dos frigoríficos.
Agora, Rosalina possui cerca de 40 cabras e, enquanto há pasto, evita comprar milho, o que permite que o rendimento da venda do queijo ajude no sustento da família.
No entanto, aponta várias dificuldades, como a falta de um espaço próprio para recepção e venda dos queijos e os horários dos barcos, que por vezes chegam apenas à noite. “Há dias em que fico no escuro no porto a vender e depois tenho dificuldades para regressar a casa”, relata.
A falta de transporte para Ribeira Dom João é outro obstáculo. Segundo a produtora, muitos condutores emigraram e os poucos que restam nem sempre aceitam deslocações tardias. “Isso faz-me pensar muito antes de sair para ficar até tarde à espera de vender os queijos”, admite.
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A falta de políticas de proximidade e de apoio efectivo à agro-pecuária na Ilha do Fogo está a levar agricultores e criadores a ponderarem o abandono da actividade, colocando em risco a continuidade do queijo tradicional. O alerta é do presidente da Associação Ka Djidja, organizadora da Festa do Queijo de Monte Grande, Pedro Matos.
“Há agricultores e criadores a pensar seriamente em desistir da actividade, inclusive diminuindo o número de cabeças de gado, porque não têm mais condições de sustentar aquela quantidade”, afirma. Sem uma política eficiente de apoio aos pequenos produtores, o queijo tradicional da ilha, sobretudo na região serrana, pode enfrentar risco de extinção. “Os jovens já não estão interessados em tantos sacrifícios com pouco retorno financeiro”, acrescenta.
A Festa do Queijo surgiu da preocupação com a desvalorização do produto. “Pensámos que, enquanto apreciávamos o próprio queijo, fazia sentido criar um projecto que valorizasse este produto tão conhecido e apreciado a nível nacional”, explica. Apesar da notoriedade, persistem dificuldades. “Há mulheres e homens que trabalham na pecuária e que não conseguem ter um retorno suficiente da produção e da venda do queijo para sustentar a sua vida”, observa.
A associação aposta na formação técnica. “Identificámos um problema ligado à desvalorização do queijo em várias dimensões e percebemos que era possível aumentar o seu valor”, indica. Na quinta edição, o foco é a denominação de origem e o selo de qualidade. “Queremos trabalhar o queijo da Ilha do Fogo como património gastronómico, histórico e cultural de Cabo Verde”, diz.
Num ano de seca, o cenário agrava-se. “Sem pasto e sem ração, não há leite. Sem leite, não há queijo. E sem queijo, não há rendimento”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1261 de 28 de Janeiro de 2026.
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