Gostaria de começar por revisitar todo o caminho percorrido até chegar ao momento do primeiro transplante renal no país. Estamos a falar de mais de dez anos de caminhada.
Até 2014 não existia hemodiálise em Cabo Verde. Foi em 2010 que o ministro português achou que era preciso criar, em Santiago, um centro de hemodiálise. Em 2014, começou a funcionar. Em 2015, chamaram-me para tratar dos acessos vasculares, que são cirurgias realizadas nos braços e nas artérias, para que a diálise seja possível. Com a minha experiência nesse tipo de cirurgia vascular e na transplantação, era óbvio que, numa população destas, muito jovem, com muitos irmãos, era preciso implementar o transplante renal, que é a única salvação, a única maneira de tratar definitivamente, em cada doente, a insuficiência renal – ter um rim que passe a substituir as máquinas. A vida em hemodiálise é terrível, infernal. Portanto, comecei em 2015, trouxe a lei portuguesa, mas houve tanta resistência parlamentar, por isto e por aquilo, que não sei explicar, nem entendo.
Em 2023, com a Dra. Filomena Gonçalves como ministra da Saúde, estive com ela duas horas, a explicar-lhe o que estava em causa. Ela entendeu e, ano e meio depois, tinha a lei aprovada na generalidade e na especialidade.
A partir daí, tivemos de protocolar tudo, com o apoio do Camões e da Embaixada Portuguesa, para viabilizar este processo. E assim fizemos. O protocolo foi assinado a 15 de Janeiro – foi quando me deram a notícia de que estava tudo pronto. Eu organizei-me e, quatro ou cinco dias depois, estava em São Vicente e em Santiago a colher sangue dos doentes, para fazer a tipagem, para conseguir iniciar a transplantação. Claro que nem tudo correu como prevíamos, há sempre muita dificuldade logística, mas lá conseguimos chegar ao primeiro transplante em Santiago. Foi pena ter sido só um – há muitos doentes que é preciso transplantar – mas esse conseguiu-se e, ainda por cima, com sucesso técnico perfeito. O transplante foi na terça-feira e, na quarta-feira, a dadora andava a pé. Na quinta-feira, estava pronta para ir para casa, mas quis ficar mais um dia e foi na sexta-feira.
A cirurgia em si é um processo relativamente simples.
É uma cirurgia com uma pequena incisão, com dois pequenos orifícios para introduzir os aparelhos. O dador não sofre nada. Nós temos dois rins, um suplente, digamos, porque eles funcionam a 60% no indivíduo normal. Quando tiramos um, o outro passa a fazer a função total, a funcionar a 100%, hipertrofia-se um bocado e funciona. O dador não tem complicação nenhuma, fica perfeito. Tivemos de trazer uma equipa de cirurgiões urologistas, com uma experiência enorme, com 350 operações destas no currículo.
Ao chegarmos aqui, o que é que isto representa para si, a nível pessoal?
Eu já tenho bastante idade, estou reformado da vida hospitalar no meu país, mas tinha este sonho e lutei, lutei, lutei até conseguir. Era preciso aprovar a lei, foi muito difícil, mas conseguiu-se. Sinto-me completamente realizado, claro. Este é o primeiro passo – é preciso andar para a frente – e é nisso que estamos a trabalhar actualmente: preparar o futuro, aumentar o número de transplantes. Foi um bocado frustrante trazer uma equipa grande e só conseguirmos ter um par para fazer um transplante. A minha ideia inicial era ter quatro ou cinco, também na ilha de São Vicente, mas isso não foi possível, por desorganização, por falta de preparação, e é nisso que estamos a trabalhar. Viemos especialmente a São Vicente estudar todos os doentes em diálise, para programar o futuro, estudá-los e procurar arranjar mais pares para transplante. Proximamente, dentro de um mês ou mês e meio, pretendemos fazer mais quatro, cinco ou dez transplantes, os que forem necessários.
O que está a ser feito para que se possa concretizar a realização dos transplantes em São Vicente? Sabemos que o centro de diálise na ilha já está sob pressão.
Os doentes continuam a aparecer. Estatisticamente, Cabo Verde, com 500 mil habitantes, deveria ter 500 doentes em diálise; só tem 200 e tal – ou seja, eles estão por aí. Ou estão a morrer, ou estão a caminho e, portanto, reduzir doentes em diálise, libertando máquinas para outros, é fundamental. Do ponto de vista financeiro, porque esse é um problema de todos os governos e de todas as gestões, um transplantado gasta metade do dinheiro que gasta um doente em diálise. Portanto, isto não tem discussão. É preciso andar para a frente. A vida de um transplantado é maior, tem mais sobrevida, tem muito menos complicações, tem completa autonomia de vida. Viaja, mexe, trabalha, deixa de ser doente, teoricamente. Com o apoio das autoridades, especialmente do ministro, Dr. Jorge Figueiredo, viemos a São Vicente estudar todos os doentes, para os preparar para podermos criar transplantes. É isso que estamos a fazer com bastante sucesso. Estão a ir análises para fazer tipagens, para ver a compatibilidade entre dador e receptor, que é uma coisa fundamental. Isto não é, basicamente, um problema de operação. A operação é uma coisa de uma hora, muito simples. O mais importante é esta organização, esta logística. Está em curso, está a ser criada, está a avançar. Toda a gente está entusiasmadíssima com o que temos vindo a fazer. Tenhamos esperança no futuro.

Sei que um dos constrangimentos que tem enfrentado é alguma resistência de possíveis dadores, pessoas que temem que, ao fazer a doação, possam ficar com problemas.
O dador tem de ser muito bem estudado. Temos de estudar muito bem, para ele não ter doença, porque, se tiver doença, não pode dar o rim. Os nossos dadores vivem bem, sem nenhuma complicação. Às vezes dizem: “ah, mas se eu vier a ter uma doença renal, fico prejudicado porque dei um rim”. Não. Alguém que dê um rim pode vir a ter uma doença renal. Se lá tiver os dois, tem nos dois; se tiver um, tem num. Portanto, isso não tem interferência nenhuma com a colheita e com a doação. É preciso doar. Fazemo-lo com muita segurança. A tecnologia actual, com a colheita laparoscópica, por uma pequena incisão e dois orifícios, revolucionou tudo isto e o dador não tem confusão nenhuma, não tem problema nenhum, não toma medicamentos, não precisa de nada. Faz uma vida inteiramente normal, porque o rim que lhe sobra funciona pelos dois.
Este primeiro transplante feito na Praia ajuda a sensibilizar possíveis dadores.
Exactamente. O grande avanço é que agora fizemos um, existe. O dador está muito bem, o receptor está muito bem. Fez-se, faz-se, é possível — é preciso andar para a frente. Temos muitos doentes à espera de que façamos isto e que os salvemos desta hipoteca diária, de dois em dois dias irem à máquina, estarem quatro horas ligados a fazer hemodiálise, completamente dependentes de uma localização. Em Cabo Verde há dez ilhas, só há diálise em duas. Os desgraçados que vivem numa ilha que não seja São Vicente ou Santiago têm de emigrar para Santiago ou São Vicente e ficam sem família, sem apoio, sem condições.
Quem nos lê e tem um familiar a fazer diálise, se quiser disponibilizar-se como possível dador, como deve fazer?
Deve ir ao centro de diálise, falar com os médicos e dizer: “eu quero dar”. Se quer dar, estuda-se. O dador tem de ser completamente saudável, não pode ter doenças, tem de fazer estudos, como nós fazemos, cuidadosamente, mandar o sangue para Portugal para tipar, para ver se serve ao receptor. Tem de fazer um exame especial, de que nós precisamos para fazer a colheita laparoscópica: um angio-TAC. Nós recebemos essa informação em Portugal, avaliamos, eu e os urologistas, e programamos o transplante. Não tem discussão, é uma coisa muito simples.
Sem custo para o dador?
Sem custo para o dador, claro. O dador deve ser o mais protegido possível, o mais acarinhado possível – é um herói. A menina que deu o rim ao irmão é uma heroína, merecia uma estátua.
O que é que representa para os doentes renais em Cabo Verde esta possibilidade de receberem um rim e, de certa forma, desligarem-se das máquinas?
Uma esperança de vida – isto cria vida. O entusiasmo que nós temos ouvido nestes dias é uma maravilha. Como é que é possível esta vida de dependência, de ir duas, três vezes por semana à máquina, ser picado, estar ali quatro horas com a máquina a lavar o sangue? De repente, ficam livres disso e têm uma vida completamente normal, tomando a medicação.
Para o país, o que se segue?
Continuar o trabalho de organização, de logística, de elucidação, de esclarecimento dos dadores, dos médicos, dos técnicos, dos enfermeiros, para ajudarem os doentes a entender que isto tem de se fazer. Temos de andar para a frente. Todo o doente passível de transplante, que tenha dadores, tem de ser transplantado. É nisso que temos trabalhado.
Que papel continuará a ter a cooperação internacional, neste caso, Portugal?
É fundamental. Há coisas muito difíceis de existir em Cabo Verde. Uma dessas coisas é a tipagem, a compatibilização entre dador e receptor. É um processo muito científico, muito complexo, que exige muita experiência, muito investimento laboratorial e que precisa de números. Cabo Verde nunca terá números – tem pouca população –, portanto, não vale a pena investir numa fábrica de parafusos para fazer cinco parafusos por dia.
Neste caso, o investimento prioritário deve ser em quê?
Deve ser na logística humana, nos médicos, nas estruturas, nos enfermeiros, no cuidado das equipas que trabalham nos hospitais para apoiar os doentes e dar-lhes apoio, aconselhamento e seguimento.
O Governo anunciou a intenção de realizar 20 transplantes até final do ano.
É perfeitamente possível. Os candidatos existem – temos de os trabalhar, temos de os estudar e temos de programar e andar para a frente. Estamos em Abril, ainda temos tempo.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272 de 15 de Abril de 2026.
homepage











