Ao chegarem à casa de Sandra Correia, em Mato Baixo, interior de Santiago, os turistas começam por ser recebidos num ambiente familiar.
À mesa, logo que chegam, são servidos aperitivos simples, preparados no momento, acompanhados de sumo natural de papaia, pensado para quem chega de caminhadas longas. Depois, vestem bata e o lenço na cabeça, como quem faz parte da família por um dia.
Segue-se a ida à estufa, onde os visitantes colhem os legumes que irão utilizar na preparação da refeição. De regresso à cozinha, cada um assume uma tarefa, cortar, mexer, temperar sob orientação de Sandra.
A galinha de terra, já previamente preparada, junta-se à massa de milho ou ao xerém, dando corpo a uma refeição que resulta do esforço colectivo.
“Tenho um vizinho, gerente de uma agência de viagens, que trouxe turistas para a sua casa. Ele precisava de alguém que falasse francês e eu fiquei com uma senhora idosa do grupo. Convidei a senhora e a filha à minha casa e elas gostaram. Depois, o meu vizinho propôs-me sociedade em que ele traria turistas e eu receberia na minha casa para fazer actividades do dia-a-dia”, conta Sandra Correia.
A partir desse encontro fortuito, a casa transformou-se num espaço de partilha e o que começou como uma experiência ocasional tornou-se numa fonte de rendimento constante.
Antes, Sandra dedicava-se sobretudo à agricultura e à criação de animais, vendendo legumes no mercado de Assomada e ovos das galinhas poedeiras. Hoje, a recepção de turistas ocupa um lugar central na economia familiar desde 2022.
Contudo, com o aumento do custo dos produtos esta actividade está um pouco complicada. “Esse dinheiro que recebemos já não tem o impacto que tinha antes. Se recebermos um casal não ganhamos tanto quanto gostaríamos, mas se vierem grupos maiores conseguimos um rendimento melhor”, explica.
Mulheres de Longueira transformam comunidade com turismo
Em Longueira, no concelho de São Lourenço dos Órgãos, um grupo de mulheres que frequentam a igreja receberam, além de apoio financeiro, formações que lhes permitem reaproveitar alimentos, a melhorar práticas de higiene e a diversificar a alimentação.
“Aqui há muita papaia, então ensinaram-nos a fazer sumo natural ao invés dos de pacote. Também tivemos formação em artesanato e aprendemos a transformar roupas que já não usamos em outros artigos”, recorda. O conhecimento foi aplicado no dia-a-dia, ganhando forma em produtos, práticas e, mais tarde, experiências para quem chega de fora.
Com o tempo, a organização cresceu. As mulheres juntaram-se, recolheram materiais e ergueram um espaço próprio. “Pedimos ajuda para termos um centro para desenvolver as nossas actividades e, em parceria com a Câmara Municipal, juntámos brita, apanhámos areia e fizemos o nosso centro”, explica Isabel. Foi nesse contexto que surgiu a ligação ao turismo, através de uma parceria entre a Cáritas de Cabo Verde e de França.
Os primeiros visitantes chegaram sem custos, numa fase de descoberta. “Quando a Cáritas de França veio para Cabo Verde recebemo-los sem pagar nada. Viram a nossa capacidade e arranjaram mais turistas para serem acolhidos por nós. Depois resolveram pagar-nos por noite”, relata. Com o aumento do custo de vida, os valores foram ajustados, permitindo um rendimento mais justo para quem acolhe.
Hoje, a experiência vai muito além do alojamento. À chegada, os visitantes são integrados na rotina da comunidade. “Ensinamo-los a torrar café, ‘kotxi’ milho, fazem xerém, cachupa, comida da nossa terra. E quando colocamos a comida na mesa, comemos todos juntos, como se fôssemos uma família”, descreve.
Entre refeições, há espaço para conversas, apresentações e partilha de histórias, criando uma ponte entre culturas.
O grupo é composto actualmente por seis mulheres, que se organizam conforme o número de visitantes. “Se vier um grupo grande todas nós recebemos, se for pequeno alternamos, mas trabalhamos em comum”, explica. A estufa comunitária é outro dos pontos de interesse, onde os turistas participam na sementeira e conhecem as práticas agrícolas locais.
A língua continua a ser uma barreira. “Nós não falamos francês, então vem sempre um guia. Já compreendemos um pouco, sabemos cumprimentar, mandar entrar, mas ainda falta mais. Precisamos de formação em línguas”, admite. Ainda assim, a comunicação acontece, muitas vezes, através de gestos e ferramentas digitais.
O impacto do turismo reflecte-se directamente na vida das famílias, conforme Isabel. “Na primeira vez que recebi turistas não tinha casa de banho. Pedi à minha cunhada para usarem a dela. Depois, com o dinheiro que recebi, investi numa casa de banho e hoje recebo todos em casa”, conta. Pequenas melhorias que, somadas, estão a mudar o cenário das habitações e da comunidade.
Ao longo dos anos, ficaram amizades, contactos e até viagens de intercâmbio, como a ida de algumas mulheres a França. Após uma pausa durante a pandemia, a actividade foi retomada em 2024, com novo fôlego. Ainda dependentes das parcerias com a Cáritas, as mulheres ambicionam alargar horizontes.
“Gostaríamos de ter mais parcerias com agências, sobretudo agora que há mais turistas e mais formações para melhorar o atendimento e para outras moradoras poderem receber turistas”, refere.
Franceses são os mais interessados em viver a cultura
O interior da ilha de Santiago tem registado, nos primeiros meses de 2026, um aumento significativo da procura turística, impulsionado pelos voos low cost. Segundo Edmilson Sousa, da agência Rural Tours, a procura nos primeiros meses de 2026 pelos serviços da agência superou a do ano de 2025, com um número que varia entre 300 e 400 turistas e com a realização de até quatro saídas diárias, uma dinâmica inédita para esta altura do ano.
O crescimento, diz Edmilson, está associado também a uma mudança no perfil dos visitantes. Predominam agora jovens independentes, que viajam com mochilas, ficam cerca de uma semana e optam por experiências fora dos hotéis.
“São turistas que normalmente ficam por uma semana e não vão para os hotéis”, explica.
Este tipo de turista, prossegue, privilegia o contacto directo com as comunidades e uma vivência mais genuína do destino. “Estes visitantes procuram sobretudo experiências autênticas, desde trilhas em zonas montanhosas até à imersão no quotidiano das populações locais”, diz.
Entre as actividades mais procuradas estão visitas à Boa Entrada, conhecida pela sua árvore centenária e vegetação, e à Serra Malagueta, com destaque para a trilha da Ribeira Principal.
As experiências ligadas à produção de grogue também despertam interesse. “Os produtores recebem-nos de braços abertos e têm prazer em mostrar como é feito o grogue”, descreve.
Os passeios de bote no Porto da Ribeira da Barca até à gruta de Águas Belas, combinados com almoço preparado por pescadores locais na praia da Angra, são igualmente valorizados. “A população é que sai a ganhar. Pagamos 25 euros que inclui o passeio de bote e o almoço”, refere.

A vertente gastronómica tem atraído sobretudo turistas franceses, que participam na confecção de pratos tradicionais, enquanto alemães e portugueses tendem a preferir trilhas e circuitos pela ilha.
Apesar do crescimento, persistem desafios logísticos, como o mau estado de algumas estradas. Ainda assim, Edmilson Sousa acredita que, com mais investimento e inclusão das zonas mais remotas, o turismo rural poderá tornar-se “no motor” económico do interior da ilha, promovendo desenvolvimento local e fixação das populações.
Santo Antão
O turismo em Santo Antão também tem crescido, impulsionado, na maioria, pela chegada dos voos low cost, que têm alterado o perfil dos visitantes e a forma como exploram o destino.
Henrietta Guddens, presidente da Associação dos Guias Turísticos de Santo Antão, afirma que se regista um aumento de visitantes que vêm por conta própria, sem organização de agências, havendo também uma maior procura pelo contacto directo com os guias locais. Este fenómeno traduz-se num turismo mais independente e interessado em vivências autênticas.
“Os visitantes já não procuram apenas caminhadas ou paisagens naturais. Querem mesmo viver uma experiência, já não é só querer estar na natureza, querem também ter contacto com a cultura local. Estão mais à procura de uma experiência simples, reais, ver coisas genuínas, visitar pessoas nas suas casas, cozinhar uma cachupa na lenha, visitar uma fábrica de grogue”, aponta.
Neste contexto, os guias assumem um papel central enquanto elo entre turistas e as comunidades.
“Nós podemos falar a língua do cliente, podemos explicar o que a pessoa local quer dizer ou mostrar. Isso é algo muito importante e fica marcado na memória muito mais do que uma caminhada bonita”, diz.
O turismo rural tem beneficiado, além dos guias, as mulheres que gerem a maioria dos alojamentos e espaços de restauração. Este contributo é considerado pela presidente dos guias essencial para o desenvolvimento local e para a sustentabilidade da oferta turística.
“Sem elas não poderíamos fazer esse turismo rural que tem tido tanta procura”, sublinha.
Apesar da evolução positiva, persistem desafios. As dificuldades de acesso à ilha, quer por via aérea, quer marítima, continuam a limitar a mobilidade dos turistas. A par disso, problemas de infraestruturas e a presença de lixo nos trilhos afectam a experiência e a preservação ambiental.
“As vezes um cliente pode estar no Sal e não pode se deslocar para Santo Antão para fazer uma caminhada. Acho que esse é o problema, além de infraestrutura, há muitos lugares que ainda não têm acesso. De modo geral, o turismo em Santo Antão tem crescido de forma positiva e o importante é tentar manter o que temos de mais especial que é a nossa autenticidade e a nossa morabeza”, ressalta.
Maio
Na localidade de Ribeira Dom João, na ilha do Maio, o turismo de base comunitária acontece há mais de uma década dentro das casas das famílias. Antes mesmo do aumento de visitantes trazidos pelas companhias low cost, Manuela Ribeiro já recebia estrangeiros na sua residência, oferecendo uma experiência próxima da vida local.
A pandemia da COVID-19 interrompeu a actividade, mas a retoma tem sido positiva, com um fluxo de visitantes que, segundo a anfitriã, chega a superar o período anterior.
“Houve uma pausa e retomámos agora, e, hoje em dia, recebo turistas até com mais frequência”, relata.
O contacto é feito sobretudo através de agências de viagens, que organizam estadias de cerca de três dias, tempo suficiente para que os turistas participem na rotina familiar.
Durante a estadia, os visitantes partilham refeições, aprendem a cozinhar pratos tradicionais, convivem com a família e conhecem actividades locais, como a produção de queijo. O peixe é um dos pratos mais apreciados, também pelo interesse em acompanhar a sua preparação.
O aumento do custo de vida levou à subida do preço cobrado, de 3 mil para 4 mil escudos por pessoa.
“Ainda assim, a actividade continua a ser uma fonte importante de rendimento, sobretudo quando recebo casais ou grupos”, afirma.
Os turistas chegam geralmente com guias, que também ficam hospedados e são responsáveis pelos passeios pela ilha. Muitos vêm da Praia ou de São Vicente.
“A maioria dos visitantes tem cerca de 50 anos e é de origem francesa, o que faz com que a comunicação dependa frequentemente dos guias. Com portugueses, a interacção é mais directa”, conta.
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Em 2025, Cabo Verde registou 1.248.052 hóspedes, mais 6% que no ano anterior, com forte predominância de visitantes estrangeiros (95,5%), sobretudo do Reino Unido, Portugal, Alemanha, França e Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo).
A distribuição por ilhas continua concentrada no Sal (57,7%) e Boa Vista (24,4%). Santiago recebeu 8,1% dos hóspedes (cerca de 101 mil), Santo Antão 3,5% (aproximadamente 44 mil), enquanto o Maio integra o grupo das restantes ilhas que, no conjunto, representam apenas 1,8% das entradas.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272 de 15 de Abril de 2026.
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