Andrés Pastrana, Presidente da Internacional Democrata Centrista: “Bem-vindos à geopolítica da incerteza!”

PorAndré Amaral,25 abr 2026 9:21

O ex-presidente colombiano, e actual presidente da Internacional Democrata Centrista, Andrés Pastrana esteve em Cabo Verde, este fim-de-semana, para participar na conferência ‘Democracia em África: eleições, legitimidade e confiança democrática em África’. Nesta entrevista ao Expresso das Ilhas Pastrana traça um retrato de um mundo em transição, marcado pelo fim da hegemonia unipolar, pela ascensão de novos centros de poder e por uma crescente fragmentação global, alertando para os riscos de uma “geopolítica da incerteza”, mas mantendo uma visão optimista quanto à capacidade de cooperação e renovação da ordem internacional.

Como avalia a situação actual da ordem internacional? Estamos a caminhar para um mundo multipolar ou para uma maior fragmentação global?

A ordem internacional atravessa um momento de transição profunda, caracterizado simultaneamente pela emergência de novas potências e países revisionistas, bem como por uma crescente fragmentação. Este é, talvez, um dos momentos mais críticos desde a II Guerra Mundial. Assistimos, portanto, ao fim da hegemonia unipolar e à ascensão de vários centros de poder que estão a reconfigurar a distribuição global de influência. Esta transição não está a ser ordenada nem cooperativa. As tensões geopolíticas, as rivalidades estratégicas e o enfraquecimento do multilateralismo estão a defini-la. Bem-vindos à geopolítica da incerteza!

E quais são então os novos actores da ordem internacional?

Devemos partir do facto de que, actualmente, as fontes de poder são múltiplas. O poder transformou-se e tornou-se cada vez mais difuso, ao estar concentrado em diferentes actores que transcendem o conceito tradicional de Estado-nação. Grandes empresas, filantropos, líderes do sector tecnológico, entre outros, entraram no palco global. Do mesmo modo, organizações criminosas transnacionais têm uma incidência muito negativa nos assuntos mundiais. O resultado é um sistema internacional fragmentado, volátil e frágil. A competição entre potências, a pluralidade de actores e interesses, a proliferação de conflitos e a erosão de normas partilhadas estão a gerar uma espécie de “desordem global”. Este é o mundo em transição em que vivemos. Desafiante.

Como interpreta o papel dos Estados Unidos perante a ascensão de potências como a China?

Os Estados Unidos continuam e continuarão a ser um actor central e insubstituível no sistema internacional, mas enfrentam o maior desafio estratégico das últimas décadas: a ascensão da China como competidor sistémico. Esta rivalidade não é apenas económica ou militar, mas também tecnológica, ideológica e geopolítica. O relevante é que não estamos perante uma nova Guerra Fria em termos clássicos, mas sim uma competição mais complexa e interdependente. Apesar das tensões, ambas as potências continuam profundamente ligadas nos domínios económico e financeiro. Isto gera um cenário híbrido: competição estratégica com interdependência funcional. A paz e a segurança mundiais exigem que as grandes potências trabalhem e colaborem em benefício não apenas dos seus países, mas da humanidade. Estão chamadas a demonstrar liderança, responsabilidade e coerência.

A guerra na Ucrânia alterou estruturalmente os equilíbrios globais?

Devo ser enfático ao afirmar que a guerra da Rússia contra a Ucrânia é condenável sob todos os pontos de vista. Viola todas as normas básicas de convivência pacífica entre nações. A dimensão que este conflito atingiu constitui não apenas uma ameaça para a Ucrânia, mas para toda a Europa. Não podemos aceitar um projecto expansionista que procure reviver ambições imperialistas do passado. Considero que esta guerra teve um impacto estrutural no sistema internacional. Para além do conflito em si, acelerou uma tendência já em curso: o enfraquecimento da ordem baseada em regras. Reactivou a lógica de confrontação e evidenciou as limitações do sistema multilateral, especialmente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para prevenir ou resolver conflitos.

Que outros efeitos teve este conflito?

O conflito teve também efeitos económicos, financeiros e estratégicos profundos, como a crise energética, disrupções nas cadeias de abastecimento, inflação global e reconfiguração de alianças. Reforçou igualmente o papel de actores intermédios e do chamado Sul Global. A guerra na Ucrânia é um ponto de inflexão que marca a transição para um mundo desconhecido, onde, infelizmente, tende a impor-se a “lei do mais forte”.

O aumento dos conflitos regionais pode levar a uma confrontação global?

O risco é real, embora não inevitável. O cenário actual mostra uma preocupante acumulação de conflitos regionais - Ucrânia, Médio Oriente, tensões na Ásia-Pacífico, África - que, apesar de distintos na sua origem, estão cada vez mais interligados pela lógica da competição pelo poder. Esta sobreposição de crises aumenta o risco de escalada, erros de cálculo e efeitos dominó. A história mostra que as guerras globais não resultam de um único evento, mas da convergência de múltiplas circunstâncias e conflitos mal geridos. Ainda assim, existem factores de contenção relevantes: a dissuasão nuclear, a interdependência económica e os custos catastróficos de uma confrontação directa entre potências. O desafio é evitar que a fragmentação e a erosão das normas internacionais enfraqueçam esses travões. A prevenção e a diplomacia estratégica são hoje mais necessárias do que nunca.

Que papel desempenham actualmente organizações multilaterais como a ONU na prevenção de conflitos?

As organizações multilaterais, como as Nações Unidas, são indispensáveis, mas a sua eficácia está seriamente questionada devido à falta de resultados e capacidade de prevenção e resposta. Mais do que eliminá-las, é necessário reforçá-las e actualizá-las. Esta será uma tarefa prioritária para o próximo secretário-geral das Nações Unidas, a partir de Janeiro de 2027. A ONU deve continuar a ser o principal fórum multilateral para promover a paz e a segurança internacionais, sendo um espaço essencial de diálogo, cooperação e gestão de crises.

E o Conselho de Segurança?

O Conselho de Segurança enfrenta limitações estruturais evidentes, nomeadamente devido ao uso do veto, que tem bloqueado respostas atempadas a conflitos críticos. É, portanto, necessário repensar a arquitectura internacional de segurança do pós-guerra, que já foi ultrapassada pela realidade. Daí a urgência de avançar para um “multilateralismo renovado”, mais representativo, eficaz e capaz de responder a um ambiente complexo.

A diplomacia ainda é relevante ou está a ser substituída por estratégias de força?
A diplomacia não perdeu relevância; pelo contrário, é mais necessária do que nunca, embora hoje concorra com uma crescente utilização de estratégias de poder duro. O que se observa não é o seu desaparecimento, mas a sua transformação. O uso da força, as sanções económicas, a coerção tecnológica e as pressões geopolíticas ganharam terreno como instrumentos de política externa. No entanto, estes mecanismos, por si só, não resolvem conflitos estruturais nem constroem estabilidade sustentável. O desafio actual é fortalecer uma diplomacia mais estratégica, pragmática e adaptada a um mundo multipolar.
A diplomacia não é uma opção idealista: é uma necessidade realista.

Até que ponto o aumento das desigualdades pode tornar-se um factor central de instabilidade global?

O aumento das desigualdades é hoje um dos principais vectores de instabilidade global. Não se trata apenas de uma questão social ou económica, mas de um factor com profundas implicações políticas e de segurança. As crescentes disparidades em rendimento, oportunidades e acesso a serviços básicos e tecnologia corroem a coesão social, enfraquecem a legitimidade das instituições e alimentam o descontentamento. Isto traduz-se em protestos sociais, polarização política, ascensão de discursos populistas e, em casos extremos, violência e conflitos internos. A nível internacional, influencia também fenómenos como migrações massivas e a fragilidade dos Estados. O problema é particularmente complexo porque, embora a desigualdade entre países tenha diminuído, dentro de muitos deles está a aumentar. Isto gera tensões estruturais prolongadas se não forem adoptadas políticas públicas eficazes. Reduzir a desigualdade não é apenas um imperativo ético, mas uma condição para a estabilidade global.

As democracias estão em retrocesso. Estamos perante uma crise do modelo democrático?

De facto, assistimos a um fenómeno global de deterioração da democracia. Em várias regiões, observa-se um enfraquecimento institucional, restrições às liberdades civis, ataques à imprensa e concentração de poder. Um dos fenómenos mais preocupantes é o surgimento de regimes híbridos ou autoritários que utilizam mecanismos democráticos — como eleições — para se legitimarem, enquanto corroem o Estado de direito por dentro. Esta “aparência democrática” esvazia o sistema. No entanto, não se trata de um colapso definitivo, mas de uma fase crítica que exige renovação. A democracia continua a ser o sistema com maior capacidade de garantir direitos, liberdades e estabilidade, mas precisa de se adaptar aos desafios actuais: desigualdade, desinformação, afastamento dos cidadãos e disrupção tecnológica. O desafio não é substituir a democracia, mas reforçá-la e recuperar a confiança dos cidadãos. O grande inimigo das democracias hoje são as autocracias.

Qual é hoje o papel da América Latina no cenário global? Está a ganhar ou a perder relevância estratégica?

A América Latina enfrenta um paradoxo: possui enorme riqueza e potencial estratégico, mas a sua relevância efectiva no cenário global tem sido limitada e, em alguns casos, em declínio. Os fluxos de comércio e investimento e a participação em fóruns internacionais reflectem essa realidade. Recursos minerais, biodiversidade, capacidade energética e posição geográfica estratégica não se traduziram em maior influência global, devido a divisões internas, falta de coordenação, visão de longo prazo e liderança renovada. É o momento de a região construir o seu próprio caminho de inserção e integração pragmática, o chamado “Latin American Way”. Tem todas as condições para ser parte da solução aos desafios globais.

Como vê o fortalecimento das relações entre a América Latina e África?

O fortalecimento dessas relações é prioritário e estratégico. Não é apenas desejável, mas uma necessidade geopolítica num mundo em transformação. Ambas as regiões partilham desafios estruturais: desigualdade, industrialização limitada, vulnerabilidade climática e também grandes oportunidades, como recursos naturais, demografia e potencial de crescimento. África, em particular, deverá assumir um papel central até 2050, com uma população jovem crescente, urbanização acelerada e avanços em energias renováveis, economia digital e agro-indústria. Cabo Verde pode desempenhar um papel relevante na promoção desta aliança bi-regional.

Para onde deve evoluir esta relação bi-regional?

A relação deve assentar em cinco pilares: concertação política, cooperação Sul-Sul, comércio e investimento, inovação tecnológica e transição energética. O desafio é construir uma agenda concreta que promova cadeias de valor partilhadas, maior conectividade e projectos conjuntos de desenvolvimento. América Latina e África têm uma oportunidade histórica para coordenar posições e aumentar o seu peso na governação global, contribuindo para um sistema internacional mais equitativo. Se conseguirem transformar afinidade em acção, podem tornar-se um eixo dinâmico do novo ordenamento global.

Se ocupasse hoje um cargo de liderança global, qual seria a sua prioridade?

A construção de consensos mínimos globais para garantir paz, segurança, desenvolvimento sustentável, respeito pelos direitos humanos e justiça. É necessário recuperar uma visão humanista do mundo.

Numa palavra: é optimista ou pessimista em relação ao futuro?

Optimista. Confio na enorme capacidade do ser humano para transformar a realidade e construir um futuro mais próspero.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1273 de 22 de Abril de 2026.

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Autoria:André Amaral,25 abr 2026 9:21

Editado porAntónio Monteiro  em  25 abr 2026 11:17

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