Vitória confirmada, Francisco Carvalho (PAICV) será o próximo Primeiro-Ministro do país. Concluída a campanha, em breve será altura de começar a executar a plataforma eleitoral e cumprir as promessas feitas ao longo dos últimos meses.
Para os analistas que seguiram a noite eleitoral na Rádio Morabeza é importante que o novo governo demonstre estar à altura dos desafios do país, sobretudo num contexto internacional de incerteza.
O advogado Belarmino Lucas reconhece que existe grande expectativa.
“Temos um país com grandes expectativas, um país que resolveu dar a sua confiança a um novo projecto político, um novo projecto de país que, em alguns aspectos, pretende ser um corte radical com o país que tivemos até hoje, em termos de opções estratégicas de governação. Mas é um país com desafios muito importantes e eu espero que a nova liderança esteja à altura desse desafio”, refere.
Num momento de grandes tensões globais, o professor universitário Isidoro Costa, acredita que o sucesso do programa social do novo governo não deixará de depender do contexto externo.
“Vamos esperar que as coisas corram bem em termos internacionais, porque se não houver uma estabilidade internacional, e diante de uma economia tão frágil quanto a nossa, com os problemas que ainda temos, se enveredarmos por uma excessiva política social de gratuitidade, pode ser problemático para Cabo Verde”, diz.
Novo ciclo
O Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) regressa ao poder depois de dez anos na oposição, colocando um ponto final num ciclo de governo do Movimento para a Democracia (MpD). Consequência imediata da derrota, o ainda Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, demitiu-se da liderança partidária.
Belarmino Lucas sublinha a forma “sem ambiguidade” como o presidente do MpD assumiu a derrota.
“Foi um discurso sem margem de dúvidas, relativamente às mensagens que queria passar. Desde logo, assumir a derrota. Também registei esse posicionamento de Ulisses Correia e Silva quanto ao seu futuro político, pelo menos no imediato. Na sequência do discurso, deixou claro que, nos próximos tempos, não pretende dar sequência à sua vida política. Assume essa derrota e esse afastamento”, releva.
Sobre o que se segue para o MpD, Belarmino Lucas aponta duas vias.
“À partida, aqueles que lá tentaram chegar [à liderança], vão agora, novamente, chegar-se à frente. Mas eu não descartaria a possibilidade de haver uma candidatura de alguém com algum apoio das bases, eventualmente uma candidatura mais jovem, a pensar no futuro do partido, uma candidatura que possa captar ou recuperar alguma da base eleitoral que o partido eventualmente tenha perdido. Acho que vamos ter movimentações e posicionamentos já nos próximos dias”, antecipa.
Isidoro Costa, que também destaca o tom sereno e institucional de Correia e Silva, olha para o resultado da ida às urnas e considera que este expressa um desgaste acumulado ao longo de anos e que nunca foi resolvido.
“Desde 2016, temos praticamente os mesmos governantes. Houve momentos em que se poderia, por exemplo, ter uma lufada de ar fresco, uma renovação e, efectivamente, não se fez. Fez-se circulação dentro dos mesmos círculos muito próximos. As mesmas pessoas, as mesmas políticas, não vimos grandes alterações”, afirma.
Pela metade
A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) também teve uma má noite. Acaba por sair das legislativas com um dos resultados mais difíceis da sua história recente, depois de perder metade dos deputados conquistados em 2021. Os democratas-cristãos reduziram de quatro para dois o total de eleitos – ambos em São Vicente.
Na leitura de Belarmino Lucas, a UCID voltou a revelar dificuldades em libertar-se da imagem de um partido essencialmente regional.
“Mais uma vez, a UCID não se conseguiu libertar desse lastro de ser quase um partido regional, um partido de São Vicente. Não consegue sair desta zona de conforto e, efectivamente, não terá conseguido fazer passar a sua mensagem para aparecer como uma verdadeira alternativa aos dois grandes partidos do arco do poder. Sem dúvida, foi vítima das circunstâncias específicas destas eleições, mas também pode queixar-se de si própria, com uma postura, de alguma forma, errática nestes últimos anos”, comenta.
Isidoro Costa prefere destacar a fragilidade estrutural da terceira força política nacional. Também diz que João Santos Luís enfrenta um momento particularmente delicado.
“Se houver a questão de demissão ou de colocar o cargo à disposição, vamos ter na UCID a procura e a afirmação de um novo líder, o que não me parece que venha a ser muito fácil, dado o leque de opções. Portanto, a questão da liderança vai ser também uma questão complicada”, vaticina.
Para os analistas da Rádio Morabeza, as candidaturas de figuras como Alberto Mello, na Praia, e Casimiro de Pina, no Fogo, ficaram muito aquém do que seriam as expectativas partidárias.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.
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