Dirigindo-se ao país e à diáspora, após a vitória do PAICV nas eleições legislativas, Francisco Carvalho declarou que “a democracia devolveu a palavra ao povo” e que o resultado eleitoral representa “uma mensagem clara de mudança na gestão do país e na forma de construir o futuro de Cabo Verde”.
“Os cabo-verdianos disseram que já era tempo de mudar a forma de governar e a perspectiva sobre o desenvolvimento do país”, afirmou, sublinhando que o projecto político do PAICV, “Cabo Verde para Todos”, recebeu um mandato de confiança.
Críticas ao sistema político e às instituições
Ao longo da sua intervenção, o líder do PAICV fez duras críticas ao sistema político e ao funcionamento de várias instituições do Estado, defendendo que parte da democracia cabo-verdiana funciona como uma “democracia de fachada”.
Francisco Carvalho acusou sectores políticos e institucionais de procurarem “fazer passar em branco” práticas que, segundo disse, comprometem a integridade do processo democrático, incluindo alegações de compra de consciência eleitoral através da distribuição de bens essenciais.
“Aquilo que aconteceu não pode passar em branco. Há quem finja que não viu, há quem tente normalizar o que se passou”, afirmou, referindo-se a práticas que descreveu como distribuição de cestas básicas e outros incentivos em contexto eleitoral.
Francisco Carvalho apontou igualmente o dedo ao diz ser a compra de consciência e de votos.
“Espero que a partir de agora se comece a falar de roubo de votos e de compra de consciência em Cabo Verde. Espero que isto não passe em branco. Espero que ninguém finja que não aconteceu. Espero isso da comunicação social, de analistas, de críticos. Espero isso, porque 200 mil contas em cestas básicas não podem passar em branco”.
Francisco Carvalho endureceu ainda mais o seu discurso dizendo que em Cabo Verde se vive numa "democracia de fachada" em que "se tenta enganar o mundo". "Espero a colaboração de todos p ara analisar, para deixarmos de posar para o mundo com essa fachada, para não enganar o mundo com aquela democracia de fachada que nós temos e para falarmos de coisas reais. Temos que falar do Cabo Verde real. É disso que temos de falar", acrescentou criticando a alegada distribuição de cestas básicas à população durante o período de campanha.
O dirigente do PAICV criticou ainda o que considera ser uma manipulação da percepção pública através de dados e indicadores oficiais, questionando leituras sobre emprego e desenvolvimento económico. “Não se pode falar de pleno emprego ignorando a realidade que os cabo-verdianos vivem”, disse.
Procuradoria-Geral da República e Tribunal de Contas
Num dos momentos mais incisivos do discurso, Francisco Carvalho apontou críticas directas ao funcionamento de instituições de fiscalização do Estado, incluindo a Procuradoria-Geral da República e o Tribunal de Contas, acusando-as de falta de eficácia no controlo e na responsabilização.
Segundo o líder do PAICV, existe uma fragmentação institucional em que “cada entidade empurra responsabilidades para outra”, o que contribui para a ausência de consequências efectivas perante irregularidades denunciadas.
Embora sem detalhar casos concretos adicionais, afirmou que a fiscalização do Estado “tem falhado em garantir transparência plena e responsabilização efectiva”, no quadro do que descreveu como fragilidades estruturais do sistema democrático.
Propostas e programa de governação
Sobre o futuro governo, Francisco Carvalho afirmou que o executivo irá cumprir integralmente o programa eleitoral apresentado, sublinhando que apenas as medidas que dependem de revisão constitucional poderão ficar condicionadas à cooperação parlamentar.
Entre as principais propostas, destacou a gratuitidade do ensino superior público, o acesso gratuito à formação técnico-profissional, o reforço do sistema nacional de saúde e a redução dos custos dos transportes interilhas, com valores de referência de 500 escudos para transporte marítimo e 5.000 escudos para transporte aéreo.
O líder do PAICV afirmou ainda que o programa foi apresentado com indicação de fontes de financiamento e garantiu que não haverá recuo nas promessas feitas durante a campanha.
Democracia, instituições e abertura política
Francisco Carvalho defendeu igualmente um aprofundamento da democracia cabo-verdiana, com maior independência das instituições e reformas nos mecanismos de nomeação para cargos de elevada responsabilidade pública.
Entre as propostas, apontou a necessidade de concursos públicos para cargos como a Procuradoria-Geral da República, o Tribunal de Contas e outras entidades reguladoras e fiscalizadoras, defendendo um modelo mais independente do poder político, anunciando, no entanto, que estas medidas não vão ser concretizadas por implicarem uma revisão constitucional e por, referiu, o MpD se recusar a negociar essas alterações.
Apesar das críticas, afirmou que o futuro governo manterá abertura ao diálogo com todas as forças políticas e sociais, incluindo os pequenos partidos, sublinhando que “cada partido deve conquistar o seu espaço através do voto”, mas sem qualquer bloqueio institucional.
Ulisses assume derrota
Na sua primeira reacção pública após a divulgação dos resultados, o dirigente reconheceu que o desfecho eleitoral ficou aquém das metas estabelecidas pelo partido.
“Os resultados, como é óbvio, não ficaram ao nível daquilo que são os nossos objectivos. Eram os nossos objectivos. O MpD não conseguiu atingir nem o objectivo de vencer eleições, nem o objectivo de continuar a governar Cabo Verde e seguir em frente”, afirmou.
O líder cessante revelou também ter estabelecido contacto com a liderança do partido vencedor, numa mensagem de reconhecimento institucional e de continuidade democrática. “Eu telefonei o Presidente do PAICV, felicitando-o pelo resultado e desejando sucessos na governação, que continue a assegurar a boa governação de Cabo Verde”, declarou.
Ao longo da sua intervenção, Ulisses Correia e Silva chamou a atenção para a elevada taxa de abstenção, que indicou poder ultrapassar os 50 por cento, considerando-a um sinal de reflexão para o sistema político cabo-verdiano.
Segundo afirmou, esse dado deverá ser analisado internamente pelo partido e também pelos analistas políticos, de forma a compreender as motivações do afastamento dos eleitores.
No plano institucional, referiu que o cenário parlamentar ainda não estava totalmente definido no momento da sua declaração, devido ao apuramento incompleto de votos em círculos da diáspora. Essa indefinição, explicou, impedia qualquer leitura conclusiva sobre a configuração final da maioria no Parlamento, que poderia ser absoluta ou relativa.
Apesar dessa incerteza, sublinhou que o essencial do processo eleitoral já estava claro, a vitória do partido adversário e a consequente mudança de ciclo governativo. Garantiu ainda que a transição de poderes será conduzida com normalidade, respeitando as instituições e assegurando estabilidade política.
Demissão da presidência do partido
“Eu vou pedir a demissão, enquanto Presidente do MpD, para que, em convenção do partido, se possa escolher um novo presidente, os novos órgãos, os novos dirigentes e fazer o MpD entrar numa nova fase”, declarou.
Justificou a decisão com a necessidade de renovação interna e de passagem de testemunho e sublinhou que os partidos devem sobreviver às lideranças individuais.
“Porque nós temos que passar o testemunho porque as pessoas passam, as instituições continuam”, referiu. Acrescentou ainda que o MpD deve manter-se como uma força política relevante mesmo fora do poder.
Ulisses Correia e Silva enquadrou ainda a sua saída como parte natural de um percurso longo na vida pública, recordando vários cargos desempenhados ao longo de décadas. Nesse sentido, considerou que chegou o momento de encerrar a participação política activa.
“Já dei um bocado da minha vida à política, agora, perspectivas outras, é a vida para além da política”, disse.
O dirigente procurou também desdramatizar o resultado eleitoral, apelando à serenidade no pós-eleições e à aceitação das regras democráticas. Defendeu que a alternância de poder é um elemento normal da democracia cabo-verdiana e que deve ser encarada sem tensão excessiva.
Ulisses Correia e Silva reforçou ainda a ideia de que o país deve regressar rapidamente à normalidade após o período eleitoral e defendeu a redução da crispação política e o reforço da coesão social.
Sublinhou que Cabo Verde é construído não apenas pelos governos, mas também pelos cidadãos e pelas instituições, independentemente de quem esteja no poder.
Ao longo da sua análise, reconheceu que o partido enfrentou dificuldades em alguns círculos eleitorais, referindo que resultados em zonas como São Vicente e Sal tiveram impacto no desfecho nacional, embora tenha evitado interpretações definitivas sobre as causas da derrota.
UCID, PTS e PP
Pela UCID, o candidato João Santos Luís afirmou que “a abstenção venceu as eleições legislativas”, sublinhando que a elevada taxa de participação não atingida demonstra o afastamento dos cidadãos da vida política. O dirigente reconheceu que os resultados foram negativos para a UCID, que perdeu dois deputados, passando de quatro para dois, com especial impacto em São Vicente. Apesar disso, rejeitou a ideia de recuo político e garantiu que a UCID continuará a apresentar um projecto alternativo para o país.
O líder da UCID criticou ainda o ambiente eleitoral, apontando “muita sujeira” e “atitudes antidemocráticas” durante a campanha em várias ilhas e na diáspora. Acusou igualmente a utilização de recursos públicos por parte de câmaras municipais e do Governo em benefício dos dois principais partidos, o MpD e o PAICV, o que, segundo disse, terá contribuído para influenciar o eleitorado. Ainda assim, afirmou que “a luta continua”, considerando que o partido perdeu uma batalha, mas não a guerra.
Já o Partido Popular (PP), pela voz do seu líder, Amândio Vicente, lamentou aquilo que considera ser a continuidade da bipolarização do sistema político cabo-verdiano, que, na sua visão, impede a entrada de novas forças no parlamento. O dirigente classificou os resultados como “previsíveis e tristes”, apontando também alegadas irregularidades, incluindo compra de votos por adversários, e defendendo a necessidade de uma reflexão profunda sobre o processo eleitoral.
O PP, que obteve 605 votos (0,3%), não conseguiu eleger qualquer deputado. Ainda assim, Amândio Vicente destacou o esforço de campanha e deixou em aberto o seu futuro político.
Por sua vez, o Partido Pessoas, Trabalho e Solidariedade (PTS) adoptou um tom mais optimista. A líder Jónica Brito considerou que a sua força política sai “reforçada” destas eleições, apesar de não ter conseguido representação parlamentar. O partido destacou o aumento do número de votos face a 2021, praticamente duplicando o seu resultado, e afirmou ter alcançado o estatuto de terceira força política em alguns dos principais círculos eleitorais, nomeadamente em Santiago Norte e Santiago Sul.
Segundo a dirigente, o PTS obteve cerca de 3,1% em Santiago Sul, 3,1% em São Vicente e 1,1% em Santiago Norte, resultados que, na sua perspectiva, confirmam crescimento e consolidação territorial. Jónica Brito defendeu ainda que o cenário de ausência de maioria absoluta valida a posição do partido sobre a necessidade de negociação política e criticou o sistema bipartidário, que, afirmou, contribui para a elevada abstenção. Para o PTS, o actual contexto político exige uma revisão das políticas públicas e uma maior atenção às camadas mais vulneráveis da sociedade.
As eleições legislativas, com 72 mandatos em disputa, continuam a ser marcadas por uma elevada taxa de abstenção, que ultrapassa os 50%, e por uma forte concentração de votos nos dois principais partidos, num quadro em que os resultados finais ainda aguardam confirmação oficial da Comissão Nacional de Eleições.
*Com agências
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.
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