As eleições legislativas de 2026 deixaram Cabo Verde com um novo governo, uma oposição reconfigurada e muitas perguntas por responder. O PAICV regressou ao poder com maioria absoluta e o MPD saiu derrotado após dez anos de governação. Mais de metade dos eleitores não foram às urnas. João de Deus Carvalho, António Ludgero Correia e David Leite comentam o processo eleitoral, os discursos da noite da vitória e da derrota e antecipam o que aí vem neste novo ciclo político que agora se inicia. Leia aqui a entrevista a David Leite.
O que ficou desta campanha e também da pré-campanha?
O que ficou da campanha, em definitivo, são os resultados que dispensam comentários. Ficam também matérias para relectir, e a primeira, para mim, é a abstenção. Cerca de 53% dos eleitores inscritos é muita gente a virar as costas ao sistema. Sobre a abstenção está tudo dito, mas gostaria de acrescentar: as pessoas que vão para o estrangeiro e que não têm o reflexo de transferir o seu voto para os seus locais de residência. Estou a falar nos jovens que têm deixado o país para trabalhar, por razões circunstanciais, mas isso é válido também para os nossos emigrantes, que partem e não voltam. Creio também que o jogo democrático seria outro se houvesse mais equilíbrio nos meios de campanha dos diferentes partidos. Se os pequenos partidos tivessem os mesmos recursos dos dois gigantes, acredito que os resultados poderiam ser diferentes. Repare que os presidentes de todas as câmaras municipais saíram em campanha pelos respectivos partidos - o MpD e o PAICV. Mas há uma questão ainda mais grave: a alegada compra de votos, de que tanta gente fala - digo “alegada” porque nunca vi. A compra de consciências é uma prática vergonhosa. Penaliza não só o adversário directo - porque a compra é feita entre os dois gigantes -, mas sobretudo os pequenos partidos, que jamais vão ter os mesmos recursos para fazer face à corrupção eleitoral. É deplorável ver a nossa democracia gangrenar por esse cancro. É triste ver políticos a abusar da pobreza e da ignorância de uma larga franja do nosso eleitorado.
Acha que isso tem muita influência nos resultados? O voto é secreto e quem aceita pode não votar em quem pagou.
Certamente. Mas é a prática que se condena, não o resultado dela. Só a intenção de comprar a consciência e o voto de uma pessoa, já é uma vergonha numa democracia que quer ser exemplar e que é vista como tal. A compra de consciências ensombra e desvirtua o acto eleitoral, que é a expressão máxima da nossa democracia. Não é só uma vergonha: ela configura crime à luz da lei eleitoral. Eu diria crime de lesa-democracia. Mas a verdadeira questão nem é o acto eleitoral em si. É o silêncio da justiça face a tantas acusações de fraude eleitoral. Creio que é porque os dois partidos que até agora se revezaram na governação têm culpa no cartório.
E em relação às plataformas eleitorais. Ficou claro para o eleitorado o que cada partido propunha?
Nunca fica claro, na verdade. O que fica claro é o rosto do candidato. Nem sequer falo de candidatos no plural, porque nas eleições legislativas votam em listas, mas o que as pessoas mais vêm é o líder do partido, potencal candidato a futuro primeiro-ministro. Se perguntar às pessoas na rua se compreenderam as plataformas eleitorais, dificilmente vai encontrar alguém que lhe diga: "Sim, eu li e entendi." No fundo, as campanhas acabam por ter um efeito mais de espectáculo, de diversão e de ataques de um campo para o outro, do que um jogo pedagógico para se adivinhar o novo governo.
O MPD apostava na continuidade e nas estatísticas económicas; o PAICV apostava na rutura. As estatísticas não convenceram, ou foi simplesmente o cansaço de dez anos de governação?
As duas coisas são válidas. Havia um cansaço de dez anos de governação, uma usura do poder. E além disso o MpD deu vários tiros no próprio pé. Uma coisa que também fez a diferença nos resultados foi a comunicação. O PAICV comunicou melhor. Pôs o dedo em várias feridas, disse o que o povo queria ouvir, pôs a tónica no descalabro das estatísticas da economia - os factores macroeconómicos, o crescimento económico, etc. -, que não traduzem o país real. É uma verdade que foi posta em relevo e foi muito bem explorada. O MpD comunicou mal; é muito mau em propaganda. Não soube tirar proveito dos seus trunfos. A sua candidatura apenas sobrevoou os ganhos mais importantes, sem se atardar. Por exemplo: o aumento do salário mínimo e o aumento exponencial dos salários de várias categorias profissionais. Falou pouco das energias renováveis, dos painéis fotovoltaicos instalados por todo o país, que, no entanto, existem. Cumpriu boa parte das suas promessas de campanha. Se eu fosse o candidato Ulisses, teria evidenciado tudo aquilo que fiz e que não estava no meu programa. Não me contentaria em dizer que gerimos bem a COVID-19 - diria: "Nós pagámos 70% dos salários em lay-off”. Isso não estava no programa. Um programa de governação é como um orçamento: pode mudar no decurso da execução. Repare que já existem alguns voos por cinco mil escudos. Já é uma realidade, mas se o novo governo anunciar isso amanhã, alguém vai dizer que é obra deles. Ou seja, o PAICV a comunicar é muito forte, e o MpD, muito fraco. A tempestade Erin expô-lo bem. Faltou transparência na gestão da crise. Houve muita opacidade, sobretudo na gestão dos dinheiros recebidos. E enquanto o Presidente da Câmara de São Vicente clama aos quatro ventos que está tudo resolvido, a população sabe que não está. Onde estão as obras de retenção de água? Acabamos por estar entre uma verdade e uma demagogia que não se condizem. E temos outras situações que contribuíram para a perda do MpD e a vitória do PAICV. O caso Amadeu Oliveira, por exemplo, que nunca foi visto como um mero caso de justiça. É visto como um caso de interferência do poder judicial na justiça. O estado deplorável da nossa justiça esteve ausente do debate, com magistrados a meter medo, um procurador-geral da República a soldo, e Amadeu Oliveira na cadeia enquanto temos bandidos na rua. A segurança pública deve ser revista. E mais: houve muita arrogância da parte do MpD. É difícil defender um sistema que demite do seu cargo um médico competente e estimado pela população de São Vicente, por razões puramente administrativas, mas alegadamente políticas aos olhos do governo. Não lembraria ao diabo assinar uma demissão dessas a quatro dias das eleições.
E em relação aos partidos mais pequenos? A UCID perdeu dois deputados, o PTS duplicou o número de votos. Como vê estes resultados?
Começo por lamentar que os pequenos não tenham conseguido melhores resultados e que não tenha havido uma terceira força capaz de servir de fiel da balança. Esperava-se que fosse a UCID, mas não aconteceu. Eu sugeriria que, nas próximas eleições, os partidos mais pequenos se unissem numa força única, para ver se conseguiremos ter no Parlamento um tampão entre as duas forças políticas principais. Pode-se alegar que as maiorias absolutas trazem maior estabilidade à governação. Não descuro, mas não é bom para um país estar constantemente a revezar-se entre duas forças políticas que cometem os mesmos erros, cada uma acusando a outra de quem roubou mais e quem roubou menos. Isso não é bom para a democracia.
Entretanto, o cabeça de lista do partido vencedor está envolvido em várias polémicas e foi até constituído arguido. Porque é que acha que isso não pesou na votação?
É muito estranho, mas não é por acaso. O MpD cometeu um erro muito grave: encarniçou-se contra o candidato Francisco Carvalho - primeiro à Câmara Municipal da Praia, depois como candidato à primatura. E aí estou a falar de uma justiça a funcionar a duas velocidades. Havia processos a aguardar despacho há muito tempo que não tiveram a mesma celeridade que os processos de Francisco Carvalho. Não estou a dizer se ele tem ou não razão - foi constituído arguido e terá de responder perante a justiça. Num país como a França, onde vivi, seria impossível uma pessoa constituída arguida apresentar-se a eleições. O aspecto judicial em torno do futuro Primeiro-Ministro não deixa de constituir, para mim, motivo de grande preocupação. Resta saber em que circunstâncias foi constituído arguido e quais os crimes que cometeu. Nunca imaginei que pudéssemos viver uma situação política desta natureza.
Passando aos discursos da derrota e da vitória, como olha para as duas intervenções?
O discurso da vitória destoou muito do discurso da derrota. O discurso da derrota foi uma comunicação digna, em que Ulisses Correia e Silva reconheceu a vitória do seu adversário comme celà se fait em democracia, com politesse, com muita classe e serenidade. Já o discurso do candidato vencedor surpreendeu pelo tom algo belicoso, lançando farpas ao governo cessante e denunciando a alegada compra de votos. Lançou também farpas contra o mau funcionamento da justiça, da qual se diz vítima. Agora, independentemente das razões que possa ter - e certamente as tem -, acho que não era o momento. Era o momento da concórdia, um momento de “djunta mon”, de falar a todos os cabo-verdianos. Podia ter guardado os seus sentimentos e as razões para outra ocasião. Aí faltou diplomacia ao Primeiro-Ministro, e é um mau prenúncio. Em política, devemos ser menos emotivos, menos impulsivos, porque política, antes demais, é diplomacia.
No discurso de vitória ficou já claro que várias promessas exigem maioria de dois terços e que o MpD será um entrave.Como é que este discurso antecipa a governação e a concretização de promessas?
Qualquer político quando fala com os eleitores deve abrir o jogo: "temos estas medidas, mas só podem ser implementadas com consenso parlamentar e não damos a garantia de que vai haver consenso." Francisco Carvalho devia ter dito isso aos eleitores durante a campanha. Eu receio que muitas outras medidas venham também a ser postas em causa por dificuldades de diversa ordem. Eu não desconfio das boas intenções do novo Primeiro-Ministro, mas da intenção à realidade vai um passo. Já dissertei sobre porque não votaria nele e não é porque não aprecie o seu programa. Sou apoiante do seu programa, mas sou também crítico, porque não consegue explicar onde vai buscar os recursos para cumprir tudo aquilo que prometeu. Há um contrassenso, que ainda não foi esclarecido. Se Francisco Carvalho cumprir com tudo aquilo que prometeu, considero que é um herói. Estarei aqui para reconhecer e aplaudir. E se falhar, estarei aqui para cobrar.
Temos uma maioria absoluta no limite, 37 lugares. A margem não é grande. Como acha que vai ser esta governação?
Uma maioria absoluta, 50% mais um, é sempre confortável. Mas nunca nos devemos esquecer dos 49% que não votaram no programa de Francisco Carvalho. Espero que tenhamos um Parlamento de consenso e não de entrave. Espero que os partidos coloquem acima dos seus interesses os soberanos interesses do país. Caso contrário, corremos o risco de ter um Parlamento tenso e, por arrastamento, uma sociedade politicamente crispada, como já estamos a ter neste momento. Houve demasiada crispação nesta campanha. Temos que esperar que o tempo faça o seu trabalho. Espero também que hajaum governo mais enxuto, menos pletórico. O MpD falhou no abuso dos recursos do Estado. Não é normal que o Governo de Cabo Verde tenha 28 ministros. E depois há aquela promiscuidade de turismo de Estado disfarçado de missões de serviço. A síndrome do avião chegou também ao Palácio do Plateau e outras esferas da governação, incluindo as intermédias. É todo o mundo a viajar, em missões de serviço, muitas vezes, de pouca valia. É preciso ser coerente e perder a soberba e a vaidade que se instalaram na corte dos que mais ordenam. Nas redes sociais instalou-se uma promiscuidade entre a política e o espectáculo, com um ex-ministro internauta no centro da diversão. Essas coisas não passaram despercebidas. Quem governar deve escutar as vozes da sociedade civil. O MPD falhou nessa matéria -e antes dele, o PAICV também. Os dois partidos têm maneiras de pensar diferentes, mas são iguais nas maneiras de funcionar.
Em jeito de conclusão, o que antevê nos próximos cinco anos?
Quero ver tudo aquilo que o Primeiro-ministro eleito prometeu, com a ajuda do seu governo e de toda a sociedade. Todos devem contribuir para termos um clima de trabalho e não de assistencialismo. Mas, antevejo com alguma preocupação a realização de muitas das promessas feitas. Não creio que se coadunem com os recursos de que o país dispõe. Antes de prometermos temos de criar riqueza, aumentar recursos. Quero que alguém me diga onde vamos buscar os recursos para aplicar uma política de Estado-providência que nem sequer existe nos países de social-democracia consolidada, como a Noruega, a Suécia ou a Holanda. Gostaria de ver em Cabo Verde uma social-democracia que pensasse em todos e funcionasse para todos - mas não se pode fazer omeletes com ovos que não se tem.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.
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