António Ludgero Correia: O eleitorado castigou o MpD, mas não deu rédea livre ao PAICV

PorSara Almeida,24 mai 2026 13:29

O MpD perdeu antes da campanha começar e o PAICV ganhou uma maioria que será difícil de gerir, avalia o analista político António Ludgero Correia. Pela frente, antevê "dias terríveis" no Parlamento e uma governação que em muito dependerá da capacidade do novo Primeiro-Ministro de vencer as próprias mágoas.

s eleições legislativas de 2026 deixaram Cabo Verde com um novo governo, uma oposição reconfigurada e muitas perguntas por responder. O PAICV regressou ao poder com maioria absoluta e o MPD saiu derrotado após dez anos de governação. Mais de metade dos eleitores não foram às urnas. João de Deus Carvalho, António Ludgero Correia e David Leite comentam o processo eleitoral, os discursos da noite da vitória e da derrota e antecipam o que aí vem neste novo ciclo político que agora se inicia. Leia aqui a entrevista a António Ludgero Correia.

Comecemos pela campanha que é onde começam a desenhar-se os resultados. O que é que ficou desta campanha?

Desta campanha ficou a constatação de que obter votos não por convencimento do eleitorado está a fazer história. Os concorrentes fizeram uma campanha para inglês ver - muito bonita, muita música, muita cor, com propostas à la carte -, mas houve comportamentos abomináveis. Espero que, na legislatura que vai começar, haja coragem de questionar esta forma de fazer política e ver se se tenta conquistar o eleitor pela plataforma eleitoral, pelos discursos, por promessas exequíveis para a melhoria das condições de vida dos cabo-verdianos.

Houve algum momento decisivo, que pode ter pesado mais para os eleitores?

Creio que o MpD terá perdido as eleições já na pré-campanha. Aquela caravana do Primeiro-Ministro, com todos os ministros, percorrendo as ilhas e os municípios - saindo como chefe de governo e chegando como presidente do partido - caiu muito mal. Não me canso de repetir a cada eleição que este é um eleitorado de luxo. Veja os resultados: castigou o MpD, mas não deu rédea livre ao PAICV. Quem governa há duas legislaturas e sente a necessidade de sair com aquela tropa toda atrás, num país de recursos parcos, acaba por levantar questões. As pessoas vão sempre questionar o uso do dinheiro público. Pensam: "Eu não recebi o que me prometeram e eles estão aí a gastar". Porque aquela caravana, entre passagens, ajudas de custos e dormidas, é um balúrdio. E isso ofende as pessoas. Transmitia a imagem de um governo desesperado, que não encontrou soluções e que estava a pedir um terceiro mandato para cumprir o segundo. Era inaceitável. Já antes, na remodelação ministerial, os novos ministros escolhidos entre a terceira idade , um universo eleitoral importante Tirando Victor Coutinho, todos têm mais de 70 anos. Os jovens, um outro universo interessante, ficaram de fora, sem expectativas de ascensão.

Os resultados começaram, pois, a desenhar-se antes da campanha?

Esta campanha foi uma revisão da matéria dada. Já tinham dito tudo na pré-campanha, que começou muito cedo e se estendeu demasiado. Ficaram sem discurso para a campanha e foram retocando-o ao longo da mesma.

Falamos do ponto de vista da derrota do MpD. Mas vendo pelo outro lado, o que terá contribuído para a vitória do PAICV?

Nas eleições é um pouco como no futebol: quando uma equipa sofre um golo, o golo é capitalizado pela outra. Não há golo sem dono, até um autogolo é contabilizado para o adversário. E assim, os autogolos, os golos falhados do MpD e os que o PAICV marcou, tudo somado, ditaram a vitória. Maioria absoluta, porque os partidos pequenos... A UCID encolheu. Quis sair da sua zona de conforto, que é São Vicente e quis expandir-se para tentar conquistar mais eleitorado e formar um grupo parlamentar, que é fundamental. Precisava de ganhar um deputado e perdeu dois. Quem arrisca nem sempre acerta. Um partido regional que faz discurso atacando uma região específica do sul do arquipélago não tem argumentos quando chega ao sul. As pessoas cobram, ou pelo menos recordam, o que foi dito nas campanhas autárquicas e nas campanhas pela regionalização. E aqui ficam sem vez. Não há "Betas", nem "Gamas", que salvem isso.

O PP também desceu, mas o PTS quase duplicou os votos.

O PTS é uma lufada de ar fresco neste universo de discursos requentados. Jónica Brito surgiu tarde. Desde que o MpD ganhou as eleições de 1991 com aquela maioria expressiva, tendo começado a campanha praticamente nas vésperas, ficou a ideia de que é possível repetir esse feito. Não é. Acontece uma vez na vida. Quem quer um assento no Parlamento tem de começar mais cedo. A Jónica foi uma lufada de ar fresco, mas pouco mais - não teve tempo de penetração. Mas veja-se: ficou à frente da UCID em muitos círculos. E é um discurso que nos cativa. Se ela não parar agora e continuar a trabalhar, o PTS vai substituir a UCID como terceira força.

Estava à espera destes resultados eleitorais?

Estava à espera de uma maioria muito apertada de qualquer dos lados, porque os partidos pequenos não ajudaram. Queriam quebrar a lógica dos dois blocos, o parlamento bipartidário, mas não fizeram nada para isso. Dizem que querer é poder, mas é poesia. UCID estava a encolher a olhos vistos. O PTS surgiu como lufada de ar fresco, mas tarde. O PP não tinha muita substância. O Francisco Carvalho queria ser Primeiro-Ministro - na noite das eleições autárquicas, deu aquele grito do Ipiranga - e fez por isso.

Depois de dez anos de governação não seria expectável uma vitória maior do PAICV?

Repare-se na arquitectura dos círculos eleitorais. Há vários círculos de dois deputados em que muito dificilmente um partido leva os dois deputados. E há os círculos de mandatos pares. Esse sistema foi desenhado para dois partidos. Por exemplo, Santiago Norte, com 14 mandatos, teve empate. Santiago Sul tem de dar soluções, porque é um círculo ímpar. A vitória no Fogo, outro círculo ímpar, consolida. Os dois deputados a mais, no Fogo e em Santiago Sul, começaram a desenhar a vitória do PAICV.

Nas Américas, círculo par, o PAICV conquistou os dois mandatos…

Isso foi um descaso do MpD. Foram as loucuras mediáticas de Maika Lobo. As pessoas podem rir, ir na cantiga e bater palmas, mas não se riem quando está em causa a sua representação. O mesmo com a compra de votos: recebem dinheiro, mas na cabine votam em quem querem. O voto é secreto. E os partidos continuam a insistir que podem comprar, já que o eleitorado que está numa situação de vulnerabilidade.

Durante a campanha também se viu muito cepticismo em relação às promessas do PAICV. Porque acha que isso não se traduziu nas urnas?

Estamos num universo em que as pessoas querem ver a vida a ser resolvida, anseiam por novidades. E quando vem alguém que oferece um navio no mar, leite e mel para todo o mundo, mesmo com alguma reticência as pessoas embarcam nisso. Eugénio Tavares já cantava numa morna: El prometem nabiu na mar, El manda da'm lantcha encadjado. E tem sido isso. A esperança é a última a morrer e propostas dessas aliciam muita gente - principalmente quando o governo falha e depois expõe as suas falhas na pré-campanha. Mas as pessoas não foram totalmente no canto da sereia do Francisco Carvalho. Veja-se os resultados: o PAICV tem maioria absoluta, mas se faltarem três deputados numa votação, perde. É mais fácil uma aliança entre a UCID e o MpD. A oposição não vai faltar, vai estar vigilante e vai provocar votações no momento em que sentir que a maioria está desfalcada. E desfalca rapidamente: são 37 contra 35.

No discurso da vitória, Francisco Carvalho disse que há medidas que poderá não conseguir concretizar, pois o MpD continuará a ser um entrave. Como vê esta imediata presunção de bloqueio?

Como o PAICV foi um entrave nesta legislatura. É esse jogo em que todos dizem "Cabo Verde para a frente", "Cabo Verde para todos", mas Cabo Verde fica sempre alheado. Não faz sentido que, numa legislatura inteira, não se consigam eleger os órgãos externos do Parlamento. Isso também porque quem tem a maioria, às vezes, tenta passar uma rasteira ao outro, o que dá cabo de qualquer negociação. Quebra-se a confiança e as maiorias necessárias ficam afastadas.

No seu discurso, Ulisses Correia e Silva assumiu a derrota, anunciou que se vai demitir do partido e sair da vida política. Que avaliação faz deste discurso?

O Ulisses é um estadista. Tem algumas fragilidades, mas é um homem educado e teve um discurso de estadista: o povo é soberano, passa as pastas - aliás como sempre aconteceu em Cabo Verde - e pede demissão. Nas autárquicas, não o deixaram pedir demissão, ao contrário do PAICV, que elegeu um novo líder, o MpD foi remendando seu o líder para ir às eleições. Pode interpretar-se como cerrar fileiras para ir às eleições mais coeso, mas também pode ter sido uma armadilha, para levar o Ulisses ao descalabro, porque o MpD tem correntes internas terríveis. Mas não houve descalabro- este resultado, dez anos depois, é muito bom. E o eleitorado sabe o que aconteceu há 15 anos, quando José Maria Neves disse que não queria um terceiro mandato. As pessoas insistiram e viu-se a porcaria de mandato que fez. Acho que o que mais doerá ao Ulisses é não ter conseguido quebrar a sina de que o MpD não chega a um terceiro mandato. O partido único fez 15 anos, o MpD 10, José Maria Neves 15, Ulisses 10. O maior sarilho do MpD agora será que o PAICV faça mais 15.

Voltando ao discurso da vitória, pareceu quase uma continuação de campanha...

É o discurso de Francisco Carvalho. É o que se pode dizer. Foi assim na vitória nas eleições autárquicas. Foi assim agora. Não foi tão infeliz como o discurso de vitória de Carlos Veiga no segundo mandato, mas não foi magnânimo. Espera-se que o vencedor seja magnânimo. Disse "conto com todos", mas o tom e o resto não combinam com a magnanimidade que se espera do vencedor. Mas uma coisa é o discurso de vitória, outra será a governação. Espero que seja mais pacífica, mais magnânima do que o discurso. Mas, pelo menos a nível do Parlamento, vamos viver dias terríveis. Será uma legislatura complicadíssima. Com a maioria absoluta do MpD, em cinco anos, muita coisa não se conseguiu: reformas não conseguiram ser feitas, os órgãos externos ao Parlamento não foram constituídos, ... Agora, vai depender muito da nova liderança do MpD. Se vai ser uma liderança responsável, que vai contribuir, que critique onde é criticável, trave onde é de travar, mas exerce uma certa parceria institucional para levar Cabo Verde para a frente. Se não for castradora, vai ser interessante e uma grande sala de aulas para a democracia cabo-verdiana. Mas, aprende-se e desaprende-se. Vão ter que se entender. E as coisas foram muito fulanizadas. Aqui não é tanto responsabilidade da oposição, mas também uma grande responsabilidade do PAICV. Não pode ser vingativo.

Acha que há possibilidade de revanchismos?

A pré-campanha trouxe muita mágoa. O Primeiro-Ministro tem mágoas em relação a muita coisa. Com ou sem razão, não é o caso. As mágoas são íntimas. Vencer as próprias mágoas para ser o magnânimo que deve ser como estadista é o busílis da questão. Será possível fazer isso? Estará no seu entorno gente que possa ajudar nisso? E é fundamental que ele crie umaboa equipa, se integre na equipa e respeite as regras que estabeleceu. Por exemplo, pode-se substituir um vereador para a área das Finanças, mas não se pode substituir o ministro das Finanças, por uma divergência pessoal ou de ponto de vista. O FMI não aceita. Nenhuma das instituições de Bretton Woods aceitaria, porque as ligações desses organismos com os ministros das Finanças são tão viscerais que não se pode estar sempre a reconstruí-las com elementos novos. Tendencialmente tentam manter o ministro.

Então, antevê uma governação complicada, que vai depender muito dos dois líderes – oposição e governo?

Temos um papel-chave no Parlamento, que é o do ministro dos Assuntos Parlamentares. E há um problema sério: o seu papel não é substituir o líder parlamentar nem dar guerra à outra bancada - é fazer a ponte entre as duas bancadas para conseguir consensos. Ele vai fazer o trabalho do Governo, e não o da bancada. E se o líder é fraco, que se substitua o líder. Tem acontecido isto e com esta maioria tão apertada, o ministro dos Assuntos Parlamentares pode dar cabo disto muito mais do que qualquer outro ministro.

Há condições para uma boa governação?

Diz-se que a maioria absoluta é perniciosa. Não é. É o mau uso que se tem feito delas. A maioria absoluta não é um cheque em branco, não é uma licença para a ditadura. As condições existem, a maioria absoluta não é de todo um mal.

Entretanto, uma das promessas de que mais se fala são os preços das viagens inter-ilhas.

Vai estar todo o mundo à espera. O MpD acabou por validar a proposta do Francisco, para São Nicolau. Na coesão territorial havia uma proposta, a tempo e horas não se fez nada. E agora vem Francisco com a ideia dos quinhentos escudos de barco. As pessoas esperam - e acho que o Francisco também -, que consiga pôr as passagens a esse preço. Mas, para São Vicente, se se paga cinco contos, alguém vai pagar os dez contos que estão a faltar. E será o tesouro público. Eu espero que ele o saiba e tenha feito as contas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277 de 20 de Maio de 2026.

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Autoria:Sara Almeida,24 mai 2026 13:29

Editado porSheilla Ribeiro  em  24 mai 2026 15:19

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