O partido liderado por Ulisses Correia e Silva apresenta-se como garante da estabilidade, da previsibilidade e da consolidação do crescimento económico registado nos últimos anos. Já o PAICV assume um discurso de ruptura, defendendo uma nova agenda nacional assente em reformas estruturais, redistribuição territorial do poder e promessas de maior inclusão social.
A diferença entre as duas plataformas começa logo pela leitura que cada partido faz dos últimos dez anos de governação.
O MpD constrói uma narrativa centrada na resiliência do país perante crises sucessivas, desde a pandemia da COVID-19 até aos impactos da inflação internacional e das secas prolongadas e agora a guerra no Médio Oriente. O partido destaca os indicadores macroeconómicos, sublinhando o crescimento económico, a redução do desemprego, a recuperação do turismo e a melhoria das contas públicas como prova de que Cabo Verde avançou apesar de um contexto internacional adverso.
O PAICV descreve exactamente o cenário oposto. No programa intitulado “Cabo Verde Para Todos”, o maior partido da oposição classifica as IX e X legislaturas como “um tempo desperdiçado”, acusando o governo de ausência de visão estratégica, incapacidade de concretizar projectos estruturantes e promoção de um crescimento económico sem impacto real na vida da maioria da população.
Ao longo do documento, o PAICV insiste na degradação dos transportes, no aumento do custo de vida, na emigração jovem, nas dificuldades do sistema de saúde e no abandono do mundo rural como sinais de um modelo de governação falhado. O partido procura explorar o desgaste social acumulado após uma década de governação do MpD e posicionar-se como alternativa de transformação estrutural.
As diferenças entre os dois programas tornam-se ainda mais evidentes na abordagem económica.
O MpD aposta claramente na continuidade de uma agenda liberal orientada para o investimento privado, a competitividade e a atracção de capital estrangeiro. O programa enfatiza a modernização da economia, a digitalização, a melhoria do ambiente de negócios e a expansão do turismo e da economia digital. A ideia central é a de um Estado facilitador, capaz de criar condições para o crescimento liderado pelo sector privado.
O PAICV, embora também valorize o papel das empresas, coloca maior ênfase na redistribuição dos benefícios do crescimento e na intervenção estratégica do Estado. O documento insiste no combate às desigualdades, no desenvolvimento regional, na industrialização, na agricultura, na economia azul e na necessidade de um crescimento mais inclusivo.
A visão do Estado constitui, aliás, uma das maiores linhas de separação entre os dois programas.
Enquanto o MpD privilegia uma abordagem mais tecnocrática e funcional, focada na eficiência administrativa e na digitalização dos serviços públicos, o PAICV propõe uma reforma política e institucional. O partido defende regionalização, redistribuição territorial do poder, redução do custo da governação e reorganização da administração pública.
A questão dos transportes surge como um dos campos de batalha mais relevantes da campanha. O PAICV dedica largas páginas do seu programa à crítica da gestão dos TACV/Cabo Verde Airlines e da concessão do transporte marítimo interilhas, acusando o governo de privatizações falhadas, degradação do serviço, aumento dos preços e perda de soberania nacional.
O MpD, pelo contrário, enquadra os transportes numa lógica de modernização da conectividade e integração territorial, associando-os ao crescimento económico e ao desenvolvimento turístico.
A juventude também ocupa lugar central nos dois documentos, embora com abordagens diferentes. O MpD insiste na formação profissional, na empregabilidade, nos estágios e no empreendedorismo jovem, enquanto o PAICV adopta um discurso mais político e social, focado na emigração, na falta de oportunidades, na gratuitidade do ensino superior público e na necessidade de devolver perspectivas à nova geração cabo-verdiana.
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