Francisco Carvalho tomou posse, na passada sexta-feira, como Primeiro-Ministro de Cabo Verde, assumindo a liderança do XI Governo da República com uma mensagem centrada no trabalho, no cumprimento dos compromissos eleitorais e na necessidade de responder às preocupações imediatas dos cabo-verdianos.
Perante representantes dos órgãos de soberania, membros do corpo diplomático, autoridades religiosas, autarcas, dirigentes políticos e convidados, o novo chefe do Governo afirmou que o país entra numa nova etapa política marcada pela esperança e pela responsabilidade.
“Hoje constitui-se a linha da frente de uma equipa de trabalho que assume a honrosa missão de governar Cabo Verde com humildade, sentido de responsabilidade e total dedicação ao povo cabo-verdiano”, declarou.
Segundo Francisco Carvalho, a tomada de posse representa mais do que a entrada em funções de um novo executivo. Trata-se, disse, da renovação de uma esperança colectiva assente na convicção de que o desenvolvimento do país deve beneficiar todos os cidadãos.
“O projecto de governação que hoje iniciamos assenta numa convicção simples, mas poderosa: nenhum cabo-verdiano deve ficar para trás”, afirmou.
Responder às necessidades básicas
No seu discurso, o Primeiro-Ministro defendeu que a governação deve combinar respostas imediatas aos problemas das famílias com políticas estruturantes capazes de preparar o futuro do país.
Para Francisco Carvalho, o desafio passa por garantir melhores condições de vida à população, criando simultaneamente bases para um crescimento económico mais inclusivo e sustentável.
Entre as preocupações destacadas esteve a contínua emigração de jovens cabo-verdianos em busca de oportunidades no exterior.
“Temos de responder ao essencial. Temos de responder ao básico. Hoje, aqui e agora. Porque só assim conseguiremos travar e inverter esta sangria de jovens que diariamente continuam a procurar, em terras distantes, as oportunidades que desejamos que encontrem na sua própria terra”, afirmou.
Ao longo da intervenção, o governante evocou figuras históricas como Amílcar Cabral, Norberto Tavares e Renato Cardoso, defendendo que a sua visão de desenvolvimento se inspira nos valores da dignidade humana, da justiça social e da igualdade de oportunidades.
Francisco Carvalho aproveitou a ocasião para destacar a eleição de Janira Hopffer Almada para a presidência da Assembleia Nacional, classificando o momento como um marco importante para a democracia cabo-verdiana.
Segundo o chefe do Governo, a escolha da antiga líder do PAICV representa um avanço significativo para a participação das mulheres nos mais altos cargos da vida política nacional.
“A eleição da Presidente Janira Hopffer Almada representa uma conquista para a democracia cabo-verdiana, para as mulheres de Cabo Verde e para todas as gerações que acreditam numa sociedade cada vez mais justa, inclusiva e representativa”, declarou.
Saúde, ensino e mobilidade entre as prioridades
Ao abordar as principais linhas de acção do novo executivo, Francisco Carvalho reafirmou várias promessas apresentadas durante a campanha eleitoral.
Entre elas destacou a gratuitidade dos cuidados de saúde, o acesso gratuito à universidade pública e à formação profissional, bem como a melhoria dos transportes e da conectividade entre as ilhas.
Para o Primeiro-Ministro, a mobilidade constitui um dos factores centrais para a coesão nacional e para a redução das desigualdades territoriais.
“A mobilidade não é apenas uma questão de transporte. É uma questão de igualdade de oportunidades, de desenvolvimento económico e de coesão territorial”, afirmou.
Segundo o governante, uma rede de transportes mais eficiente permitirá aproximar cidadãos, facilitar o acesso a serviços e dinamizar a economia nacional.
Para além das medidas sociais, Francisco Carvalho garantiu que o Governo apostará em reformas de longo prazo em sectores considerados estratégicos.
Entre as áreas prioritárias apontou a ciência, inovação, educação, habitação, segurança, energia, água, turismo, economia do mar, cultura, juventude e desporto.
O objectivo, explicou, passa por construir uma economia mais diversificada e resiliente, capaz de enfrentar os desafios globais e reduzir as vulnerabilidades do arquipélago.
Defendeu igualmente o fortalecimento das instituições democráticas e o aprofundamento da participação cidadã.
“A democracia exige vigilância permanente, cuidado diário e uma capacidade constante de renovação”, sublinhou.
“O único caminho é trabalhar”
O momento mais marcante da intervenção surgiu quando Francisco Carvalho se dirigiu directamente aos membros do novo Governo.
Num discurso centrado na responsabilização dos governantes, insistiu que a principal missão do executivo será produzir resultados concretos para a população.
“Não há outro caminho. O único caminho é trabalhar, cumprir a palavra dada e honrar os compromissos assumidos perante o povo cabo-verdiano”, declarou.
Pouco depois reforçou a mesma ideia.
“Meus companheiros, o trabalho é tudo o que nos espera. Trabalho, trabalho, trabalho.”
O Primeiro-ministro afirmou ainda que o Governo não poderá justificar eventuais falhas com dificuldades herdadas ou limitações estruturais, defendendo que todos os membros do executivo conhecem a realidade do país e os desafios que têm pela frente.
“Somos todos filhos desta terra. Conhecemos a realidade do nosso país e sabíamos os desafios que nos aguardavam”, afirmou.
Apelo aos empresários e parceiros internacionais
Francisco Carvalho lançou igualmente um apelo ao sector privado nacional e estrangeiro para que participe activamente no esforço de desenvolvimento do país.
Segundo defendeu, a criação de emprego constitui a mais eficaz política social.
“O maior projecto social é a criação de emprego”, afirmou.
O chefe do Governo dirigiu também uma mensagem aos parceiros internacionais de Cabo Verde, agradecendo o apoio prestado ao longo dos anos e manifestando confiança na continuidade da cooperação.
Nesse contexto, pediu apoio para a implementação do programa sufragado pelos cabo-verdianos nas eleições legislativas.
A diáspora cabo-verdiana mereceu igualmente destaque no discurso do novo Primeiro-Ministro.
Francisco Carvalho enalteceu o papel desempenhado pelas comunidades emigradas no desenvolvimento económico e social do país, apelando à continuidade desse compromisso.
Segundo afirmou, os cabo-verdianos espalhados pelo mundo continuam a constituir uma das maiores forças da nação e deverão desempenhar um papel relevante na concretização dos objectivos do novo ciclo governativo.
Ao encerrar a sua intervenção, deixou uma mensagem de confiança quanto à capacidade do executivo para cumprir as promessas feitas ao eleitorado.
“Que possamos olhar para trás com orgulho e verificar que os compromissos assumidos foram cumpridos”, afirmou.
Presidente pede resultados e consensos
Na mesma cerimónia, o Presidente da República, José Maria Neves, felicitou Francisco Carvalho pela vitória eleitoral e aproveitou a ocasião para traçar alguns dos principais desafios que o país enfrenta.
Num discurso marcado por referências ao desempenho internacional da selecção nacional de futebol, o chefe de Estado defendeu que Cabo Verde deve transformar o prestígio conquistado em várias áreas em ganhos concretos para o desenvolvimento económico e social.
“O desporto, tal como a cultura, não deve ser visto apenas como um factor de afirmação identitária. Deve ser encarado como uma poderosa alavanca de transformação económica e social”, afirmou.
José Maria Neves considerou que o país precisa de criar “tubarões azuis” em diferentes sectores da vida nacional, desde a educação e ciência até ao empreendedorismo, inovação e economia azul.
O Presidente da República destacou igualmente a consolidação da democracia cabo-verdiana, mas alertou para a elevada taxa de abstenção registada nas últimas eleições legislativas.
Segundo afirmou, o fenómeno deve merecer uma reflexão séria por parte dos partidos políticos e das instituições do Estado.
“Trata-se de um sinal que merece reflexão profunda por parte de todos os actores políticos e institucionais”, declarou.
Na sua intervenção, José Maria Neves identificou ainda um conjunto de prioridades para o novo Governo, incluindo a melhoria da conectividade interilhas, o combate à pobreza, a redução das desigualdades, a criação de emprego, o reforço da segurança, a transição energética e a melhoria do acesso à água.
Referiu igualmente a necessidade de fortalecer os sistemas de educação, saúde e justiça, bem como de modernizar a administração pública.
“O Governo que hoje toma posse assume responsabilidades particularmente exigentes. Os desafios são numerosos e complexos”, afirmou.
O Presidente reiterou ainda a disponibilidade da Presidência da República para cooperar institucionalmente com o novo executivo e apelou à construção de consensos nacionais.
“Os cabo-verdianos esperam resultados, esperam integridade, esperam visão”, concluiu.
MpD critica acumulação das Finanças
Em comunicado divulgado após a cerimónia, o MpD desejou sucesso ao novo Governo, mas manifestou preocupação com a decisão de Francisco Carvalho acumular as funções de Primeiro-ministro e ministro das Finanças.
O partido considera que a pasta das Finanças exige dedicação técnica permanente e que a acumulação das duas funções poderá afectar a eficácia da governação e a confiança dos investidores.
O MpD criticou ainda o aumento do número de membros do executivo relativamente ao que havia sido anunciado durante a campanha eleitoral e apontou o reduzido número de mulheres no Governo como uma contradição face ao discurso político do PAICV sobre a igualdade de género.
Apesar das reservas, o maior partido da oposição garantiu que exercerá uma oposição responsável e que apoiará todas as medidas consideradas benéficas para o desenvolvimento do país.
UCID pede estabilidade e diálogo
Também a UCID felicitou o novo Governo, manifestando esperança de que o novo ciclo político seja marcado pelo diálogo, estabilidade institucional e boa governação.
O partido defendeu que os interesses nacionais devem prevalecer sobre as divergências partidárias e sublinhou a necessidade de mobilizar todas as forças vivas da nação, incluindo a diáspora, para enfrentar os desafios do desenvolvimento.
A UCID garantiu igualmente que continuará a desempenhar o seu papel com responsabilidade e sentido de Estado, apoiando medidas favoráveis ao bem-estar da população e apresentando propostas para o progresso do país.
Para o partido, o novo ciclo governativo deve representar uma oportunidade para reforçar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas, promover a inclusão e consolidar políticas públicas orientadas para o interesse nacional.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de 24 de Junho de 2026.
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