PM acusa anterior Governo de esconder realidade do país e MpD garante que entregou um país estável

PorSheilla Ribeiro,5 ago 2026 11:08

O Primeiro-ministro, Francisco Carvalho, no debate sobre o Estado da Nação, acusou o anterior Governo do MpD de ter escondido dificuldades económicas e sociais do país e de deixar uma derrapagem orçamental superior a oito mil milhões de escudos. O chefe do Executivo afirmou que a realidade encontrada pelo actual Governo contrasta com a imagem apresentada pelo anterior executivo, enquanto o MpD sustentou que entregou um país estável, com crescimento económico e maior credibilidade internacional. A UCID defendeu uma mudança do modelo de desenvolvimento económico para promover a produção nacional e uma distribuição mais justa da riqueza, e o PAICV considerou que o país continua a enfrentar fragilidades estruturais em áreas como a economia, educação, saúde, transportes e protecção social.

Na abertura do debate sobre o Estado da Nação, Francisco Carvalho sustentou que o momento exige coragem para falar a verdade e considerou que durante anos prevaleceu uma narrativa oficial que não correspondia à realidade vivida por muitos cabo-verdianos.

“O Estado da Nação exige coragem para falar a verdade. Não uma verdade conveniente, construída para conferências de imprensa, nem uma verdade escondida atrás de números incompletos”, afirmou.

Na sua intervenção, o Primeiro-ministro defendeu que existiam dois Cabo Verde, sendo um retratado nos discursos oficiais e outro vivido diariamente pelos cidadãos.

“Cabo Verde apresentado nas estatísticas e Cabo Verde vivido por quem acorda todos os dias sem saber se tinha dinheiro suficiente para dar aos filhos comida”, declarou.

Segundo o governante, enquanto o anterior executivo apresentava indicadores de crescimento e prosperidade, milhares de famílias continuavam sem acesso a necessidades básicas, sem conseguir pagar uma consulta médica, comprar medicamentos, pagar a propina do filho ou garantir uma habitação digna.

Francisco Carvalho considerou ainda que existe um desfasamento entre as prioridades da governação e as necessidades da população.

O chefe do Governo apontou igualmente a emigração como um dos principais sintomas da situação do país, lembrando que, segundo os dados disponíveis, 66% dos jovens cabo-verdianos têm como principal sonho emigrar, realidade que, afirmou, está a provocar perda de talento e envelhecimento de algumas ilhas.

“Não se fala de ilhas que estão a ficar cada vez mais envelhecidas. Não se fala de talentos. Não se fala de cabo-verdianos que não se consegue conservar”, observou.

Outro dos eixos centrais da intervenção incidiu sobre a transparência na Administração Pública. Francisco Carvalho acusou o anterior executivo de alimentar uma cultura de opacidade e apontou a falta de publicação regular de relatórios oficiais e referindo alegadas interferências no funcionamento do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Neste contexto, anunciou que o Governo promoverá uma avaliação independente para apurar as denúncias de alegada manipulação de dados estatísticos, proteger os técnicos da instituição e reforçar a credibilidade das estatísticas oficiais.

“O Governo não fará julgamentos precipitados, mas vai analisar os factos com seriedade e profundidade. É necessário devolver a confiança dos cabo-verdianos nas estatísticas oficiais do país”, garantiu.

No plano financeiro, Francisco Carvalho denunciou uma derrapagem orçamental superior a oito mil milhões de escudos e afirmou que o Orçamento do Estado para 2026 foi aprovado com um montante de 95,7 mil milhões de escudos, mas que, já em Junho, os gastos e compromissos assumidos ultrapassavam os 104 mil milhões.

“Não é uma simples diferença contabilística, nem um desvio técnico. É uma derrapagem orçamental de enorme gravidade”, acusou.

Perante este cenário, anunciou que o Governo irá apurar todas as responsabilidades relacionadas com a execução orçamental.

“O país tem o direito de exigir respostas. Quem autorizou aquelas despesas, quem tomou esse tipo de decisões e tinha consciência da verdadeira dimensão dos compromissos assumidos para Cabo Verde?”, questionou.

Francisco Carvalho afirmou ainda que a situação financeira encontrada não corresponde à informação anteriormente apresentada, comprometendo-se a tornar públicos os resultados da averiguação.

“O dinheiro público não pertence ao Governo, pertence aos cabo-verdianos”, vincou.

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O chefe do executivo acusou ainda o anterior Governo de utilizar recursos públicos para fins partidários nos meses que antecederam as eleições, referindo a mobilização de cerca de 700 milhões de escudos para distribuição de cestas básicas, aproximadamente 100 milhões para apoios à habitação e o aumento da atribuição de bolsas de estudo e do pagamento de propinas, compromissos que, segundo disse, foram assumidos sem cobertura orçamental.

UCID pede mudança do modelo de desenvolvimento

Durante o debate, o deputado da UCID, João Santos Luís, defendeu que o actual Governo não pode ser responsabilizado por dificuldades acumuladas ao longo de vários anos, mas também não deve adiar respostas aos desafios que o país enfrenta.

“O Governo iniciou recentemente funções e seria intelectualmente desonesto atribuir-lhe responsabilidades por problemas que se acumularam ao longo de vários anos, mas seria igualmente errado utilizar essa circunstância para adiar respostas aos desafios que o país enfrenta. O que os cabo-verdianos não compreendem é que as respostas e soluções aos seus problemas sejam sucessivamente adiados”, discursou.

Apesar de reconhecer que os indicadores macroeconómicos registaram uma evolução considerada razoável nos últimos anos, o deputado sustentou que esses dados não reflectem, por si só, a realidade vivida pela população, defendendo uma mudança na estratégia de desenvolvimento económico.

“Mesmo atingindo um crescimento económico razoável, persistindo as vulnerabilidades aos choques externos e às alterações climáticas, continuo a apelar à governação do país para a necessidade urgente de alteração do modelo e da estratégia de desenvolvimento económico e pela criação de oportunidade permitindo maior produção nacional e justa distribuição da riqueza produzida”, apelou.

MpD diz que Estado da Nação reflecte um país estável e um Governo sem preparação

O líder parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, defendeu que Cabo Verde apresenta indicadores de crescimento, estabilidade e confiança, contrapondo que o Executivo tem revelado falta de preparação para governar e conduzido o país de forma contraditória.

“Obviamente, não entregámos um país sem problemas. O que entregamos é um país mais forte do que aquele que recebemos em 2016, com instituições estáveis, reformas em curso e maior capacidade para responder aos desafios que ainda permanecem. Entregamos um país que projecta confiança, um país mais credível, um país com a maior projecção internacional de sempre. Portanto, o actual Governo recebeu margem para avançar, não desculpas para recuar”, discursou.

Luís Carlos Silva considerou que o debate sobre o Orçamento Rectificativo veio demonstrar uma contradição entre o discurso político do Governo e os dados apresentados nos documentos oficiais e reforçou que o Executivo, por um lado, descreve um cenário de dificuldades e, por outro, reconhece indicadores económicos positivos.

Segundo o parlamentar, o Estado da Nação não corresponde a um país em crise, mas sim a um país que continua a crescer e a conquistar confiança junto dos parceiros externos.

“O problema de Cabo Verde não é um cofre vazio. O próprio Orçamento Rectificativo desmentiu essa narrativa. O verdadeiro problema é saber se o país está seguro nas mãos de um Governo que não domina os instrumentos que utiliza, não mede o impacto das suas palavras e acredita que a maioria parlamentar pode substituir a lei. O Estado da Nação é o de um país que está de pé, que cresce e que merece confiança”.

PAICV diz que Estado da Nação mostra um país com fragilidades estruturais

A líder parlamentar do PAICV, Carla Lima, defendeu que o principal retrato do Estado da Nação é marcado por problemas estruturais acumulados em áreas como educação, saúde, transportes e protecção social.

“O Estado da Nação que hoje debatemos tem história, tem resultados e tem responsáveis. Durante dez anos, Cabo Verde foi governado pelo MpD e no dia 17 de Maio os cabo-verdianos avaliaram esta governação”.

A parlamentar afirmou que a mudança política resultante das últimas eleições aconteceu porque, na sua perspectiva, as condições de vida das famílias deixaram de corresponder às expectativas dos cidadãos.

Na sua intervenção, Carla Lima apresentou vários sectores onde considera existir necessidade de intervenção, começando pela economia, que classificou como ainda pouco diversificada. Para o PAICV, o desafio passa por criar maior ligação entre os sectores produtivos nacionais e as áreas que mais crescem.

A líder parlamentar apontou igualmente problemas na área social, defendendo que os apoios do Estado devem ser estruturados como políticas permanentes e não como medidas pontuais, que o país precisa de recuperar investimento e rever opções tomadas na organização do sistema de ensino.

“A conectividade não pode continuar a ser uma abstracção. É acesso à água, aos alimentos, à saúde, à educação, ao trabalho e ao mercado”.

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Esclarecimento do FMI

Durante a apresentação e discussão do Orçamento Rectificativo, no parlamento, Francisco Carvalho, acusou o anterior Governo do MpD de ter enganado o FMI ao não revelar a dimensão da derrapagem das contas públicas, alegando que o aumento da despesa em cerca de oito mil milhões de escudos não foi detectado pela instituição internacional.

O FMI esclareceu à Lusa que não avaliou a execução orçamental de Cabo Verde durante a visita técnica ao país, por não ter recebido dados para esse efeito.

"Por norma, o FMI não comenta assuntos políticos internos. A equipa que visitou Cabo Verde entre 21 e 24 de Julho estava em visita técnica, não em missão de revisão de programa", disse à Lusa um porta-voz da instituição.

"Embora tenha discutido com as autoridades os principais pontos do orçamento revisto, não foram fornecidos dados sobre a execução orçamental e, por isso, não estavam em condições de avaliar as alegações relativas à implementação do orçamento de 2026 nem a necessidade de um orçamento revisto", acrescentou.

O porta-voz do FMI concluiu que "o FMI não avaliou essas questões durante a visita".

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1288 de 05 de Agosto de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,5 ago 2026 11:08

Editado porClaudia Sofia Mota  em  10 ago 2026 12:20

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