Novo livro de Germano Almeida pisca o olho ao policial

PorChissana Magalhães,23 mai 2018 11:49

Germano Almeida
Germano Almeida(DR)

Os festejos da atribuição do Prémio Camões 2018 a Germano Almeida coincidem com a publicação do mais recente livro do escritor cabo-verdiano. “O Fiel Defunto” é o seu décimo sétimo título na Ilhéu Editora e volta a ter um morto como protagonista.

Parece estar evidente um padrão na escrita de Germano Almeida: os seus protagonistas estão quase sempre mortos e esta condição não os impede de interferir no mundo dos vivos. Foi assim com “O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo” (1989), com “Memórias de Um Espírito” (2001) e com “ A Morte do Ouvidor” (2010), só para citar alguns. E volta a acontecer com o seu novo romance, “ O Fiel Defunto”, a ser lançado e apresentado na próxima semana em Mindelo, São Vicente.

É o próprio autor que revela, em entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas, (edição hoje nas bancas) os contornos desta história que a sua editora em Cabo Verde, Ana Cordeiro, terá reconhecido ter um pé no género policial.

“É uma paródia. “ O Fiel Defunto” conta uma história inventada. Quando digo que é o meu primeiro romance as pessoas protestam. Digo isso porque é uma história que não nasce a partir de uma história qualquer, concreta, mas a partir de uma invenção. Inventei um personagem que era um grande escritor, que publicava dois livros por ano mas depois pára de escrever. Passados alguns anos, vai publicar um livro. E no dia do lançamento um amigo dá-lhe dois tiros no peito e mata-o. A história desenrola-se a partir disto, com o Governo a tomar conta, com velório no palácio, missa na Rua de Lisboa… Depois, vai se conhecendo as pessoas que giram à volta do defunto”.

A sinopse revela mais e deixa perceber algumas coincidências entre personagem e autor, algo que também não é novidade na escrita do boavistense.

"Toda a gente foi apanhada de surpresa, pelo que ninguém tentou impedir o inesperado assassinato do mais conhecido e traduzido escritor das ilhas, breves momentos antes do início da cerimónia de apresentação do que acabou por ser a sua última obra. E, no entanto, nesse dia o vasto auditório transbordava de uma festiva multidão de fãs e outros curiosos, todos impacientes ante a expectativa de ter um autógrafo no já muito badalado livro que se preparavam para adquirir. De modo que a ninguém terá passado pela cabeça que um evento daquela natureza, sempre aguardado com geral e grande ansiedade, poderia vir a ter um desfecho tão inesperado quanto brutal, especialmente tendo em conta a qualidade das pessoas envolvidas na tragédia".

Entretanto, o apetite para o policial também emergia numa história passada nos bastidores do encontro literário Correntes d'Escrita e que o escritor acabou por abandonar. O autor conta, na mesma entrevista à edição impressa desta semana do Expresso das Ilhas, que se tratava de uma investigação a um roubo ocorrido durante o referido evento da cidade portuguesa Póvoa de Varzim, no qual ele mesmo é um habitué, e que teria escritores conhecidos como inspiração para os personagens, sendo ele próprio um deles. 

"Comecei a escrever e cheguei a umas páginas mas, quando alguém entra na realidade concreta de transformar pessoas vivas em personagens engata. Então, há anos que comecei essa história mas nunca consegui avançar", revela.

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Germano Almeida (Boa Vista, 1945), formado em Direito e advogado de profissão, iniciou a carreira literária na década de 80 com publicações na revista Ponto & Vírgula sendo o primeiro livro, “ O Dia das Calças Roladas”, de 1982. É o escritor cabo-verdiano mais publicado e traduzido internacionalmente e duas obras suas foram adaptadas ao Cinema (“O Testamento do Senhor Napumoceno” e “Os Dois Irmãos”). Foi esta semana anunciado como o laureado com o Prémio Camões 2018, sucedendo ao português Manuel Alegre e tornando-se o segundo escritor cabo-verdiano a receber esta distinção.

“O Prémio Camões para Germano Almeida é um motivo de orgulho e de alegria para todos nós, seus amigos e fiéis leitores, mas comemorar esse prémio com o lançamento de um novo romance é motivo de redobrada alegria”, escreveu Ana Cordeiro, da Ilhéu Editora, em reacção ao anúncio feito na segunda-feira.

A Ilhéu Editora, que publica este “O Fiel Defunto”, é uma das mais antigas chancelas do país e tem sido desde sempre a editora de Germano Almeida, em Cabo Verde (o autor é representado internacionalmente pela editora portuguesa Caminho). Tem também no seu catálogo de obras publicadas os nomes de autores como Arménio Vieira (Prémio Camões 2009), G.T. Didial (João Vário), Vasco Martins e Luís Romano, entre outros.

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Autoria:Chissana Magalhães,23 mai 2018 11:49

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 set 2018 3:22

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