“Esperança” também é nome de festival

PorNuno Andrade Ferreira,16 out 2021 10:04

O Festival Internacional de Teatro do Mindelo, Mindelact, está a chegar para a sua 27ª edição. João Branco revela o que vem por aí.

“Tanto a dor que mais aflige como a alegria que mais alenta acontecem quando sabemos que o nosso presente poderia ser diferente”. Começa assim o editorial de apresentação da edição deste ano do Mindelact. O Festival Internacional de Teatro do Mindelo acontece de 5 a 15 de Novembro.

Depois da “resistência”, no ano passado, com uma versão mais curta mas em palco, para manter acesa a chama do maior evento teatral do país, em 2021 o Mindelact entrega-se à “esperança”, lema que dá mote à programação.

“Mais uma vez, colocamos, no meio de luto e no meio de luta, o Mindelact que todos conhecem nos palcos do Mindelo e da Praia, dando corpo a uma esperança que é tudo menos abstracta”, lê-se na nota de apresentação.

Artistas de três continentes protagonizarão trinta espectáculos e quarenta apresentações, a maioria das quais em São Vicente, mas com a habitual extensão à cidade da Praia.

João Branco, presidente da associação Mindelact, recorda que há um ano, por esta altura, “trabalhava-se sobre brasas”.

“Foi o primeiro evento presencial de Cabo Verde pós-confinamento, estávamos com muito cuidado, receio de falhar alguma coisa, mas correu tudo bem”, relembra.

Esse sinal de normalidade, num mundo virado do avesso, foi, ele próprio, sinal de esperança, agora recuperado e replicado.

O mundo ainda não saiu da pandemia, mas o avanço das campanhas de vacinação traz consigo o princípio do fim.

“A diferença é sobretudo numérica. São mais dias, vamos ter mais espectáculos, vamos ter cerca de 200 artistas envolvidos, de 14 países. É já um número substancial”, comenta João Branco.

Da programação fica de fora, por razões de segurança sanitária, o Festival OFF, que costuma ocupar o pátio do Cento Cultural do Mindelo (CCM), e o Teatro na Praça, tradicionalmente nas praças da cidade e zonas periféricas.

O que é que teremos este ano, depois da versão reduzida do ano passado?

Temos o Palco 1, que se mantém, e o Palco 2, estes dois em espaços fechados. Temos uma programação, a que costumamos chamar Outros Palcos, que é muito interessante, porque traz propostas muito diversificadas, algumas até revolucionárias. Vamos ter um grupo da Suécia que vai trazer um espectáculo onde a primeira parte é vista pelo público com óculos de realidade virtual. Vamos ter uma intervenção da Flávia Gusmão, em que o espectáculo é escutado e as pessoas vão buscar o leitor de mp3 e fazer um percurso indicado pela voz da Flávia, para conhecer a cidade e para, sobretudo, fazer uma homenagem à Samira Pereira. Vamos ter mostras de processos criativos, que não estão prontos, mas que estão a ser partilhados com a audiência – é o caso do grupo Circolando, uma companhia importante da cidade do Porto, que trabalha na fronteira entre o novo circo, dança, teatro e performance, e que está a fazer um trabalho sobre vulcões. Diria que a componente experimental, alternativa, por vezes revolucionária, desta programação está muito presente, não só nas escolhas que foram feitas para os espectáculos nos dois palcos mais tradicionais, CCM e ALAIM, mas também para esses outros palcos que vão ocupar um pouco do nosso espaço programático este ano.

Há uma série de estreias nacionais e estreias absolutas e há, creio que pela primeira vez, um grupo dos Estados Unidos da América.

Não só dos Estados Unidos. Vamos ter, também pela primeira vez, artistas do Togo, Quénia e Africa do Sul, três países africanos. Isto é muito interessante, porque durante o período de confinamento, participámos em vários projectos, nomeadamente de produção de espectáculos de teatro digital, em que tivemos contacto com essas comunidades artísticas. Isso comprova a importância que há em nos conhecermos, da informação chegar. O grande problema de não termos mais teatro ou performances ou dança do continente africano é a dificuldade de conhecer e saber o que se está a passar nesses países.

Há outras estreias…

Gostaria de sublinhar uma que acho que é importante para Cabo Verde, que é a estreia mundial, por acaso na cidade da Praia, do espectáculo “Amílcar Geração”, de Ângelo Torres. É um espectáculo sobre Amílcar Cabral, em que o Ângelo Torres interpreta a figura de Amílcar Cabral. Já vi fotografias e trailers de vídeo e é impressionantemente semelhante. As estreias nacionais são de vários espectáculos que, de certa forma, comprovam uma dinâmica muito interessante também nesse domínio da pesquisa, de um novo teatro, de uma contemporaneidade e de uma abordagem de temáticas que, alias, vem na linha, um pouco, do que o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português vem fazendo.

Há uma componente de teatro radiofónico.

Há duas componentes de programação não presenciais. Resolvemos continuar a apostar no teatro digital, que é uma linguagem que vai continuar, independentemente das pandemias, e que não é a gravação e a emissão de uma peça de teatro feita num outro contexto, mas sim algo em que todo o processo de criação é desenvolvido em contexto digital e pensado para os ecrãs. E faremos uma programação de teatro radiofónico, que é uma espécie de menina dos nossos olhos desta edição. No ano passado, quando estávamos confinados, o Um Colectivo, que é um grupo de teatro de Elvas (Portugal), apresentou aos seus financiadores a proposta de fazer uma mostra de performance pela rádio, isso foi aceite e correu tão bem que decidiram fazer uma segunda edição, agora mais alargada, num ciclo de peças chamado Transmissão. Tenho a certeza que vai ser um momento muito importante do nosso festival. Vai ser interessante, uma pessoa que está a ir para o trabalho, abrir a rádio e ouvir uma peça de teatro, ou chegar em casa, à noite, e ouvir uma peça de teatro.

E quanto ao financiamento desta edição?

Uma coisa que sentimos é que as instituições que normalmente estão connosco quiseram estar connosco. Tenho que falar da Câmara Municipal de São Vicente, que tem sido um parceiro excepcional, o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas que fez questão de dizer que este ano vai fazer tudo o que for possível, independentemente das grandes dificuldades orçamentais por que Cabo Verde passa. Se me permites, falo também dos mecenas nacionais, nomeadamente CV Móvel, o grupo BCN/Impar, a Moave e a Enapor. Continuamos a trabalhar com muitas dificuldades. Trabalhamos com as condições que temos, mas sempre imbuídos deste espírito que tem a ver com essa tal economia dos afectos de que estou sempre a falar.

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Algumas das estreias absolutas do Mindelact 2021

Love Letters

Margens Theatre (EUA)

9 de Novembro, Palco 1

Cartas de amor rementem-nos para doces palavras e lembranças inesquecíveis, mas nestas cartas o que se vê é o medo de amar em toda sua plenitude, a ausência de respeito por uma vida jogada na terra e o medo de ler as nossas próprias fraquezas. Não só é uma estreia mundial, como é a primeira apresentação de um espectáculo norte-americano em 27 anos de festival.

Amílcar Geração

Ângelo Torres (Portugal / S. Tomé e Príncipe)

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8 de Novembro, Praia / 10 de Novembro, Palco 1

A premissa central do espectáculo é a ideia de que confluem em Amílcar Cabral dois homens – um, a quem chamamos “Cabral”, e um outro, a quem chamamos “Amílcar”. Cabral é o homem que levou a cabo um plano para a independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Amílcar é o homem terreno, que se apaixonou por uma trasmontana, que estudou engenharia agrónoma, que se confrontou com a miséria em Cabo Verde, em Portugal e na Guiné, que gostava de jogar futebol e de conversar.

A Linguagem das Pedras

Projeto Kastro – Mindelact 2021 (Cabo Verde)

11 de Novembro, Palco 1

Um texto original de Caplan Neves, que mantém o elenco do projeto Kastro Krioula, com o objectivo principal de preservar a dinâmica de produção e de pesquisa conseguida com a parceria com o Teatro Nacional S. João e o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas. A encenação desta história perturbadora, que nos fala de questões sociais dos dias de hoje, assenta nos métodos do chamado teatro físico e conta com a assinatura, também aqui, de Caplan Neves.

CV Matrix 46

Raiz di Polon (Cabo Verde)

13 de Novembro, Palco 1

Em apresentação única, CV Matrix 46 percorre a questão da emigração. Um espectáculo tecnicamente exigente, com muita movimentação de elementos, que dançam e cantam. É uma remontagem da peça que, em 2000, esteve em cartaz no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e que contou, à época, com música ao vivo de Orlando Pantera e Mário Lúcio. A produção é realizada no âmbito das comemorações dos 30 anos da histórica companhia de dança cabo-verdiana. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1037 de 13 de Outubro de 2021. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,16 out 2021 10:04

Editado porDulcina Mendes  em  20 jul 2022 23:28

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