Colocar o artesanato no centro das políticas públicas

PorAntónio Monteiro,28 nov 2021 7:35

“Aquilo que nos dará maior alegria é ver as pessoas a fruírem na plenitude daquilo que andamos aqui esse tempo todo a preparar a pensar na classe e a pensar no público”. A afirmação é do director do Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD) que nesta conversa com o Expresso das Ilhas expõe os objectivos da URDI 2021 e expressa a sua alegria por este evento ter regressado ao seu espaço de eleição, a Praça Nova.

Quais são os objectivos da URDI 2021?

Nós escolhemos a cada ano um tema curatorial que vai embasar todas as actividades que acontecem na URDI. Este ano escolhemos o tema “Imaginar Futuros” justamente para poder lançar uma reflexão sobre o papel das artes e da criatividade na criação de novos futuros. Então trouxemos o signo da flor e do corpo. O corpo enquanto elemento, enquanto ser humano que actua sobre esse espaço e a flor enquanto signo da criação numa perspectiva futura e como ela se nos abre enquanto perspectiva de futuro. Então, dentro dessa ideia curaturial, nós montamos toda a URDI que passa pelo concurso de Design, pelo Salão Created, pelas Residências Criativas, a Feira na Praça Nova, os Concertos e as Grandes Conversas. Ou seja, essas pétalas todas compõem a URDI.

Qual é a essência do painel Grandes Conversas”?

A ideia do painel “Grandes Conversas” é trazer ao debate grandes questões que estão vinculadas ao tema deste ano que é “Imaginar Futuros” e como é que o sector da criatividade e das artes pode dar respostas para um futuro cada vez mais equilibrado do ponto de vista daquilo que é a acção do homem neste chão que partilhamos. As “Grandes Conversas” são promovidas todos os anos para que haja não só um diálogo, mas também uma reflecção sobre de que forma juntos podemos criar outras formas de fazer, outras formas de resolver problemáticas, mas sempre em sintonia com aquilo que está a acontecer no mundo, pois temos normalmente convidados de outras latitudes que juntamente connosco nos ajudam a reflectir esse sector. O interessante nas “Grandes Conversas” é que todo esse conteúdo é trabalhado depois de forma científica e é posteriormente publicado em livro. Daí que é um conhecimento que depois se materializa num objecto físico de consulta e que poderá sempre alimentar o fazer futuro, porque não acreditamos no desenvolvimento sem a dimensão científica.

Este ano a personalidade artística em destaque nas “Grandes Conversas” é Leão Lopes. Como justifica?

Sim, teremos este ano um grupo de pessoas que conhecem a fundo o trabalho de Leão Lopes e que vão reflectir sobre aquilo que tem sido o trabalho de Leão Lopes no fazer de futuros em Cabo Verde. Leão Lopes tem sido um visionário no seu metier e tem trazido grandes questionamentos sobretudo na utilização da matéria-prima local, na criação de soluções que integram o artesanato, o design e outras vertentes da arte, porque Leão Lopes acaba por tocar nestas várias vertentes: desde o cinema, passando pelo artesanato, pelo design ou pela música. Ou seja, é um homem quase com o perfil de um renascentista que tinha essa capacidade ampla. Então, é importante e fundamental quando estamos a falar do artesanato e do design trazer Leão Lopes à tona, sendo ele também a primeira pessoa a abordar o design em Cabo Verde na perspectiva de uma disciplina do fazer o do conhecimento. Daí merecer esse espaço particular na URDI 2021, pois Leão Lopes está sempre a procurar novas formas de abordar este país.

Recentemente ele realizou uma viagem de barco por todas as ilhas de Cabo Verde.

Como disse, Leão Lopes está sempre a procurar novas formas de abordar este país. Sei que durante esta viagem ele foi escrevendo uma espécie de diário de bordo que pretende depois publicar e que nos traz um olhar de Cabo Verde numa perspectiva a partir do mar.

A URDI vai regressar nesta edição ao seu formato pré-pandemia. O que significa realizar a Urdi 2021 no seu espaço habitual que é a Praça Nova?

Este ano, com grande alegria, voltamos à Praça Nova. Regressar à Praça é um sinal muito positivo, pois significa que estamos a rumar para tempos melhores, porque já tivemos algum muito tempo de muitas incertezas, de várias limitações. É certo que no ano passado não tenhamos cancelado a URDI, porque entendemos que o nosso sector nos coloca um desafio que é sempre encontrar soluções em momentos de grandes perturbações, neste caso foi a pandemia. O regresso, este ano, à Praça Nova, vai-nos permitir um outro convívio, um outro espaço de venda para os artesãos, um outro espaço para quem vive na ilha, ou para quem visita São Vicente. Ou seja, voltamos a desabrochar em flor que é o regresso ao nosso espaço de eleição, porque a Praça Nova foi definida como espaço da URDI, porque o ponto de vista da política para o sector é colocar o artesanato no centro das políticas públicas. É por isso que nós também pusemos o artesanato no coração da cidade. Não foi só por uma questão espacial, foi também por uma questão da visão daquilo que nós queremos que seja o futuro do artesanato nacional.

Que tipo de artesanato de se produz nas diferentes ilhas do país?

Naturalmente, pela especificidade e pela natureza social de cada ilha, vamos encontrar focos diferenciados. Por exemplo, na ilha de Santiago temos uma panaria tradicional que já teve uma forma imensa, temos uma cerâmica que tem uma característica própria, temos o trabalho em côco e outros trabalhos que têm razão de ser derivado da sua força naquele contexto. Depois, se formos a Santo Antão ou mesmo a São Nicolau, a cestaria é bastante desenvolvida, mesmo em Santiago também. Mas em Santo Antão sobretudo por causa da sua característica rural a cestaria e os balaios servem para apanhar o que é produzido nas hortas e também enquanto utensílios do uso doméstico. Também em Santo Antão há a tradição do Calabedotche. Como Cabo Verde ao longo da sua história passou por limitações várias, então os restos de tecidos eram cortados e se produziam as mantas de Calabedotche que eram usadas nas épocas de maior frio na ilha. São Vicente já tem um artesanato mais contemporâneo, mais urbano, justamente condicionada pela própria dimensão social e cultural da ilha. Você vai encontrar trabalhos em cerâmica já com uma perspectiva bastante diferenciada, vai encontrar trabalhos em pedra e trabalhos em chifre que têm a ver com esta Baía. Há vários cesteiros também, mas o artesanato são-vicentino tem características muito mais actuais porque já não está a responder ao lado utilitário do produto. Sem deixar para trás a questão da construção de instrumentos musicais que vem da tradição do Mestre Baptista, a confecção de cachimbos que vem do Mestre Pulú. Temos várias oficinas de trabalho de madeira que se desenvolveram por causa da construção de botes e outros artefactos. Então conseguimos encontrar várias respostas que são resultantes desta ilha.

O que espera do público?

Que tirem o maior proveito da URDI, seja nas Grandes Conversas, seja na Feira, seja nos salões. A URDI está aberta a todo o público e a nós aquilo que nos dará maior alegria é ver as pessoas a fruírem na plenitude daquilo que andamos aqui esse tempo todo a preparar a pensar na classe e a pensar no público, pois uma coisa vive da outra e vice-versa. Portanto, é esperar que o público saiba tirar o maior proveito e que a classe, sejam os artesãos, os designers e demais criativos tenham um bom momento de venda, de partilha e também de convívio, porque, de facto, faz parte da URDI esse ambiente de grande positividade.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1043 de 24 de Novembro de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,28 nov 2021 7:35

Editado porFretson Rocha  em  14 ago 2022 23:29

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