Custo elevado continua a afastar consumidores

PorAndre Amaral,15 jun 2019 8:16

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“É bom mas é caro”, é a expressão que mais se ouve quando os cabo-verdianos falam na produção de energia eléctrica recorrendo a painéis solares ou a outra energia renovável. Mas será mesmo assim? Ainda que timidamente, há cada vez mais casas com estes equipamentos e mesmo as grandes instituições já apostam nesta forma de produção de energia.

Que Cabo Verde tem um grande potencial no que respeita à produção de electricidade a partir de energias renováveis parece ser consensual.

As horas de exposição solar e o vento que sopra em todas as ilhas deviam já ter dado origem a mais e maiores investimentos nesta área. Mas a verdade é que, apesar de vários planos e ideias implementadas pelos sucessivos governos, a dependência do petróleo é grande.

Recentemente, como o Expresso das Ilhas noticiou, o governo assinou um contrato para a construção daquela que vai ser a maior central solar de Cabo Verde na Calheta de São Miguel, interior de Santiago.

“O impacto sobre o ambiente foi aqui demonstrado: menos 11.800 toneladas por ano de emissão de CO2, tem impacto a nível da economia. Queremos reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis, com impacto na balança de pagamentos e na factura energética do país e das famílias”, disse o primeiro-ministro na passada terça-feira.

Financiados e apoiados pelo Estado, estes grandes projectos vão surgindo um pouco por todo o país. Mas a verdade é que quando se reduz a escala a realidade é completamente diferente.

A micro-geração, já regulamentada, tarda em produzir efeitos acima de tudo pelos elevados custos de aquisição de equipamentos.

“Os painéis solares não são caros”, explica Rui Amante da Rosa. “O que encarece são os restantes equipamentos. Os inversores e as baterias”, prossegue.

“É preciso que o governo faça alguma coisa sobre isto, porque os painéis estão isentos de direitos de importação, mas os restantes equipamentos não”, aponta ainda Amante da Rosa.

E são esses equipamentos que encarecem os projectos mais pequenos. Das várias empresas ouvidas pelo Expresso das Ilhas, todas concordam com a ideia. O preço das baterias que permitem a acumulação de energia acaba por afastar potenciais clientes tanto em pequenos como em grandes projectos.

Apesar das dificuldades e dos elevados preços, a Caixa Económica de Cabo Verde resolveu investir na produção de energia eléctrica com recurso a painéis solares.

“Reduzimos a factura em quase um quarto”, aponta Abel Cardoso que trabalhou na implementação deste projecto no edifício sede daquele banco na Praia.

“A Caixa desde que montou o projecto da nova sede, como se pode verificar na cobertura, tinha já uma estrutura para painéis solares”, recorda Abel Cardoso. O projecto acabou por avançar este ano, “obviamente com a perspectiva da redução do consumo mas também porque queremos ter a imagem de um banco amigo do ambiente”.

Sendo um projecto-piloto para o banco, a instituição tem também a perspectiva futura “de alargar a mais estruturas. Mas acima de tudo queremos mostrar que estamos focados na questão do ambiente e que temos soluções para os clientes na linha das energias renováveis, incentivos ao mercado para que possamos fazer algo importante para o ambiente”.

O projecto era ainda mais ambicioso. “Havia também a ideia de reaproveitamento de águas de ar condicionado e de águas pluviais”, destaca Abel Cardoso. Um projecto que, para já, ainda não saiu do papel.

“Neste momento posso estimar que estamos a poupar cerca de um quarto da nossa factura de electricidade”.

O investimento feito pela CECV rondou os 8 mil contos e “estimamos que em quatro a cinco anos esteja amortizado. Nós estamos actualmente com 6 meses de produção e já temos uma estimativa de poupança de mil contos no total”.

A redução da pegada ecológica é um dos grandes objectivos, mas em termos globais, o maior impedimento a uma implantação de mais projectos deste género são “os custos de investimento. Nem todas as empresas têm capacidade para investir um montante tão substancial. Mas de há uns anos a esta parte a tecnologia evoluiu, a capacidade de produção é muito maior e os custos dos painéis diminuiu. Este custo que estamos a falar não é, de longe, comparável com o que era há cinco ou 10 anos atrás”.

Neste momento, o que pode estar a impedir as pessoas de investir pode ter um pouco a ver com o conceito do custo envolvido. No mercado existem empresas com capacidades e conhecimentos para dar os melhores aconselhamentos às pessoas que estiverem interessadas.

“Os rendimentos são imediatos”, defende Abel Cardoso, “não só em termos de poupança como em termos ambientais. Há projectos que se podem fazer de várias formas, híbridos, com baterias, sem baterias. O que montámos aqui foram painéis sem baterias, ou seja, produzimos para consumo. À noite não há produção”.

Para este responsável da Caixa Económica os custos associados às energias renováveis – manutenção e limpeza dos painéis, por exemplo – ainda deixam margem de lucro sobre os custos das ligações tradicionais. “Os painéis obrigam a algum acompanhamento. A partir do momento que se instala com o clima e o pó que temos, pode provocar uma redução muito substancial na produção e por isso deve-se adoptar uma política de manutenção que não é complexa, basta fazer uma limpeza com água e manter os painéis limpos de partículas. Não exige uma manutenção muito técnica e que seja muito cara.”

Soluções domésticas

Cabo Verde tem potencial para produzir a partir de energias renováveis como vento e sol, diz Julia Batti da Solar Impact, uma empresa portuguesa que recentemente abriu uma sucursal em Cabo Verde.

Os métodos clássicos de produção de electricidade, defende Julia Batti, “são bastante caros, porque envolvem a importação de combustíveis”.

“O que encarece os projectos são as baterias. Para um projecto on-grid ligado à rede podemos instalar um painel sem baterias e o payback do investimento é rápido. Numa residência será de um a dois anos. Agora quando se colocam baterias já fica mais caro”, explica.

Para a responsável desta empresa deveria haver um sistema de compensações entre consumidores e Electra que permitisse um acerto de contas entre os valores consumidos pelo utilizador e aqueles que ele produzisse. “Se a Electra tivesse um sistema de compensação, ou seja, o que o consumidor gera em excesso é injectado na rede e é contabilizado e à noite quando ele precisa de usar a rede usa esse crédito de energia que injectou durante o dia. Assim ficaria muito mais acessível, porque as pessoas não precisariam colocar baterias e poderiam poupar dinheiro durante a noite. Esse seria um incentivo que funcionaria bem”.

Segundo dados da Solar Impact, os sistemas solares podem permitir uma poupança significativa quando chega a hora de pagar a conta da electricidade.

Numa casa onde a factura chegue aos 13 mil escudos, a instalação de um sistema solar pode trazer uma redução de 72% no valor mensal pago.

Reduções no consumo podem ser elevadas


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Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 915 de 12 de Junho de 2019. 

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Autoria:Andre Amaral,15 jun 2019 8:16

Editado porFretson Rocha  em  15 mar 2020 23:21

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