Alexandre Monteiro, ministro da Energia: Micro-geração está a crescer e é “aposta acertada”

PorAndre Amaral,10 nov 2019 9:29

Alexandre Monteiro
Alexandre Monteiro

Um ano depois do início da implementação do novo plano energético pelo governo, Alexandre Monteiro faz um balanço do que foi feito e do que se perspectiva para o futuro.

A aposta nas renováveis é para continuar e já estão previstos investimentos para diminuir a dependência de Cabo Verde em relação ao petróleo. Energia eólica e solar, micro-geração e a mobilidade eléctrica são essenciais para a redução da pegada ecológica do país, defende o ministro.

O plano energético que foi anunciado pelo governo está em que fase da sua implementação? 

Neste momento, já temos em curso um processo de contratação de novas capacidades de produção de energias renováveis, num total de cerca de 25 MW. 10 MW de solar em Calheta de São Miguel que já tem o contrato assinado e em que o projecto já está em fase de preparação dos estudos e para o licenciamento e o objectivo é que em Agosto do próximo ano já teremos a instalação operacional. Temos também em processo de concurso 5 MW solares, já em fase de negociação com a empresa primeira classificada no concurso realizado, e uma eólica de 10 MW em São Domingos, em Santiago, que está em fase de avaliação das propostas. 

Os projectos são para Santiago? 

Santiago, Boa Vista e estamos já preparados para o lançamento dos concursos para São Vicente de energia solar, Sal e as outras ilhas. É um processo contínuo que decorre normalmente e como se sabe a política do governo aposta na atracção de privados para a produção de energias renováveis, como produtores independentes, e temos tido uma resposta aceitável relativamente às condições criadas para o investimento nas energias renováveis no país. 

Este projecto tem também a vertente de querer atrair o consumidor final para a micro-produção. O governo tem um programa de bonificação de juros para quem quiser instalar um sistema destes em casa. Como é que está a aceitação? Está a ter adesão?

No programa temos a vertente da micro-geração e a resposta tem sido favorável. Se há uns dois anos tínhamos, a nível nacional, uma estimativa de 2 MW de capacidade instalada através de micro-geração no último levantamento efectuado no final de 2018 já tínhamos 3,8 MW de micro-geração instalada. E a tendência é continuar a crescer e nós acreditamos que podemos, no futuro, vir a ultrapassar os 10 MW na micro-geração. Isto é importante porque não só contribui também para a injecção de mais energias renováveis na rede, no sistema eléctrico nacional, como tem também um efeito económico na factura energética, quer de pequenas empresas, quer de consumidores domésticos. E a experiência de um ano na implementação desse programa mostra-nos que já temos situações que apontam para a redução, na factura, de valores entre os 25 e os 40%. Isso significa que a micro-geração é uma aposta acertada. 

A nível de consumo de combustíveis para a produção de energia já se nota uma redução ou ainda é cedo? 

Em pequenos países insulares, como é o caso de Cabo Verde, tem-se sempre a dependência da produção térmica para a estabilização do sistema. Nós temos no nosso plano a substituição progressiva da produção térmica por sistemas de armazenagem de energia. É evidente que em 2018 tivemos no país um aumento de cerca de 20% na produção de energia através de energias renováveis e a produção térmica reduziu em 1%, o que significa que tivemos menos consumo de petróleo na produção de energia em 2018. Queremos, evidentemente, avançar mais e essa é a direcção do trabalho que está a ser realizado. Sobretudo, de termos mais incrementos de renováveis do que a produção térmica e chegarmos a um futuro, no horizonte de 2040, de estarmos a 100% de renováveis. Antes disso, já em 2030, ultrapassar os 50% de energias renováveis. 

A mobilidade eléctrica era outra das vertentes deste projecto. 

Nós aprovamos este ano a política de mobilidade eléctrica. Temos já viaturas eléctricas a circular no país e temos informações de processos em curso de aquisição deste tipo de viaturas tanto por parte de particulares como de empresas. Estamos, sobretudo, a trabalhar num programa de incentivos que estamos a desenvolver e estamos a trabalhar paralelamente num plano de reforço desses incentivos, caminhando para os incentivos financeiros. Estamos a ver com os nossos parceiros a possibilidade de mobilização de recursos de fundos climáticos para ajudar o país no nosso programa de transição energética, sobretudo na componente da mobilidade eléctrica. As energias renováveis são hoje mais baratas e económicas. Fica mais barato produzir energia através do sol e do vento do que através do petróleo. Há esse benefício económico e comparativamente aos custos de funcionamento de uma viatura eléctrica, comparado com uma viatura convencional, a vantagem também é imensa, fica muito mais económico. No caso de Cabo Verde, além dessa vantagem de descarbonização do transporte, com benefícios económicos e ambientais, nós encaramos a nossa política de mobilidade eléctrica como não só um equipamento de mobilidade mas também como uma tecnologia de armazenagem de energia. Estamos a falar de um país que tem duas grandes fontes de energia renovável, altamente intermitentes, que são o sol e o vento e evidentemente que, com essa intermitência, para termos muita penetração de energias renováveis, obriga a que tenhamos soluções de armazenamento. Por isso, quando se fala de uma viatura eléctrica, em termos tecnológicos, estamos a falar de baterias e isso permite armazenar todo o excedente de produção de energia nomeadamente durante o período diurno em que temos sol. As viaturas eléctricas dão um contributo importante no sistema para termos mais penetração de energia eléctrica. 

Há algum tempo, ao falar com um dos representantes das empresas de combustíveis que estão em Cabo Verde, perguntei se ia haver uma aposta em carregadores para carros eléctricos e ele respondeu-me perguntando quantos carros eléctricos há em Cabo Verde. Ou seja, o mercado não está a corresponder a este estímulo e portanto não lhes compensa investir em carregadores. 

Nós estamos a implementar um plano. Não é intenção e não está expresso nesse plano a massificação das viaturas eléctricas no imediato, porque nós queremos que o desenvolvimento da mobilidade eléctrica acompanhe todo o plano de transição energética do país. Ou seja, se repararmos no plano, quando o governo aprova um plano com a visão de atingir, em 2050, 100% de veículos eléctricos estamos também a prever nesse período 100% de energias renováveis. Há uma ligação entre os planos de transição energética do país, ou seja, de redução dos combustíveis fósseis, com o incremento dos veículos eléctricos. É um processo gradual. Para os primeiros anos, o plano prevê cerca de 20 viaturas, números que serão alcançados com os processos que temos em curso, mas vamos, como está previsto, desenvolver as infra-estruturas de recarga, que é um plano nacional com o envolvimento dos municípios para progressivamente dar resposta e criar condições para mais veículos eléctricos. Tudo o que estamos a fazer é a caminho, não só, da transição energética mas também na perspectiva da evolução tecnológica que está a acontecer no mundo em relação à oferta de veículos eléctricos. Estamos a preparar um futuro que já é hoje, porque já temos veículos eléctricos a funcionar. Já temos instituições, particulares e empresas interessados na aquisição de veículos eléctricos. Mas este é um processo de substituição progressiva e tudo o que está a ser feito está de acordo com o plano traçado. 

Este plano energético previa a estabilização do sistema de fornecimento de electricidade, mas a verdade é que nos últimos tempos temos tido cortes no fornecimento de energia por períodos de tempo que já não se viam há muito tempo em Cabo Verde. O que tem acontecido? 

Em termos de cortes e interrupção não há nenhuma situação de degradação comparativamente com os indicadores existentes anuais que nós acompanhamos. O que tem acontecido é derivado de situações que sempre aconteceram, e a única novidade é a situação introduzida de testes para o novo sistema que vai melhorar a qualidade de serviço, que é o sistema SCADA que está, neste momento, operacional e está na fase de fine tunning e que até final deste ano ou início do próximo estará 100% operacional e que permite uma gestão automatizada e uma gestão mais eficiente na articulação entre a produção e a distribuição e neste irá melhorar significativamente a qualidade. Mas foram episódios que aconteceram, a situação regularizou. 

Houve zonas em São Vicente que passaram treze horas sem luz.

Isso foi também explicado pela concessionária. A situação está normalizada e o maior grupo gerador que estava em manutenção já está operacional e a produção fica securizada. O que aconteceu foi a avaria de um grupo no momento em que também estava inoperacional um outro de maior potência que estava em manutenção programada. Mas a situação foi reparada e não há razão para esse episódio se tornar a repetir. A tendência é para melhorar, não para regredir. 

A aposta nas renováveis diminui a dependência do petróleo mas aumenta a dependência de sol e vento. Há aqui um jogo de equilíbrio que é preciso manter.

O ano está em curso e normalmente, todos os anos, os meses de Agosto e Setembro são meses de baixa em termos de velocidade do vento mas depois, a partir de Outubro, Novembro isso retoma. Ainda temos o último trimestre para avaliação, não podemos ainda tirar nenhuma conclusão de baixa em relação aos anos anteriores. Vamos ver até ao final do ano para fazer essa avaliação. De todo o modo, trabalha-se, em termos de planeamento, com informações, indicadores e valores médios de velocidade do vento e não tem havido, e este ano não foi excepção, valores fora da média. Por isso é que o nosso plano prevê, além dessa intermitência de sol e vento, a introdução de sistemas de armazenagem. E isso é algo novo no processo do sistema eléctrico nacional e que vai ajudar na estabilização do sistema armazenando os excedentes e compensado em períodos menores. 

Há projectos de exploração de outras energias renováveis em Cabo Verde como a energia geotérmica ou das ondas do mar?

Neste momento o plano trabalha sobre tecnologias consolidadas e experimentadas em Cabo Verde, que são os casos da eólica e solar. Mas temos dado atenção e acompanhado com interesse o processo de desenvolvimento de novas fontes e Cabo Verde, como país insular, e com o potencial que tem do oceano vemos o mar como uma grande fonte. Mesmo em fase experimental, damos todo o nosso apoio a projectos demonstrativos de produção no mar. Já há projectos demonstrativos na exploração do potencial do mar, que é o caso das ondas, em que já há projectos para o aproveitamento das ondas associadas à produção e dessalinização da água. A parte geotérmica é um outro potencial que temos e evidentemente que a sua exploração aqui depende sobretudo da escala. Temos geotermia com grande potencial na ilha do Fogo, mas a viabilidade tecnológica da exploração da geotermia pressupõe um nível de escala superior a 5MW e ainda não temos esse nível de consumo, nem temos ainda ilhas conectadas. Mas evidentemente que tudo evolui. As tecnologias evoluem e a própria possibilidade de conectividade das ilhas, em termos de transporte de energia, poderá vir a facilitar isso. Por isso é que consideramos também a geotermia como um grande potencial do país para a produção de energia que não sendo viável hoje, pode vir a ser no futuro.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 936 de 06 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Andre Amaral,10 nov 2019 9:29

Editado pormaria Fortes  em  28 jul 2020 23:21

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