Associação de Turismo de Santiago com críticas ao recém elaborado plano estratégico para a ilha

PorAndre Amaral,21 jul 2019 8:44

O Plano Estratégico do Turismo para a ilha de Santiago está concluído e já foi entregue ao governo. Documento elenca as principais recomendações para a transformação de Santiago num destino turístico capaz de ser alternativa aos ‘clássicos’ Sal e Boa Vista. Para a Associação de Turismo local, o documento é “bom para o trabalho de planeamento”, mas apenas “a primeira metade” será de utilidade.

Este é apenas um dos planos estratégicos a serem elaborados, uma vez que cada ilha ou região deverá desenvolver o seu próprio plano estratégico de turismo centrados em pilares como a Competitividade, a Sustentabilidade, a Desconcentração e a Maximização do impacto líquido positivo do turismo na sociedade.

As áreas a desenvolver, segmentos como são designados no estudo, abarcam sectores como Santiago como destino de Sol e Praia, Turismo Rural e de Natureza, Turismo urbano, cultural, de eventos, Cruzeiros, Turismo de circuito, Náutico e desporto aquático, entre outros.

“Em síntese, propõe-se neste documento uma Estratégia baseada numa oferta turística diversificada e diferenciada das restantes ilhas do país, que maximize o seu potencial, combata as assimetrias regionais, preserve o património histórico e imaterial, bem como os recursos naturais e que leve a toda a população, em especial aos mais desfavorecidos, os benefícios do desenvolvimento económico”, lê-se no documento.

Actualmente, o impacto económico e social do turismo é elevado e mantém a tendência de crescimento representando 10,4% do PIB mundial e 10% do emprego. De acordo com a Organização Mundial do Turismo, este sector constitui a 3ª maior exportação a nível mundial.

Santiago como destino turístico

A procura de Cabo Verde como destino de férias é feita, essencialmente, por turistas vindos de seis países e com o Reino Unido a ser o principal emissor (mais de um quarto dos turistas que entram em Cabo Verde vêm daquele país), seguindo-se depois a Alemanha, a França, Bélgica-Holanda e Portugal.

Cabo Verde tem assistido a uma evolução permanente de todos os indicadores ligados à oferta de turismo. “No período 1999-2018, o número de estabelecimentos cresceu de 79 para 284. Esta situação significou que o número de quartos, a par do número de camas, se cifrou respectivamente em 13.187 e 21.046 em 2018. Como corolário deste desempenho, o pessoal ao serviço aumentou seis vezes entre 1999 e 2018, cifrando-se em praticamente 9.500 empregos”, aponta o estudo.

No entanto, Santiago tem apenas 19% do total de unidades hoteleiras do país: 37% dos hotéis, 11% das pensões, 20% das pousadas e 10% das residenciais. A nível nacional o número médio de quartos por hotel é 139, sendo os hotéis de Santiago mais pequenos, com 35 quartos por hotel.

Nesta ilha existiam, em 2018, “53 estabelecimentos para alojamento de turistas, 2,4 vezes mais do que no ano 2000. O número de quartos triplicou e o de camas surge multiplicado por um factor de 2,6. A capacidade de alojamento triplicou. Do lado da procura, o número de turistas passou de 30.514 para 85.830 e o total anual de dormidas de 98,915 para 221.125. Ou seja, a procura quase triplicou, o que representa uma taxa média de crescimento anual de quase 5%”.

E foi para potenciar e capitalizar este crescimento que o governo avançou para a elaboração deste plano estratégico.

Ainda assim, apesar do crescimento da procura de Santiago enquanto destino turístico, a verdade é que peso do turismo em relação ao total nacional tem vindo a diminuir, consequência do crescimento rápido da oferta e da procura no Sal e na Boa Vista. Contudo, existe alguma estabilização no que se refere ao “número de estabelecimentos” e “número de quartos”, respectivamente em torno dos 20% e 10%.

Para inverter o cenário de perda de importância no sector o estudo defende que um “programa intensivo de expansão do turismo em Santiago deverá aumentar drasticamente o total de turistas nesta ilha. Considerando que tanto o Sal como a Boa Vista se aproximarão, mais cedo ou mais tarde, do limiar de sustentabilidade, isto é, albergar um número de turistas a partir do qual os efeitos ambientais e sociais se tornarão muito negativos, pode-se admitir que o número de turistas em Santiago cresce, no futuro imediato, a ritmos superiores aos das ilhas planas”.

A meta de crescimento anual total, prossegue o estudo, é de 11,5% para o número de turistas, de quartos, de camas e de emprego. “Pelas razões acima expostas (alguma saturação previsível do Sal e Boa Vista) é correto estimar uma taxa de crescimento superior para Santiago”.

As críticas da Associação de Turismo de Santiago

Considerado pelo presidente da Associação de Turismo de Santiago como um “bom documento para o trabalho de planeamento”, o draft é no entanto alvo de críticas por parte de Eugénio Inocêncio que diz que apenas “a primeira metade” será de utilidade.

Num email enviado ao ministro das Finanças, o presidente da Associação de Turismo de Santiago defende que, no estudo, estão em falta “as grandes linhas orientadoras do que deverá ser a construção do turismo na ilha de Santiago”.

Para Eugénio Inocêncio é necessário que “este Master Plan se encaixe harmoniosamente com o que já se está a fazer, nomeadamente pela Associação de Turismo de Santiago e pelas 9 Câmaras Municipais da ilha. Neste caso concreto, a noção de tempo útil significa também a possibilidade de inclusão de medidas de política no Orçamento de Estado de 2020”.

O presidente da associação defende que os planos turísticos a serem desenvolvidos em cada ilha não podem ser estanques, ignorando a proximidade de outras ilhas.

“Pela proximidade entre as ilhas do Maio e do Fogo, a questão demográfica na ilha de Santiago deve ser colocada na perspectiva do Maio e do Fogo”, aponta Eugénio Inocêncio no texto enviado ao ministro das Finanças.

“Existe um risco real de uma migração desordenada de Santiago para a ilha do Maio, no caso de começo do desenvolvimento turístico na ilha do Maio não coordenado com o desenvolvimento da ilha de Santiago. Esta hipótese de migração desordenada, a concretizar-se, bloquearia o desenvolvimento do turismo na ilha do Maio, com efeitos catastróficos para as duas ilhas”.

Dessa forma, as “medidas de política demográfica terão que necessariamente contemplar a construção de novas centralidades no interior de Santiago e o reforço das existentes, nomeadamente para aliviar a pressão demográfica sobre a cidade da Praia e para viabilizar o desenvolvimento das ilhas do Maio e do Fogo”, acrescenta.

Para o presidente da Associação de Turismo de Santiago o projecto para o desenvolvimento turístico da ilha de Santiago “não pode nem deve ocupar-se apenas das questões que se posicionam a montante da oferta turística. Deve igualmente conter elementos de oferta turística, mormente em se tratando de um momento que se caracteriza como um ponto de partida”.

Esta ideia levou Eugénio Inocêncio a apresentar alguns projectos que devem ser incluídos no Master Plan elaborado pelo governo e que passam pela “elaboração do Master Plan da Aldeia Turística de Santa Marta, na Cidade Velha e a estratégia da sua promoção. A baía da Calheta de São Miguel e a zona litoral da cidade têm todas as condições para se transformar num grande produto turístico de nível internacional. À requalificação urbana já levada a cabo deve-se juntar um programa de qualificação turística, nomeadamente por via de um planeado programa de fomento empresarial. No litoral contíguo à Central de Compras de Santa Cruz existem todas as condições culturais e naturais para a promoção de um projecto-piloto com diversificação de oferta turística, nomeadamente, balnear, ecológica e religiosa, eventualmente servida de um parque aquático. O projecto-piloto de Babosa, no Município de São Salvador do Mundo tem todas condições para ser incluído no Master Plan (e no OE de 2020) e ter um papel de ilustração de um turismo inclusivo do mundo rural e, logo, sustentável. Assim como Santa Cruz dista apenas 30 quilómetros da Calheta do Maio, a Ribeira da Barca dista apenas 60 quilómetros dos Mosteiros na ilha do Fogo. A construção de uma nova centralidade à volta de um novo porto na Ribeira da Barca, a qualificação turística da baixa da povoação/vila, articulada com a promoção de um resort turístico na Achada Leite, é um projecto que deverá igualmente ser contemplado num Master Plan da ilha de Santiago”.

Praia como destino turístico

Para além do desenvolvimento de alguns destinos no interior de Santiago, a Associação de Turismo de Santiago defende também que algumas alterações devem ser feitas na Praia para potenciar a sua capacidade de atracção de turistas.

“A transformação planeada do Plateau num grande produto turístico (…) através da retirada dos ministérios do Plateau e a transformação dos edifícios para acolher jovens casais. A construção de um novo hospital fora do Plateau e a libertação dos respectivos terrenos para oferta turística. O apoio ao projecto do edifício de estacionamento vertical ao lado do Plateau, levado por um associado da Associação de Turismo de Santiago ao Cabo Verde Investment Fórum, 2019, na ilha do Sal”, é um dos pontos apresentados por Eugénio Inocêncio.

Num campo mais lúdico e de turismo de sol e praia, o presidente da Associação defende que se deve avançar para a “construção de uma zona balnear na cidade da Praia. O que implica a reconstrução das praias da cidade”. “De notar que o estudo preliminar para essa reconstrução foi efectuado por uma empresa internacional há cerca de 5 anos”, aponta Eugénio Inocêncio.

Também a zona da Várzea deve ser alvo de atenção por parte do governo. Para este bairro da capital Eugénio Inocêncio defende que deve haver um “aproveitamento de um bem-sucedido programa de requalificação urbana, para acrescentar um programa de qualificação turística, com base num programa de fomento empresarial”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 920 de 17 de Julho de 2019. 

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Autoria:Andre Amaral,21 jul 2019 8:44

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 ago 2019 8:19

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