Que futuro para o turismo e que espaço para o turismo interno?

PorNuno Andrade Ferreira,9 ago 2020 8:43

Foi esta pergunta que lançámos, em jeito de repto, a dois professores universitários cabo-verdianos, radicados no Brasil. O Expresso das Ilhas continua à procura de respostas sobre o futuro de um sector vital para a nossa economia.

“Cabo Verde deveria trabalhar alinhado com as normas dos países europeus”

João Evangelista, natural de Santo Antão, doutorado em economia, é o actual director da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense.

Em que ponto nos encontramos?

Em relação ao contexto internacional, estamos ainda numa situação de retoma muito tímida. No caso da Europa, há uma abertura de fronteiras, mas para fora da Europa é um pouco complicado. Cabo Verde deveria trabalhar muito alinhado com as normas dos países europeus. Aproximar-se, ver o que estão a fazer, o que seria necessário para facilitar esse fluxo entre Cabo Verde e a Europa, que é o principal mercado emissor. Para países que dependem muito de turismo, vai ser um ano complicado.

O turismo interno pode ser uma alternativa?

Tenho acompanhado a discussão sobre o turismo interno. Entendo que o turismo doméstico pode ser estimulado, mas ele tem uma limitação. Se olharmos para os dados do INE, em relação ao número de hóspedes (2018), os cabo-verdianos e estrangeiros residentes representam 7,3% do total. Outra procura potencial pode ser o total de cabo-verdianos que fazem viagens para fora e que poderão viajar dentro do país.

Operadores com quem conversámos alertam para a necessidade de serem criadas condições para que o turismo interno possa ser efectivo.

Qualquer que seja a estratégia, ela deve ser pensada de forma conjunta: transportes/alojamento/agências. Podemos criar corredores de turismo interno, Santo Antão/São Vicente/São Nicolau, Praia/Fogo/Brava/Maio, São Nicolau/Boa Vista/Sal, com ligações regulares. Mas qualquer acção deve ser pensada e coordenada, no sentido de que o preço envolva toda a cadeia. Por exemplo, se eu vou para Santo Antão, não adianta reduzir ou dar um incentivo em relação à passagem. Teria que ter a passagem, o transfer, o hotel. Não adianta dar só a passagem, porque depois o turista vai para a casa de amigos e familiares e o hotel fica de fora.

É necessário desenvolver um modelo específico?

Eu tenho que dar um incentivo ao operador, para que ele se possa sustentar, manter-se funcionando e manter os empregos. E eu tenho que dar um incentivo ao turista, para ele viajar. Eu acho que se poderia adaptar o modelo do Tax Free. Por exemplo, vais comprar um pacote para Santo Antão, que envolve transporte, transfer e duas estadias no hotel. Trazes o recibo e 20 ou 30% do pacote vai ser ressarcido em forma de incentivo à viagem, talvez através do Fundo do Turismo.

“Podemos criar ofertas que atendam ao turista nacional”

Valter Marcos Monteiro nasceu e cresceu em Ribeira Grande, Santo Antão. É doutorado em administração e professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul.

Que tipo de turismo teremos?

Eu gostaria que, quando passássemos esta pandemia, saíssemos de forma diferente. Pode ser, por exemplo, que consigamos observar com mais atenção o turismo interno, porque sempre nos temos focado no turismo externo. Claro que não temos capacidade para hospedar no mesmo número, mas vamos ter que aprender a criar pacotes que atendam a esses turistas nacionais.

Como é que se ajusta a oferta ao tipo de procura?

Em 2009, fiz um mestrado sobre turismo em Cabo verde, o estudo da competitividade entre os clusters em Santo Antão,São Vicente, Sal e Boa Vista. O cluster está fomentado na perspectiva teórica de aglomeração de várias empresas dentro do mesmo contexto. Essas empresas acabam por fomentar uma indústria, no caso, do turismo. Uma das conclusões que tirei é que o turista nacional era tão exigente quanto o turista internacional. No entanto, a capacidade de acesso não está no mesmo nível

Acredito que podemos criar ofertas que atendam ao turista nacional. Não acho uma perda fazer essa adequação.

O movimento tem que partir do privado. Os players precisamde conversar entre si e fazer adequações para a melhoria do ambiente de negócios. O ‘Zé’, que tem um ‘tasquinho’ que só vende cachupa, precisa de olhar para outras empresas e dizer: “olha, manda os teus turistas passarem por aqui, vamos fazer esse roteiro”.

Uma das grandes dificuldades que temos encontrado prende-se com a gestão dos pequenos negócios. Como é que se melhoram as competências de gestão, para termos um turismo mais resiliente?

Nós temos uma cultura de que sabemos fazer tudo. Todo o mundo entende de marketing, todos entendem de gestão, etc. Às vezes, isso interfere muito na forma como percebemos o ambiente de negócios, mas o facto é que muitas das empresas sequer chegam ao terceiro ano de existência ou até ao primeiro. As pessoas não planeiam os seus negócios. Também temos que entender a distinção que existe dentro do conceito de empreendedorismo. Tens aquelas pessoas que vão empreender por necessidade e tens as outras que vão empreender por oportunidade. A oportunidade é aquela que é mais passível de dar certo. Houve uma disseminação da ideia de que o empreendedorismo era só uma forma de maquilhar o desemprego e isso acabou por condicionar toda a abordagem. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,9 ago 2020 8:43

Editado porClaudia Sofia Mota  em  23 mai 2021 23:21

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