O futuro dos investimentos na bolsa passa pela economia para o desenvolvimento – PCA da Bolsa de Valores de Cabo Verde

PorJorge Montezinho,26 jun 2022 7:18

MIGUEL MONTEIRO – PCA da Bolsa de Valores de Cabo Verde
MIGUEL MONTEIRO – PCA da Bolsa de Valores de Cabo Verde

Os investidores, principalmente os institucionais, já não procuram só o retorno financeiro, mas também saber que a aplicação dos seus fundos vai resultar na melhoria das condições sociais e ambientais. O novo plano estratégico da Bolsa de Valores de Cabo Verde 2021-2025, aprovado no início deste mês, procura ir ao encontro deste novo perfil de investidores, mas não só. O plano pretende igualmente servir a economia real e apoiar o desenvolvimento sustentável, oferecendo alternativas de financiamento e investimento, em condições favoráveis, a emissores e investidores. O documento está estruturado em quatro eixos estratégicos e um enabler e divide-se em 17 iniciativas, com cinco a serem consideradas prioritárias. Miguel Monteiro, Presidente do Conselho de Administração da Bolsa de Valores de Cabo Verde explica ao Expresso das Ilhas como quer que instituição esteja dentro de três anos.

O plano estratégico está assente em quatro eixos e em um enabler, portanto, um facilitador. Estamos a falar do quê?

Este novo plano estratégico foi desenhado para o período 2021-2025 e é um trabalho feito em conjunto com uma consultora internacional [a PwC – PricewaterhouseCoopers] e demorou algum tempo. Desse trabalho resultou que, em termos de eixos estratégicos temos quatro que passam por ser: a revisão e disseminação da proposta de valor, ou seja, conseguir um reforço da procura local e que o mercado nos veja como uma bolsa de valores que consegue diversificar a oferta de produtos. É, por exemplo, o que estamos a fazer com a introdução dos Blue Bonds [Os Blue Bonds, ou ‘títulos azuis’, são uma forma de financiar projectos vocacionados para a economia azul, mas obedecem a um critério, têm de ter um cariz ambientalista], temos também, ainda neste primeiro eixo, o objectivo de dinamizar o mercado secundário [onde os investidores podem vender e comprar, num segundo momento, os seus títulos]. Pretendemos também, ainda no primeiro eixo, massificar a literacia financeira. Sabemos que só quando as pessoas tiverem mais entendimento sobre os vários produtos, como funciona, como é possível investir, como é possível financiar é que poderemos cumprir cabalmente a nossa função. O segundo eixo estratégico tem a ver com a internacionalização da bolsa de valores.

Até porque as bolsas não funcionam sozinhas.

E captar negócio internacional é um dos objectivos que nos foi dado pelo próprio governo. Esta questão do negócio internacional é fundamental. Nesse sentido, temos aqui alguns aspectos importantes, nomeadamente a plataforma Blu-X [https://blu-x.bvc.cv] que vai permitir, através da Internet, de uma app, investir ou financiar através de instrumentos sustentáveis. Temos o WACMIC [West African Capital Markets Integration Council – Conselho Oeste-Africano de Integração dos Mercados de Capitais] um processo que está a decorrer desde 2013 e que comporta as quatro bolsas de valores da região [Nigéria, Gana, Cabo Verde e a BRVM - Bourse Régionale des Valeurs Mobilières - Bolsa de valores regional, que funciona no Benin, Burkina Faso, Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Mali, Níger e Senegal] e a ideia é que seja possível que, por exemplo, um investidor na Nigéria possa negociar instrumentos listados na bolsa de Cabo Verde e vice-versa. Terceiro eixo, desenvolvimento digital e tecnológico. Todos sabemos que as bolsas são cada vez mais tecnológicas e queremos, através da plataforma Blu-X, chegar mais longe, através de processos mais eficientes e seguros. O quarto eixo é o foco no capital humano, essencialmente uma estratégia de captação e retenção de talento, além da capacitação dos colaboradores. Verificámos que estamos com uma fuga do nosso melhor activo, o capital humano, que principalmente nos últimos dois anos tem estado a sair e teremos de tomar medidas. Quanto ao enabler, o facilitador, tem a ver com a actuação conjunta com os stakholders [partes interessadas] para a criação de condições de mercado favoráveis. Muito do que eu disse antes, exige que haja uma concertação, seja com a AGMVM [Auditoria Geral do Mercado de Valores Mobiliários – Regula o funcionamento dos mercados de valores mobiliários], que tem responsabilidade na criação de condições para os investidores, na questão do regulamento de acesso ao mercado, na protecção ao investidor, mas também questões relacionadas com o BCV, com a banca comercial. Há um conjunto de stakholders que precisam de estar alinhados para termos condições para a bolsa poder cumprir as suas funções. Diria que mais de 60% do que está previsto depende desta concertação.

Para além destes eixos, o plano estratégico fala ainda em 17 iniciativas. Não vamos falar de todas, claro, mas quais considera serem as prioritárias?

Há cinco que são considerados os passos imprescindíveis. A primeira iniciativa é a diversificação da oferta, a aposta no segmento do sustentável e a questão de chegar às pequenas e médias empresas. A segunda iniciativa tem a ver com a dinamização do mercado secundário e isto é algo fundamental e explico porquê. Imagine que tem uma acção e passado um ano ou dois pretende vender essa acção, se não houver esta dinamização o que vai acontecer é pouca liquidez, ou seja, você até pode dar a instrução para vender, mas a instrução fica no mercado e se não aparecer ninguém para a adquirir, na prática, vai continuar com essa acção. É isso que pretendemos mudar, nomeadamente com uma ferramenta chamada market maker em que os bancos assumem um papel mais dinâmico, comprando a quem quer vender ou vendendo a quem quer comprar. A terceira iniciativa tem a ver com o advogar da revisão do preçário e requisitos de acesso à bolsa de valores. Digo advogar e não fazer porque não é uma atribuição da bolsa, mas sim da AGMVM.

E esse trabalho já começou?

Esse trabalho já começou. Vou dar-lhe um exemplo concreto. Neste momento, uma empresa para ser cotada na bolsa tem de ter um capital próprio mínimo de 100 mil contos e aquilo que vemos é que são muito poucas as empresas que têm este capital próprio. A ideia seria baixar essa exigência para valores que há noutras bolsas. Fizemos um benchmarking [análise estratégica das melhores práticas usadas por empresas do mesmo sector] e a que tem um preço mais próximo é a de Angola, que ronda os 600 mil euros. Mas há bolsas onde este valor baixa para os 400 mil e o valor mais baixo é de 250 mil euros, muito inferior em relação à exigência que consta na nossa legislação.

Presumo que seja uma medida para também atrair as pequenas e médias empresas.

Exactamente. E assim ter mais empresas cotadas. Um dos nossos objectivos é ter, no mínimo, em 2025, 10 empresas cotadas e estamos a trabalhar nesse sentido. Voltando às iniciativas, a quarta é a aceleração digital. Por último, uma estratégia de recrutamento e retenção de talento. Queremos manter os nossos quadros por um período mínimo de 3 anos.

Há mais alguma estratégia específica direcionada para as PMEs?

Já tínhamos feito, há relativamente pouco tempo a operação da MORABI [empréstimo obrigacionista], com um valor de 100 mil contos que permite que a MORABI empreste, ou seja, repasse esse montante, com uma taxa muito inferior à cobrada pela própria MORABI. Esta já é uma forma de chegar às pequenas e micro empresas. Quando houver a revisão dos requisitos, estamos a pensar em criar um outro mercado, que permita critérios de acesso diferenciados para as PMEs. Contamos ainda durante este ano ter novidades sobre o acesso das PMEs ao mercado de capitais.

Durante a construção deste plano, devem ter analisado os pontos fracos e fortes da bolsa de Cabo Verde. O que descobriram?

Podemos dizer que em termos de pontos fortes, podemos apontar o facto de já termos alguma experiência. A bolsa vai fazer 25 anos e já somos procurados por outras bolsas africanas que estão em etapas mais incipientes. Há também aspectos menos positivos, nomeadamente o facto de estarmos muito focados em instrumentos ligados à dívida pública. Desde que a bolsa começou que temos as mesmas empresas cotadas, não houve evolução, dependemos muito dos instrumentos lançados pelo Estado, como os títulos do tesouro, e não temos tido novos instrumentos, como por exemplo aquilo em que estamos agora a trabalhar, a possibilidade de termos fundos de investimento, que cumprem a sua parte no apoio à economia e aos projectos que precisem de financiamento.

Falou que durante a execução deste plano estratégico houve conversas com os stakholders. Quais foram as interacções principais com as instituições públicas e privadas?

As entidades envolvidas foram o governo, naturalmente, através da senhora secretária de estado do fomento empresarial, a AGMVM, dois bancos comerciais, o BCV, o PNUD [parceiro estratégico na plataforma Blu-X] e, na prática, falou-se do que consideravam sobre a bolsa, os aspectos a melhorar, etc.. Contributos que consideramos relevantes.

E qual foi o peso que o actual quadro económico teve neste plano? Ou seja, é um plano adaptado ao que existe agora, ou a pensar no futuro?

É um plano que tem por base não só as dificuldades por que passam, neste momento, as empresas, mas também, e principalmente, aquilo que se quer para a bolsa em 2025. Ou seja, independentemente das dificuldades, o que queremos é que a bolsa deixe de ser um repositório dos instrumentos do Estado, em grande maioria. Por exemplo, em termos objectivos concretos sobre investidores de fora do país – não quer dizer que sejam estrangeiros, estamos a falar também da diáspora – queremos passar de 4% [o valor de 2020] para 20% em 2025. Isto é uma mudança, independente da crise do momento, e é um objectivo estratégico. A nossa visão é em 2025 sermos uma bolsa de valores sustentável, acessível, atrativa e relevante a nível nacional e regional, com uma reputação global. Com este plano estratégico iremos servir a economia real e apoiar o desenvolvimento sustentável de Cabo Verde, oferecendo alternativas de financiamento/investimento em condições favoráveis a emissores e investidores através da intermediação financeira.

A novidade é a parte da sustentabilidade.

Segundo um estudo da PwC, 77% dos investidores institucionais pretende deixar de investir nos instrumentos ditos tradicionais para passar a investir nos instrumentos sustentáveis dentro de 2 anos. Ou seja, investir sabendo que aquilo em que estão a investir terá impacto ambiental e social. Esse será o futuro e a bolsa de Cabo Verde está a virar-se para esse futuro.

Quando apresentou o plano, disse que havia condições para colocar a bolsa num novo patamar. Pelo que me disse, percebo qual é esse patamar, por isso pergunto-lhe o que seria a bolsa ideal dentro de 3 anos?

Uma bolsa que teria nos instrumentos sustentáveis o principal mercado, que dependesse menos das receitas de custódia, que neste momento são as principais, e passasse a ter a maioria das receitas através do mercado secundário – vendas e compras de acções e obrigações – uma bolsa que tivesse parcerias com outras bolsas, tanto da nossa região como a Euronext [bolsa de valores europeia que opera mercados em Amesterdão, Bruxelas, Londres, Lisboa, Dublin, Oslo e Paris] e a bolsa de valores do Luxemburgo e que pudesse ter no seu portfólio novos produtos como fundos de investimento, que conseguisse ter dual-listing com empresas cotadas na bolsa de Cabo Verde e, por exemplo, na Euronext ou na bolsa do Luxemburgo. Esta seria a visão de uma bolsa com sucesso total.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1073 de 22 de Junho de 2022. 

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Autoria:Jorge Montezinho,26 jun 2022 7:18

Editado porAndre Amaral  em  12 ago 2022 23:29

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