Cabo Verde produz pouca inovação para o nível de investimento feito

PorJorge Montezinho,10 dez 2023 8:53

Na relação entre PIB per capita e performance na inovação, ou seja, a inovação esperada para o nível de rendimento do país, Cabo Verde cumpre as expectativas para a sua fase actual de desenvolvimento, mas precisa de melhorar em termos de pesquisa e desenvolvimento, capital humano e na formação de cientistas e engenheiros. Estas são algumas das conclusões que podem ser tiradas do último Índex Global de Inovação (IGI). O arquipélago é o 91º país entre as 132 economias analisadas.

O Índice Global de Inovação (IGI) avalia as economias mundiais com base nas suas capacidades de inovação, destacando os seus pontos fortes e fracos, e é publicado anualmente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual. A avaliação tem em consideração sete pilares e 80 indicadores.

O IGI de 2023 examina o panorama da inovação num cenário económico e geopolítico marcado por incertezas e identifica as tendências mundiais mais recentes em matéria de inovação. Uma das conclusões é que, apesar do clima de preocupação e da queda nos investimentos de capital de risco, há imensas oportunidades geradas pela inovação digital e pela ciência.

Essencialmente, o IGI é uma ferramenta prática que ajuda na elaboração de políticas de inovação. Governos do mundo inteiro utilizam este ranking para avaliações comparativas de desempenho em inovação, para aperfeiçoar métricas de inovação e, em última análise, para formular políticas de inovação apoiadas em evidências.

Em 2023, a Suíça ocupa, pelo 13º ano consecutivo, a primeira posição no IGI. A Suécia assume o 2º lugar e os Estados Unidos caem para 3º, seguidos do Reino Unido (4ª posição) e de Singapura (5ª), que agora integra o rol das cinco economias mais inovadoras. A Finlândia (6ª) aproxima-se das cinco primeiras e todas as outras economias nórdicas (Dinamarca, 9ª) e bálticas (Estónia, 16ª, Lituânia, 34ª, e Letónia, 37ª) também mostram uma trajectória ascendente, com excepção da Islândia, que manteve a 20ª posição. Arábia Saudita (48ª), Brasil (49ª) e Qatar (50ª) entram na lista das 50 primeiras e a África do Sul (59ª) agora figura entre as 60 mais inovadoras.

As empresas com os maiores orçamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) gastaram 1,1 trilião de dólares [um milhão de biliões (a unidade seguida de 18 zeros)] – o maior valor registado até hoje. Em termos nominais, esta cifra representa um aumento de 7,4% em 2022, mas abaixo dos 15% verificados em 2021.

Reflectindo a recente ascensão da inteligência artificial, o sector de equipamentos de TIC obteve o crescimento mais significativo nas actividades de P&D em 2022, graças principalmente aos fabricantes de placas de vídeo e chips. Outros sectores que reduziram os gastos em P&D durante a pandemia, como os de automóveis e viagens e lazer, voltaram a investir com força em 2022.

Dados preliminares apontam para um crescimento real nos orçamentos públicos de P&D em 2022, com aumentos significativos no Japão e na República da Coreia.

África Subsaariana

Na África Subsaariana, apenas Maurícias (57ª) e África do Sul (59ª) se classificam nas 60 primeiras economias mais inovadoras. Entre as outras economias da região, seis classificam-se entre as 100 primeiras do mundo: Botswana (85ª), Cabo Verde (91ª) – que regressa ao IGI em 2023 –, Senegal (93ª), Namíbia (96ª), Gana (99ª) e Quénia (100ª).

Nove economias da região melhoraram a classificação no IGI, entre as quais África do Sul, Senegal, Ruanda (103ª), Togo (114ª) e Mauritânia (127ª). Outras economias da região que registam melhorias significativas são a Nigéria (109ª), o Togo (114ª), o Benim (120ª) e a Guiné (128ª).

Maurícias obtém o melhor resultado da região em Instituições (26ª), Capital humano e pesquisa (64ª), Sofisticação do mercado (24ª) e Produtos criativos (57ª). O país alcança a maior pontuação mundial em Investidores de capital de risco (1ª) e ocupa a 5ª posição em Capital de risco recebido. Cabo Verde lidera a região em Infra-estrutura (64ª) e mostra resultados positivos nos indicadores de Formação bruta de capital (3ª), Gastos com educação (13ª) e Fluxos de Investimento Directo Estrageiro – IDE (17ª).

O IGI 2023 é calculado a partir da média de dois sub-índices. O sub-índice Insumos de inovação avalia os elementos da economia que viabilizam e facilitam o desenvolvimento de actividades inovadoras, agrupados em cinco pilares: (1) Instituições; (2) Capital humano e pesquisa; (3) Infra-estrutura; (4) Sofisticação do mercado; e (5) Sofisticação empresarial. O sub-índice Produtos de inovação recolhe o resultado efectivo das actividades inovadoras no interior da economia e divide-se em dois pilares: (6) Produtos de conhecimento e tecnologia e (7) Produtos criativos.

Botswana lidera em Sofisticação empresarial (56ª) e regista um bom desempenho em Empréstimos concedidos por instituições de microfinanças (12ª). A África do Sul é a economia da região com a maior pontuação em Produtos de conhecimento e tecnologia (56ª), graças aos bons resultados em Gastos com software (28ª), Patentes por origem (34ª) e Pedidos de patente via PCT [Tratado de Cooperação de Patentes] (40ª) e ao valor de dois unicórnios (37ª).

O Senegal ganhou seis posições este ano, melhorando consideravelmente em Produtos de conhecimento e tecnologia (63ª). O país é ainda líder mundial em termos do valor do unicórnio Wave (fintech), dividindo a primeira posição com a Estónia, Israel, Lituânia e Estados Unidos. Além disso, apresenta resultados positivos em Formação bruta de capital (8ª), Empréstimos concedidos por instituições de microfinanças (10ª), Fluxos de IDE (13ª) e Capital de risco recebido (19ª).

Cabo Verde

Não é novidade que Cabo Verde quer ser uma Plataforma Digital em África e que o governo quer fazer da Economia Digital um dos maiores geradores de riqueza, atingindo, em 2030, uma contribuição não abaixo de 25% para o PIB, como refere o Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável (PEDS II).

Para realizar esta ambição, refere o PEDS, o país deve, até 2026, posicionar-se como um forte provedor de produtos e serviços para o continente Africano, “capitalizando as apostas já feitas no ecossistema tecnológico como a Governação Electrónica e o Parque Tecnológico”. A expansão da infra-estrutura de conectividade como cabos submarinos e o Parque Tecnológico da Praia e do Mindelo “constituem infra-estruturas relevantes para a transformação digital”. A Zona Económica Especial para Tecnologias “deverá favorecer o investimento directo estrangeiro para acelerar negócios no sector da Economia Digital em Cabo Verde e a transformação do País numa plataforma digital”.

Ainda recentemente, o secretário de estado da economia digital, Pedro Lopes, disse ao Expresso das Ilhas que “Cabo Verde tem de pensar como é que quer desenhar o país daqui a 10 anos. Temos subido nos rankings internacionais, o que mostra que isto não é apenas conversa do governo. Há instituições lá fora que vêem valor no que temos feito. Somos perfeitos e temos feito tudo aquilo que poderíamos fazer? Não, acho que há ainda muito por fazer. E acho que vamos fazer ainda muito mais. É importante ter esta vontade de trabalhar e depois concretizar toda essa vontade em benefício do país e dos cabo-verdianos”.

Segundo o relatório do IGI deste ano, Cabo Verde tem um desempenho acima da média no grupo das economias de rendimento médio-baixo em pilares como Sofisticação empresarial, Infra-estruturas e Instituições.

Cabo Verde tem também um desempenho acima da média regional (África subsaariana) em Produtos de conhecimento e tecnologia, Sofisticação empresarial, Sofisticação de mercados, Capital humano e investigação, Infra-estruturas e Instituições.

Os principais pontos fortes de inovação de Cabo Verde são a Formação Bruta de Capital em percentagem do PIB (3º), Despesas com educação em percentagem do PIB (13º) e Entradas líquidas de IDE em percentagem do PIB (17º).

Os pontos fracos são a Dimensão do mercado (132º), Exportações de alta tecnologia em percentagem do comércio total (132º), e Exportações de bens criativos em percentagem do comércio total (130º).

Cabo Verde é 14º entre as 37 economias de rendimento médio-baixo e 4º entre as 28 economias da África subsaariana analisadas. As melhores pontuações de Cabo Verde foram alcançadas nos pilares instituições (44º) – que abarca indicadores como estabilidade institucional, ambiente regulatório, ambiente de negócios –, infra-estruturas (64º) – infra-estrutura geral, sustentabilidade ecológica, etc. – e sofisticação do mercado (65º) – crédito, investimento, escala do mercado, etc. –; as piores classificações foram em produção criativa (108º), produção de conhecimento e tecnologia (98º) e capital humano e investigação (97º).

No entanto, como refere o documento da OMPI, Cabo Verde tem falta de dados para vinte e seis indicadores e informação desactualizada em quatorze outros indicadores.

Sobre a OMPI

 

A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) é a agência das Nações Unidas com a missão de responder às necessidades dos inovadores e criadores do mundo, garantindo que as suas ideias chegam com segurança ao mercado e melhoram a vida das pessoas em todo o planeta.

Globalmente, o relatório, no fundo, revela que as economias mais inovadoras são aquelas que investem em educação, pesquisa e desenvolvimento, bem como em infra-estrutura. Esses pilares sustentam a inovação, formando uma base sólida para o crescimento e o desenvolvimento sustentável.

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Como usar o Índice Global de Inovação da melhor maneira e o que não deve ser feito

Um levantamento feito em 2022 pela OMPI mostrou que 70% dos Estados membros utilizam o IGI para melhorar os ecossistemas e as métricas de inovação e como instrumento de referência para o desenvolvimento de políticas nacionais de inovação e estratégias económicas.

O que fazer:

– Garantir que a inovação é uma das principais prioridades da estratégia de desenvolvimento e progresso nacional do país, se possível formulando-a no âmbito de uma política de inovação clara.

– Criar um grupo de trabalho interministerial para discutir questões relacionadas com políticas de inovação através de uma abordagem integrada de governo.

– Garantir que qualquer grupo de trabalho sobre políticas de inovação consulte os actores competentes dos sectores público e privado, incluindo startups, universidades de pesquisa e clusters de inovação.

– Garantir que qualquer política nacional de propriedade intelectual está alinhada ou mesmo integrada com as políticas de inovação.

– Garantir que os objectivos ou acções que fazem parte das políticas de inovação possam ser quantificados e avaliados.

O que não fazer:

– Não estabelecer objectivos de classificação no IGI que sejam demasiadamente ambiciosos e irrealistas.

– Não esperar que mudanças políticas resultem em melhorias imediatas nas pontuações nos indicadores do IGI. Há um lapso temporal significativo entre a formulação de políticas de inovação e a sua execução e impacto.

– Não tratar o IGI como um exercício matemático, ou seja, tentar colectar ou concentrar-se em indicadores específicos apenas para subir no Índice. Uma maneira mais adequada de usar o IGI é definir objectivos para um período de, por exemplo, três a cinco anos e posteriormente avaliar o progresso combinado ao longo de vários anos. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1149 de 6 de Dezembro de 2023.

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Autoria:Jorge Montezinho,10 dez 2023 8:53

Editado porAntónio Monteiro  em  27 fev 2024 23:29

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