O Índice de Estabilidade Financeira calculado pelo BCV - um indicador sintético que agrega dimensões de robustez bancária, desenvolvimento financeiro, vulnerabilidade e clima económico externo - atingiu em 2025 o nível mais elevado de toda a série histórica, que recua a 2011. O principal motor foi a melhoria dos indicadores de robustez do sector bancário.
Banca em alta
O sector bancário fechou 2025 no melhor momento da sua história recente, com solvabilidade recorde, crédito malparado em queda e lucros históricos. O rácio de solvabilidade - que mede a capacidade dos bancos para absorver perdas - atingiu os 24,8%, mais do dobro do mínimo exigido por lei, que é de 12%. É o nível mais alto desde 2010, o ano mais antigo da série disponível. Os fundos próprios, que funcionam como almofada de segurança do sistema, cresceram 12,7%.
Os lucros também bateram recordes. O resultado líquido do conjunto do sector aumentou 7,8% face ao ano anterior, atingindo um novo máximo. O produto bancário cresceu 10,1%, impulsionado tanto pela margem financeira, como pelas receitas de comissões e serviços. A rendibilidade dos capitais próprios situou-se nos 18,1%.
A própria eficiência melhorou. O rácio cost-to-income –quanto custa aos bancos gerar cada escudo de receita - desceu para 43,4%, abaixo do benchmark internacional de referência para bancos de retalho.
O activo total do sistema cresceu 9,8% em termos homólogos, passando a representar 132,3% do PIB do país. Dentro do balanço dos bancos, há uma tendência que o BCV regista: o crédito à economia, apesar de ter crescido 4,6%, continua a perder peso relativo no conjunto dos activos. Em Dezembro de 2025 atingiu o valor mínimo desde 2010 como proporção do total do balanço. Em contrapartida, os bancos estão a aplicar cada vez mais recursos em títulos e em depósitos junto de outras instituições financeiras. São estes, activos mais líquidos e de menor risco, mas também de menor contributo directo para o financiamento da economia produtiva.
Crédito malparado recua
Uma boa notícia do boletim é que o rácio de crédito em incumprimento desceu para 5,1%, uma redução de 2,8 pontos percentuais face ao ano anterior. O rácio de crédito vencido fixou-se em 5,2%, também em queda. Os dados confirmam a trajectória descendente do crédito malparado.
As imparidades constituídas pelos bancos cobrem 90,8% do crédito em incumprimento. E os fundos próprios do sistema excedem em 1,6 vezes o total dos créditos considerados de grande risco, o que dá uma margem de segurança adicional.
Há, porém, uma nota de cautela: a concentração bancária no mercado de crédito permanece elevada. Os bancos sistémicos detêm mais de metade do crédito total - uma estrutura que limita a concorrência, embora em trajectória descendente. O mesmo padrão de concentração existe no mercado de depósitos. Os cinco maiores depositantes do sistema representavam, em Dezembro de 2025, quase um quarto do total dos depósitos (24,9%). Esta concentração é identificada pelo BCV como um risco: se um desses grandes depositantes decidir retirar os seus fundos, o impacto sobre a liquidez dos bancos pode ser significativo.
Depósitos crescem, taxas convergem
A base de financiamento do sistema bancário reforçou-se em 2025. Os depósitos de clientes, principal fonte de funding dos bancos cabo-verdianos, cresceram 12,9% e representam agora 84,5% do financiamento total. O crescimento foi mais expressivo nos segmentos de outros residentes, outros não residentes e do sector público administrativo.
O diferencial negativo entre as taxas de juro pagas pelos bancos cabo-verdianos e praticadas na Área do Euro reduziu-se substancialmente.
Os depósitos de outros não residentes (categoria que inclui investidores e empresas estrangeiras), passaram, desde Maio de 2025, a apresentar uma ligeira vantagem face aos equivalentes europeus. É uma mudança com relevância para a política monetária: significa que o risco de saída de capitais para a Europa, que motivou três subidas das taxas directoras do BCV em 2025, está a ser mitigado.
As taxas directoras do BCV mantiveram-se inalteradas desde Maio de 2025, após esse ciclo de subidas.
Seguros resistem
Falando agora do sector segurador, este fechou 2025 com resultados inferiores ao ano anterior. A razão terá sido a tempestade Erin que gerou um aumento significativo dos custos com sinistros. Os resultados líquidos reduziram 12,4% face a Dezembro de 2024, e a rendibilidade dos capitais próprios desceu de 20,6% para 15,8%.
Mas o sector mantém-se sólido, com um rácio de solvência de 669,2%, mais de 6,7 vezes acima do mínimo regulamentar. Os activos representativos das provisões técnicas são suficientes para cobrir a totalidade das responsabilidades futuras assumidas, e o grau de liquidez dos activos é satisfatório.
O peso do sector segurador na economia mantém-se modesto: a taxa de penetração dos seguros situou-se em 1,5% do PIB em Dezembro de 2025, muito abaixo da média dos países de rendimento médio, o que sugere um mercado com espaço considerável para crescer.
Mercado de capitais acelera
O mercado de valores mobiliários cresceu significativamente em 2025, com o fluxo total de emissões a atingir 33.301 milhões de escudos, mais 56% face ao ano anterior.
O crescimento foi particularmente expressivo nas emissões Corporate - obrigações emitidas por empresas -, que quintuplicaram, atingindo 7 mil milhões de escudos, equivalentes a 2,6% do PIB. Predominaram empresas dos sectores dos transportes, indústria farmacêutica, construção, energia e água.
A expansão do segmento Corporate e Municipal representou 80,5% do total das emissões privadas, o que sugere que as empresas cabo-verdianas estão progressivamente a diversificar as suas fontes de financiamento, recorrendo ao mercado de capitais como alternativa ou complemento ao crédito bancário.
O rácio de incumprimento da dívida titulada por sociedades não financeiras situou-se em 12,2% em Dezembro de 2025. É uma descida de 1,8 pontos percentuais face a 2024, e ocorre num contexto de crescimento do stock total de emissões. É um sinal positivo, mas continua a ser rácio elevado por qualquer padrão internacional.
O mercado secundário, onde os títulos já emitidos são transaccionados entre investidores, continua a ter uma dinâmica muito limitada, com as transacções neste mercado a representarem apenas 2,3% do total de emissões.
Esta assimetria entre um mercado primário dinâmico e um mercado secundário estagnado é um dos constrangimentos estruturais ao desenvolvimento do mercado de capitais cabo-verdiano.
Excedente orçamental histórico
Um dos principais elementos a destacar no boletim é que, em 2025, Cabo Verde registou um excedente orçamental global pela primeira vez desde 2007. Ou seja, dezoito anos depois, o Estado recebeu mais do que gastou.
O excedente no saldo orçamental primário - que exclui o pagamento de juros da dívida - já se mantinha há doze trimestres consecutivos, mas o excedente global é um patamar diferente. Terá sido alcançado por via de um crescimento mais acelerado das receitas fiscais e de um expressivo aumento dos rendimentos de propriedade, embora o Estado também tenha aumentado as despesas correntes e as despesas com activos não financeiros.
Esta melhoria das contas públicas teve reflexo no rating soberano do país. A agência Standard & Poor's melhorou a notação da dívida pública de Cabo Verde de B para B+ com outlook positivo, em Fevereiro de 2026. A Fitch, em Abril, confirmou o rating em B- mas melhorou o outlook de estável para positivo. São sinais de reconhecimento, mas que, como o próprio BCV sublinha, não elimina, os riscos associados à sustentabilidade da dívida.
Dívida pesada
A dívida pública global continua a ser classificada como de risco elevado para a sua sustentabilidade, e a dívida externa como de risco moderado. O stock da dívida do governo central reduziu-se pelo quarto ano consecutivo em percentagem do PIB, mas em valor absoluto continua a ser pesado. O serviço desta dívida consome uma fatia significativa das receitas do Estado, e qualquer perturbação externa - uma subida das taxas de juro internacionais, uma quebra do turismo, um choque nos preços das matérias-primas - pode tornar esse peso muito mais difícil de suportar.
Apesar destes riscos, a posição externa do país reforçou-se. As reservas internacionais líquidas cresceram 44,6% em termos homólogos em Dezembro de 2025 e situam-se agora em 8,8 meses de importações de bens e serviços, um nível considerado confortável.
Economia cresceu, mas está a abrandar
O pano de fundo macroeconómico em que tudo isto ocorre é de crescimento, mas em desaceleração. As estimativas do Instituto Nacional de Estatísticas apontam para um crescimento real do PIB de 6,3% em 2025, inferior aos 7,0% registados em 2024. A desaceleração reflecte, do lado da procura, uma quebra nas exportações de bens e um consumo privado menos dinâmico. Do lado da oferta, o comércio contraiu-se e os sectores do alojamento, restauração e agricultura perderam velocidade, enquanto os transportes, a educação e a administração pública foram os maiores contribuidores para o crescimento. A construção, depois de cinco trimestres consecutivos de forte crescimento, contraiu-se no quarto trimestre de 2025.
O BCV não antecipa nem aceleração significativa nem deterioração, sendo que o crescimento deverá estabilizar num ritmo mais moderado nos próximos anos.
Inflação
Há também dados já de 2026, na frente da inflação. Os preços desaceleraram de Janeiro a Março, em termos homólogos, sobretudo devido à redução dos preços da energia e dos transportes. Aqui, é de lembrar, que o governo adoptou medidas excepcionais para limitar o impacto dos preços energéticos sobre famílias e empresas.
Mas o quadro não é tranquilizador. Os preços do vestuário e calçado, dos bens alimentares, da saúde, da restauração e dos serviços relacionados com habitação e férias subiram de forma mais expressiva. Em Abril, os combustíveis inverteram a tendência e voltaram a encarecer.
O Banco de Cabo Verde alerta para pressões adicionais decorrentes do aumento dos preços importados de bens não energéticos, uma consequência directa das tensões comerciais internacionais e do conflito no Médio Oriente, com a guerra envolvendo o Irão a ser o principal factor de incerteza.
Contexto externo
O boletim dedica bastante espaço à conjuntura macroeconómica internacional. As perspectivas de crescimento da economia global foram revistas em baixa para 2026 e 2027, num contexto marcado por essas tensões, mas não só.
Nos EUA, no Reino Unido e na Área do Euro, a inflação deverá manter-se acima dos objectivos dos respectivos bancos centrais em 2026, o que limita a margem para descidas de taxas de juro e aumenta a pressão sobre os preços dos bens importados.
O BCV identifica, assim, vários riscos descendentes para a economia cabo-verdiana: subida dos preços das matérias-primas, com impacto directo nas importações e na inflação; agravamento das condições financeiras globais, que poderia tornar mais caro o financiamento externo do país; e o risco de pressões cambiais e saída de capitais.
A dependência do país do turismo aumenta a vulnerabilidade. Uma desaceleração na Europa, o aumento dos custos das viagens ou perturbações na conectividade aérea teriam impacto directo nas exportações de serviços e, por essa via, no crescimento, impostos, depósitos e crédito.
O documento deixa, pois, um aviso claro: o contexto externo deteriorou-se e a estabilidade conquistada não é imune ao que acontece fora de Cabo Verde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de 24 de Junho de 2026.
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