EDITORIAL : Pensar estratégias de saída

PorA Direcção,20 abr 2020 7:38

Está prestes a chegar ao fim o estado de emergência decretado pelo presidente da república no dia 29 de Março. Os casos de Covid-19 já ultrapassaram uma dezena e as pessoas em quarentena, por razões ligadas aos casos diagnosticados, estão acima das quinhentas, 216 em S. Vicente e as restantes na ilha da Boa Vista.

Com o número de testes realizados ainda pouco expressivo, 116 pessoas até sexta-feira, 9 de Abril, dificilmente se pode albergar certezas quanto à percentagem da população que eventualmente já terá tido algum tipo de contacto com o coronavírus. Muito menos se terá ideia da sua presença nas diferentes ilhas e dos riscos associados que representará para a população. Em fins de Março, quando o perigo de contágio aparentava ser ainda incipiente com um único caso na Boa Vista, foi-se avante com o estado de emergência e paralisação de grande parte da economia na sequência da imposição do distanciamento social e de restrições na circulação de pessoas. Agora, perante a situação de aparente sucesso na mitigação da Covid-19, põe-se o problema de dar ou não continuidade ao estado de emergência.

Há quem considere que a medida tomada logo nos primeiros casos foi crucial para que a progressão dos infectados se ter mantido tão baixa. Outros consideram que poderá ter sido precipitado. O que parece não haver dúvidas é que com o país já colocado na posição defensiva face ao vírus, num esforço de quebrar cadeias de contágio que venham a aparecer, não se deva continuar para mais algum tempo com as políticas de distanciamento social e de confinamento dos mais vulneráveis. Poder-se-á ponderar se se deve continuar a aplicar essas medidas com o mesmo grau em todo o país ou se deverá ter-se em devida consideração a condição de ilhas, a relativa facilidade em controlar a movimentação entre elas e o nível diferente de risco de contágio que por razões várias elas incorrem. A fragilidade associada a uma forte informalidade da economia cabo-verdiana torna particularmente difícil para uma parte expressiva da população garantir o mínimo em situação de restrição de circulação e exigência de confinamento. A par disso, o país não tem recursos nem tem uma rede social com abrangência suficiente para chegar a todos os que realmente precisam de apoio.

O dilema de Cabo Verde não difere muito do que é vivido noutros países. Todos se sentem obrigados a salvar o maior número de pessoas afligidas com a Covid-19 ao mesmo tempo que procuram garantir que ainda terão uma estrutura económica de pé quando a pandemia passar. Nesse sentido, a tendência geral tem passado por medidas extremas como a declaração do estado de emergência e a imposição do distanciamento social na expectativa de ganhar tempo. Quer-se evitar que o sistema de saúde sucumba face à procura por parte dos infectados e também dar tempo para se encontrar algum remédio para tratar a doença ou se desenvolver uma vacina. Estabelecido o distanciamento social, a estratégia para lidar com a pandemia difere de país para país (Coreia do Sul, Espanha) e até às vezes dentro do mesmo país (Itália, Estados Unidos) com resultados diametralmente opostos, em particular no número de mortes. E a verdade que os factos vêm revelando é que quem mais ganha, aproveitando as medidas de excepção, age proactivamente para testar a população e identificar focos de infecção e contágio e consegue confiná-los.

Caso para estranhar que o número de testes realizados em Cabo Verde até o fim de semana passado não passem de 116, um número exíguo que provavelmente não traduz uma proactividade na realização de testes que podiam dar uma imagem mais exacta da situação da Covid-19 no país. E não é por falta de testes considerando que a Fundação Jack Ma ofereceu 20 mil kits que vieram juntar-se aos 5 mil kits já em stock. Outrossim, é um facto constatado em vários países que o alto grau de contágio do coronavírus associado à existência de pessoas pré- sintomáticas e assintomáticas na população, mas capazes de transmitir a doença, dificulta uma resposta adequada à epidemia na ausência de testes abrangentes e sistemáticos. Nesse sentido, não ser proactivo nos testes acaba por configurar um desperdício de um tempo extra doado com sacrifício por todos no âmbito da aplicação de medidas de distanciamento social e confinamento.

Existe a possibilidade que, passada esta primeira vaga da Covis-19, outras poderão vir enquanto não se conseguir uma imunidade de grupo ou não se disponibilizar uma vacina. Desenvolver uma estratégia para lidar com a situação num ou noutro sentido passa por um conhecimento da real situação da exposição da população ao vírus que pode implicar o uso não só do teste actual que identifica o vírus como também o do chamado teste serológico que reconhece os anticorpos criados na luta travada contra a doença por pessoas tanto sintomáticas como assintomáticas. A uma economia frágil como a cabo-verdiana não é possível submetê-la a paragens e recomeços sucessivos para responder a vagas da Covid-19. O sacrifício actual tem que ser bem aproveitado e, se mostrar necessário, alargado mais alguns dias ou semanas para não se ter de o repetir depois.

O tempo ganho também deve ser aproveitado para planear um novo arranque da economia nacional num cenário de maior desemprego e de menor rendimento devido à quebra no fluxo turístico e o enfraquecimento de sectores económicos ligados ao turismo. Cenário esse a que se pode juntar a fragilidade económica de sectores que se viram impossibilitados de conduzir os seus negócios quando vigoravam as medidas de confinamento e as restrições na circulação. Com o fim da pandemia vão se deparar com menos liquidez no mercado e incertezas várias devido a consumidores com pouca posse e investidores renitentes face às perspectivas de negócios. As medidas do governo viradas para restaurar alguma liquidez, seja do lado da oferta com as linhas de crédito, moratórias e facilidades nas contribuição para a segurança social, seja do lado da procura procurando assegurar emprego e rendimentos às pessoas, têm um efeito necessariamente limitado. Não vão poder, de repente, substituir o impacto que a procura turística tinha sobre os vários sectores da economia.

O recomeço não será fácil e há necessidade de o planear e bem. Mais uma razão para se ser efectivo na contenção do coronavírus e deixar o país mais bem preparado para enfrentar futuras pandemias. Nestes tempos de globalização e da Covid-19 é cada vez maior o foco que se coloca na necessidade de construir mais resiliência, apostar mais na diversificação e investir decisivamente nos recursos humanos. A experiência traumática desta pandemia deve ser incentivo suficiente para se dedicar à tarefa com outra energia, clarividência e o sentimento de que não há mais tempo a perder.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 959 de 15 de Abril de 2020. 

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Autoria:A Direcção,20 abr 2020 7:38

Editado porSara Almeida  em  25 out 2020 23:20

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