Mundo 2010-2019: Parabéns, você sobreviveu

PorNuno Andrade Ferreira,4 jan 2020 8:53

Refugiada Rohingya abandona Mianmar rumo ao Bangladesh (ONU)
Refugiada Rohingya abandona Mianmar rumo ao Bangladesh (ONU)

Foram dez anos de desafio para a humanidade. Anos de conflito, de poucas ou nenhumas certezas, de crise e de recuperação. Colocámos tudo em causa e ainda bem. É que isto está mesmo de pernas para o ar.

Inverno depois da Primavera

No final de 2010 e anos seguintes, o mundo árabe viveu um período de convulsão social com o advento da Primavera Árabe, uma onda de protestos que levou à queda de regimes no Médio Oriente e Norte de África. Uma revolução na Tunísia, outra no Egipto. Guerras civis na Líbia e na Síria. Protestos em larga escala na Argélia, no Bahrein, em Djibuti, no Iraque, na Jordânia, em Omã e no Saara Ocidental.

Com as redes sociais a desempenharem um papel fundamental na mobilização popular, criticavam-se os abusos de poder nos regimes vigentes e exigiam-se novas soluções políticas.

Tudo começou com a imolação do tunisino Mohamed Bouazizi, num acto de desespero contra as condições de vida no seu país. Bouazizi tornou-se um símbolo e o momento foi epígrafe para o que viria a seguir.

E o que veio a seguir foi, em muitos casos, um vazio, com instabilidade permanente ou conflitos sangrentos em larga escala. A excepção parece ser a Tunísia, que caminha para um sistema democrático de facto.

Um novo Papa para uma nova igreja

Em Março de 2013, o argentino Jorge Mario Bergoglio foi escolhido como sucessor de Bento XVI à frente da Igreja Católica, tornando-se no primeiro não europeu a ocupar a cadeira de Pedro, desde o século VIII. Adoptando o nome de Francisco, numa referência a Francisco de Assis, o novo Papa não estava na lista de favoritos. O seu pontificado tem sido marcado pelo desafio permanente a dogmas de séculos, enfrentando opositores internos, paladinos de uma visão mais ortodoxa do catolicismo.

Recorrentes escândalos de pedofilia têm abalado a imagem da Igreja. A repetição de casos na Argentina, Austrália, Chile, Estados Unidos ou Irlanda colocaram em causa a credibilidade institucional e obrigaram a Santa Sé a procurar respostas à altura da dimensão do problema.

Ao aceitar abertamente gays e divorciados, ao enviar mensagens claras sobre a necessidade de proteger o meio ambiente, de combater as desigualdades e, mais recentemente, ao abolir a regra do sigilo papal em casos de abuso sexual de menores, Francisco tenta reaproximar a religião das pessoas e ajustar a instituição ao tempo presente. A encíclica Laudato si’ (2015) é todo um programa.

Estado de terror

Fundado em 2003 (ou 2004), o Estado Islâmico saltou com mais frequência para as primeiras páginas dos jornais a partir de 2014, quando proclamou o Califado. O movimento afirma autoridade sobre todos os muçulmanos do mundo e tem actuado em diferentes áreas do continente africano e Médio Oriente. Responsável por inúmeros ataques terroristas, recrutou muitos soldados no continente europeu e fortaleceu-se à boleia da guerra na Síria.

Nos últimos anos, perdeu força e muitos dos territórios que controlava, mas relatos que chegam do Iraque sugerem que o grupo terrorista poderá estar a reorganizar-se.

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Portas fechadas

Na nossa memória, guardamos imagens de migrantes africanos, em embarcações precárias, tentando chegar à Europa. Lembramo-nos das notícias de mortes durante a travessia e da forma intolerante com que muitos foram recebidos ao chegarem ao ‘velho continente’. Mas o problema dos refugiados é muito mais complexo e não melhorou nos últimos anos.

De acordo com as Nações Unidas, em todo o mundo, no final de 2018, 70,8 milhões de pessoas viviam deslocadas, resultado de conflitos, violência, desrespeito de direitos humanos ou perseguição. Dessas, 25,9M eram consideradas refugiadas. 10 milhões são ou estão em risco de serem apátridas. Dois em cada três refugiados têm origem em apenas cinco países (Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Myanmar e Somália).

Abanar sem cair

Foi na década 10-19 que a União Europeia e o Euro estiverem em risco de colapso – não necessariamente por esta ordem. A crise da dívida comprometeu a moeda única e expôs as fragilidades do processo de integração. Uma troika formada por Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu foi chamada a intervir, impondo políticas de austeridade em países como Portugal, Grécia ou Irlanda.

A contestação saiu às ruas – no caso de Atenas durante meses seguidos – perante um crescente sentimento anti-Bruxelas.

O projecto europeu sobreviveu, mas voltou a ser posto em causa logo a seguir, com o referendo no Reino Unido, que ditou aquilo a que passámos a chamar de Brexit.

Ligados e controlados

Facebook, WhatsApp, Twitter. As redes sociais tornaram-se parte dos nossos dias.

Com 2,3 mil milhões de utilizadores, o Facebok é a rede social mais popular. YouTube e Instagram fecham o top 3, com mais de mil milhões de utilizadores cada. Existem dezenas de alternativas, com uma grande segmentação de públicos.

As redes, a par da crescente facilidade de acesso à Internet móvel de alta velocidade, alteraram profundamente a forma como nos relacionamos uns com os outros, como participamos no espaço público, emitimos opiniões ou somos influenciados.

Formaram-se ‘bolhas’, com os algoritmos a manterem-nos ‘presos’ a pessoas que pensam como nós, que têm gostos semelhantes aos nossos.

A década termina com um debate global sobre a necessidade de se regular melhor as gigantes tecnológicas que dominam a Internet.

A ‘nova política’ e o ‘novo normal’

Para Steve Bannon, ex-estratega de Donald Trump, o futuro da política é o populismo. Bannon sabe do que fala. Em 2016, foi um dos grandes responsáveis pela chegada do milionário à Casa Branca, contrariando sondagens e analistas.

A política mudou ao longo dos últimos dez anos. Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil, são os dois exemplos mais mediáticos, mas o crescimento de fenómenos populistas, fundamentalmente de extrema-direita, é verificável em diferentes pontos do globo. Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) tornou-se a terceira força política. Em França, a Frente Nacional está cada vez mais perto de alcançar o Eliseu. Em Itália, Matteo Salvini transformou-se na principal figura política. Na Suécia, os neonazis do Democratas Suecos atingiram a fasquia dos 18%. Em Espanha, o Vox já tem mais de meia centena de deputados e é o terceiro maior partido. Em Portugal, o Chega elegeu em Outubro o seu primeiro deputado.

O populismo alimenta-se de medos, ignorância e preconceitos, dispara contra um inimigo imaginado, extrapolando situações concretas e isoladas, alimentando ódios e divisões. Apresenta-se como a alternativa ao status quo e usa as novas plataformas de comunicação como forma de disseminar mensagens, à margem dos processos de intermediação oferecidos pelo jornalismo.

O mundo em alerta

Entre 2014 e 2016, o mundo viveu uma epidemia de Ébola. A doença surgiu na zona rural da Guiné Conacri, propagou-se para o resto do território e ultrapassou fronteiras, com a Organização Mundial de Saúde a declarar emergência internacional. Além da Guiné, foram registados casos de Ébola na Libéria, Serra Leoa, Itália, Mali, Nigéria, Senegal, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Os precários sistemas de saúde dos Estados africanos dificultaram a contenção da doença, mas só quando casos importados começaram a afectar os países ocidentais é que a comunidade internacional se mobilizou para encontrar uma solução, levando ao desenvolvimento de uma vacina, aprovada em 2019.

Estima-se que, em dois anos, o vírus tenha causado mais de 11 mil mortes.

A emergência climática

A preocupação com as alterações climáticas não é de hoje, mas foi nos últimos dez anos que a maioria da população começou a despertar para o problema.

Na certeza de que estamos perante uma mudança significativa e prolongada nos padrões meteorológicos, tornou-se urgente implementar medidas para reverter ou, pelo menos, mitigar os danos e as suas consequências para a vida no planeta.

Em 2015, na capital francesa, os líderes mundiais chegaram a um consenso, traduzido no Acordo de Paris. O sentimento era de euforia, com o documento a estabelecer um conjunto de metas, com foco na redução das emissões poluentes, mas os anos passaram, provando a fragilidade do entendimento.

Em 2017, os Estados Unidos anunciaram a sua retirada do Acordo. A decisão foi formalmente comunicada no último trimestre de 2019. A posição negacionista de Donald Trump, que lidera a maior economia mundial, acompanhada pela pouca convicção de outros líderes deixa antever o não cumprimento das balizas estabelecidas há quatro anos.

Do lado da sociedade civil, emergiram movimentos globais que reivindicam compromissos políticos sérios. Contestada por muitos, a jovem Greta Thunberg tornou-se símbolo de uma geração que parece ter encontrado na defesa do clima a sua causa maior.

Um sinal de esperança chegou, entretanto, da Europa. A nova presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, apresentou recentemente o Pacto Verde Europeu, com um plano de acção muito detalhado, para se alcançar a neutralidade carbónica até 2050. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 944 de 01 de Janeiro de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,4 jan 2020 8:53

Editado pormaria Fortes  em  1 jun 2020 23:21

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