A Covid-19 & a recuperação económica

PorJoão Chantre,8 jun 2020 8:14

O coronavírus aterrou nas ilhas em março 2020 e trouxe com ela a maior crise económica vivida no nosso país pós-independência. Uma crise mundial que requer soluções locais. No campo da segurança sanitária a vacina que não depende de nós é neste momento a nossa prioridade e o nosso comportamento perante o coronavírus é um teste da nossa resiliência como Nação.

Desta vez a crise económica coincide com uma crise mundial provocada pelo coronavírus. Em 2008 a crise financeira do subprime com origem nos Estados Unidos não teve tanto impacto nas nossas ilhas como esta nova crise. E de certo modo foi combatida com uma injecção de dinheiro barato na construção de infraestruturas importantes para o país através de empréstimos concessionais junto dos organismos internacionais e com período de reembolso de longo prazo. A factura acabou por chegar, a dívida pública disparou, mas os investimentos em infraestruturas ficaram e perdurarão por longos anos. Quatro Aeroportos Internacionais e muitos quilómetros de estradas construídas. Uma análise da eficácia e o custo-benefício desses investimentos ficam de fora de momento. Contudo, é importante referir que segundo a nossa convicção o país perdeu uma oportunidade de ouro de dar um grande salto qualitativo no desenvolvimento das ilhas, quando mentes burocráticas bloquearam iniciativas a nível do IDE (Investimento Directo Estrangeiro), sobretudo no ramo do turismo imobiliário e grandes investimentos em pipeline nessa altura, quando havia dinheiro barato e disponível no mundo. Consequentemente, o país ganhou de um lado, mas perdeu uma vaga de oportunidades.

A recuperação económica

Hão-de convir comigo que o tema exige muita reflexão, pois, o coronavírus chegou e a economia desabou. Ninguém esperava este terremoto económico quando o GPS indicava uma estrada estável de crescimento económico aproximando-se dos 6%, uma dívida pública em queda acentuada, o Investimento Directo Estrangeiro a um bom ritmo de crescimento, o turismo aproximando-se da barreira de 1 milhão de turistas por ano, o desemprego em queda livre e o bem-estar dos cabo-verdianos com tendência de melhorias. Mas de repente o país fechou-se perante o mundo, confinou-se e a produção aproximou do zero. A queda foi drástica e repentina e deu origem a um acontecimento raro na economia, conhecido como Cisne Negro. Significando um evento com fraca probabilidade de ocorrer. O país fechou-se e como todo o mundo encontra-se de portas trancadas. Um mundo fechado e turbulento, brigando paradoxalmente com a teoria da globalização. Será desta vez o adeus à globalização? Não creio! É muito cedo para uma previsão tão pessimista deste fenómeno, mas de momento a globalização encontra-se em stand-bye e o proteccionismo é no fundo um dado muito curioso desta crise. Apenas sabemos que continuamos mergulhado num oceano de incertezas.

A aviação civil

Reza a história que o desejo de voar como um pássaro por parte do homem, remota da pré-história. Reza ainda a história que a paternidade da aviação é revindicada entre o brasileiro Alberto Santos-Dumont (1906) e/ou os irmãos americanos Wright, Wilbur e Orville. E com todo o respeito pela história deixaremos este selo de confirmação aos historiadores. Chegado a este ponto, resta-nos apenas dizer ainda que o desenvolvimento da aviação civil teve o seu auge após a segunda guerra mundial, devido ao papel determinante da força aérea britânica no triunfo dos aliados. Assim sendo, presumimos que tenha ficado lavrado que jamais o mundo seria um mundo normal sem a presença do pássaro gigante nos céus deste planeta. Há três meses atrás bastava uma criança de sete anos sacar o telemóvel dos pais, accionar o flightradar e como sempre despoletava a filosofia infantil! Porque tantas formigas nos céus desde mundo sem tempo para descansar. A título de exemplo, “Os movimentos de sobrevoos na FIR Oceânica do Sal, em 2019, totalizaram 58.345 movimentos” (dados do Boletim Estatístico da ASA). A galinha dos ovos de ouro da ASA.

E de repente tudo parou, e as aeronaves tidas como caríssimos e belíssimos pássaros gigantes estão desfilando nas grandes pistas compactadas e nos gigantescos e luxuosos aeroportos deste planeta, acumulando prejuízos avultados jamais imaginados numa indústria complexa, cara e luxuosa. A IATA acaba de atualizar as previsões e avançou que possivelmente até o fim do ano de 2020 os prejuízos acumulados pelas perdas nas vendas das companhias aéreas poderão atingir valores astronómicos, qualquer coisa como 290 bilhões de USD! Um absurdo! Um autêntico tsunami económico e financeiro mundial. E de repente parte da nossa factura chegou. O nosso pássaro nascido em 1958, regionalizado em 1976 (com voos para Dakar) internacionalizado em 1996, com a chegada do primeiro B757-200 (tida como a primeira revolução da aviação em Cabo Verde) gerida há cerca 20 anos por pseudo-gestores está no chão, com necessidade de energia, criatividade e músculo financeiro. Para quem conhece a indústria e o país, a nossa companhia aérea nacional representa um Estado dentro do Estado (como o Vaticano dentro da Itália) …Apesar de a Convid-19 ter acelerado o processo de aterragem forçada, somos todos culpados por este flagelo aéreo e financeiro que assolou o país. Onde não há cultura empresarial e respeito para uma indústria global, complexa, luxuosa e cara, não haverá prosperidade. Onde não há respeito a nível comportamental pelo coronavírus, a progressão do vírus é exponencial… “How culture influence the Managment”! Reerguer a nossa companhia nacional, exige know how, coragem, energia, criatividade, músculo financeiro e um grande sacrifício dos cabo-verdianos cabendo a nós definirmos o futuro da mesma. Agora, uma coisa é certa: a história repete-se e está confirmada que a estrada do mar é a mais antiga e a mais segura do que as autoestradas do ar. Somos ilhas e necessitamos de pelo menos uma estrada de ligação das ilhas confinadas no meio do Atlântico. A menos que queiramos ilhas separadas e autónomas e com portas trancadas. Já basta o confinamento para testar a capacidade de resiliência de cada uma delas.

O turismo

O desenvolvimento da aviação acelerou a indústria turística, mas seria injusto não reconhecer a visão e o papel da Thomas Cook na criação do turismo moderno (1841). Num mundo globalizado, o turismo trouxe desenvolvimento equilibrado aos vários cantos do planeta. Com todos as virtudes e defeitos, a indústria do turismo expandiu-se e o mundo tem partilhado o bolo do turismo, em termos financeiros e de emprego. Com apenas uma diferença: uns mais inteligentes do que outros consoante as estratégias e as políticas definidas pelos países. Devendo sempre recordar que o turismo é transversal e diversificado. Existem centenas de segmentos de turismo no mundo e milhões de produtos. O mundo encontrava-se numa velocidade acelerada de viagens. Em 2018 cerca de 150 milhões de chineses viajaram com gastos em média, acima de 7000 USD por pessoa. Enquanto os chineses têm como destino sobretudo a Europa, os Estados Unidos, o Canada e a Austrália, o nosso mercado emissor sempre foi a União Europeia, com destaque para os ingleses, portugueses, franceses, alemães, italianos e a diáspora cabo-verdiana (segmento de alto valor acrescentado para o ecossistema turístico das ilhas, mas preconceituosamente mal-enquadrado).

Construímos esse mercado em 30 anos, perdemo-lo em um click. Foram 500 mil turistas evaporados em um mês, com consequências económicas desastrosas para as receitas das famílias, das empresas e do Estado, e com muitos jovens em risco de perder os seus empregos. Um autêntico furacão social e financeiro. O turismo que antes da crise tinha um peso de cerca de 23% no PIB nacional, produzindo uma receita milagrosa importante, evaporou-se em poucos dias. Tanto quanto sabemos ainda tudo é incerto, e o reerguer exige uma visão do turismo com muita criatividade, com muito trabalho e um futuro selo de segurança sanitária tal como sempre existiu na Ilha das Montanhas, natural, atractivo e espontâneo. É hora de sacrifícios. É momento para os visionários. O futuro a nós pertence.

Em suma, estamos a viver uma recessão económica. Um ínfimo micróbio humilhou e confinou o mundo. Com as aeronaves no chão, o turismo evaporado, o emprego convertido em desemprego e o capital em escassez, os próximos tempos não serão fáceis. Contudo, devemos sempre acreditar na filosofia económica, “small is beautifull”, e tentar inverter a tendência, porque novas oportunidades batem-nos à porta. Estamos no meio do Atlântico rodeado de mar, inundados de sol e vento, cobertos de ar puro, riquezas incomensuráveis. Mas é preciso que os fazedores das leis que normalmente complicam, descomplicam e sejamos menos burocratas e mais eficientes. Open mind: equacionar, decidir e descomplicar. It´s time. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 966 de 03 de Junho de 2020. 

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Autoria:João Chantre,8 jun 2020 8:14

Editado porSara Almeida  em  3 ago 2020 23:21

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