As Epidemias na História de Cabo Verde A epidemia de cólera-mórbus na Ilha de São Vicente (Agosto de 1856)

PorJosé Silva Évora,10 ago 2020 7:44

Pouco tempo depois da ilha do Fogo ter passado por uma desastrosa epidemia de cólera-mórbus, que vitimou grande parte da sua população, em 1856, foi a vez da ilha de São Vicente passar por semelhante vicissitude.

Com efeito, no dia 23 de Agosto desse ano, São Vicente foi atacada pela cólera mórbus, numa altura em que, à semelhança das outras ilhas do arquipélago, também ela defrontava com o flagelo da fome, tão frequente no século XIX cabo-verdiano.

“(…) Augmentava a crise de fome em todas as ilhas d´este archipelago quando inesperadamente se desenvolveu a cholera mórbus nas ilhas de Sam Vicente, Santo Antão, Sam Nicolau e por ultimo n´esta de Sam Thiago(…).”1

Ao que tudo indica, a moléstia entrou no Porto Grande de São Vicente, através dos navios que ali aportaram, provenientes do exterior. Rio de Janeiro, Lisboa, Ilha da Madeira, são apontados como potenciais portos a partir de onde veio a epidemia. Independentemente de qual deles, a verdade é que a epidemia entrou na ilha de São Vicente “por um barco que escalou o Porto Grande, em Agosto de 1856.”2

Recorda-se que, na década de cinquenta de oitocentos, São Vicente estava ainda a dar passos, no sentido de incremento do seu processo de povoamento, que, no contexto de Cabo Verde, foi bastante tardio.3

Assim, na altura em que foi assolada pela doença, a ilha contava com cerca de 1400 habitantes,4 dos quais 645 morreram, logo no “primeiro mês da epidemia.”5 Esta, não poupou nem mesmo os mais abastados da ilha, dos quais o próprio delegado de Saúde, Dr. Henrique Leopoldo Lopes Guibarra, que faleceu no dia 31 de Agosto, ficando a ilha sem um dos principais responsáveis pela gestão da crise sanitária.

É o que podemos verificar nos dados publicados no boletim oficial do Governo-geral de Cabo Verde, datado de 14 de Novembro de 1856, que enumera as pessoas mais notáveis, vítimas da cólera-mórbus.

Joaquim Ozorio de Amorim Correia - Capitão, Commandante militar.

Henrique Leopoldo Lopes Guibarra – Cirurgião-mor, Delegado de Saúde.

Joaquim José Boaventura Alves – Architeto da Província.

Marcellino António da Fonseca – Tenente, addido da 4ª Bateria.

António Manoel Fernandes Chaves- Juiz Ordinário.

Eduardo Christiano Zaluar - Substituto do Juiz Ordinário.

Theophilo José de Brito – Juiz de Paz.

Manoel José Silva – Substituto do Administrador do Concelho.

João José dos Santos – Tabelião de Notas.

D. Gertrudes Rendall.

José Paulo Machado – Major, e sua mulher, D. Josepha Cordeiro Machado.

Aniceto António Martins.

Luís F. Slade - representante da Casa Vesger & Gorge Miller.

António Joaquim Martins, comandante civil e militar da ilha e São Vicente.6

Nota-se que, também alguns elementos de uma comissão de socorros criada na ilha, para ajudar a mitigar os efeitos da fome e outras calamidades, acabaram por serem vitimadas pela epidemia. Foi o caso do comandante militar, Joaquim Ozorio de Amorim Correia, presidente da comissão.

Francisco Travassos Valdez,7 que visitou a ilha de São Vicente por altura dessa epidemia, afirmou que “a maior parte das casas estavam fechadas por terem morrido os moradores, ou se haverem retirado por alguma parte mais saudável da ilha.”8

Ao que tudo indica, em pouco menos de três meses, a epidemia foi controlada. É o que podemos constatar a partir de um ofício do Ministério da Marinha e Ultramar, no qual o governo da Província de Cabo Verde, agradece o apoio oferecido pelo governo inglês, aos habitantes da ilha de São Vicente durante a epidemia.

“Tenho a honra de comunicar a V. Excia que foram recebidos os objectos constantes da guia, por copia acompanhada deste ofício, os quaes foram generosamente oferecidos pelo Governo de Sua Majestade Britânica, para os habitantes da ilha de São Vicente e V. Exia, para socorrer os habitantes d´esta ilha, que se achava flagelada pela cólera e pela fome, me remeteu por via do comandante militar d´essa ilha em 9 de novembro de 1856 (…) Os socorros por V. Sª mandados serviram de muito no tratamento da cólera, tendo porém ficado intactos a maior parte d´elles depois de acabada a epidemia, entendi que não podia fazer melhor, para que eles aproveitassem aos enfermos indigentes, de que entrega-los à Santa Casa da Misericórdia(…).”9

Isto numa altura em que alguns vereadores da Câmara Municipal da Praia questionavam, junto às autoridades competentes, a viabilidade do Lazareto no Ilhéu de Santa Maria, nessa vila, para acolher navios em quarentena, sugerindo a hipótese da construção de um lazareto na deserta ilha de Santa Luzia.

“( …) este estabelecimento no porto mais commercial do archipelago e tão próximo da principal povoação d´uma ilha que já tem a infelicidade de ser tida como muito insalubre é um mal pelo iminente perigo da introdução de qualquer epidemia(…) Deve-se, para este fim, preferir a Ilha de Santa Luzia que sendo quase deshabitada, tem dous portos e agoa e é a mais próxima da ilha de Sam Vicente e das de Sam Nicolau e Santo Antão que a podem abastecer de viveres, (…).”10

Recorde-se que São Vicente viria a passar por outras epidemias de cólera, nomeadamente nos anos de 1893, 1974 e 1995.

À semelhança dessas, a epidemia de 1856, acabou por chegar no sudoeste da ilha de Santo Antão, a partir de onde se alastrou para as outras regiões da ilha das montanhas.

_______________________________________________________________

Notas

1.ANCV-Actas das sessões. Câmara Municipal da Praia (1856-1860). Sessão extraordinária de 16 de setembro de 1857. Fls. 66 f/v.

2. Matos, Mário (2000). Mindelo e a Cólera-Morbo; In Contos & Factos, Mindelo: ed. do autor, p. 81.

3. A primeira tentativa organizada de povoamento de São Vicente aconteceu só por volta de 1781, e, segunda consta, nada resultou. Anos mais tarde, 1795, João Carlos da Fonseca Rosado, então administrador da Companhia do Grão Para e Maranhão, residente na ilha do Fogo, ofereceu-se para povoar a ilha, mediante a concessão de determinados privilégios, tentativa essa que também não teve os resultados esperados. Foi preciso esperar pela década de trinta do século XIX, para que o processo de povoamento da ilha se incrementasse, graças à existência e às condições oferecidas pelo Porto Grande, numa altura em que o navio a vapor tinha revolucionado o sistema de transporte e entrado nos mares do mundo.

4. Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo (1984), Praia: Edição do Fundo de Desenvolvimento Nacional- Ministério da Economia e das Finanças, p. 20.

5. Valdez, Francisco Travassos (1864). África Occidental: Notícias e Considerações, Vol. I, Lisboa: Ministério da Marinha e do Ultramar,p. 107.

6. Boletim Oficial do Governo-geral de Cabo Verde, nº 200, 1856, 14 de novembro, p. 921.

7. Explorador português que, no século XIX, viajou pelo continente africano. Foi árbitro das comissões mistas luso-britânicas de Angola e do Cabo da Boa Esperança; Secretário da Comissão Especial da colonização e Trabalho Indígena nas Províncias Ultramarinas; Secretário do Governo da Província de Timor.

8. Valdez, Francisco Travassos (1864). Op. cit, p. 21.

9. Officio nº 272, ao Cônsul inglês Thomaz Miller; In Boletim Oficial do Governo-geral de Cabo Verde, nº 16, de 16 de outubro de 1857. Parte oficial, Ministério da Marinha e Ultramar.

10. ANCV- Actas das sessões. Câmara Municipal da Praia (1856-1860). Sessão extraordinária de 4 de novembro de 1857. Fls. 74 v.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020. 

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Autoria:José Silva Évora,10 ago 2020 7:44

Editado porSara Almeida  em  22 set 2020 23:20

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