Coronavírus e o impacto no turismo : Além das medidas imediatas é importante programar o futuro.

PorJorge Montezinho,29 mar 2020 10:31

A crise não só é irreversível como já está sentada no camarote a assistir à derrocada do edifício económico. Com as pessoas impossibilitadas de viajar, o turismo é um dos sectores que mais está a apanhar os efeitos adversos. Victor Fidalgo, consultor especialista na área do turismo, diz ao Expresso das Ilhas que o sector, em Cabo Verde, “está morto”. Pelo menos até Outubro. Mas, mais do que chorar pelos danos, avisa, convém começar já a pensar o pós-crise.

“No relançamento turístico que vai ter lugar, não podemos reaparecer apenas com Sal e Boavista”, explica Victor Fidalgo ao Expresso das Ilhas, “só traremos novidades ao mercado, se pelo menos São Vicente e quiçá Santo Antão e Fogo, também entrarem no mercado. Devemos aproveitar este momento de pausa forçada para incitar, ou melhor viabilizar alguns investimentos estruturantes primeiro em São Vicente e depois em Santo Antão e Fogo, com uma grande vantagem: estancamos a desertificação humana que se vem verificando nestas ilhas e o consequente sufoco das ilhas do Sal e Boavista. Este fenómeno inclusive iria beneficiar os trabalhadores já estabelecidos nas ilhas do Sal e Boavista, porque diminuiria a pressão da procura de novos empregos, podendo aumentar os correspondentes salários”.

O turismo é o sector mais afectado pelos efeitos da crise do Coronavírus. Se o primeiro alerta foi dado pela descida dos turistas chineses, os que mais gastam, a expansão da pandemia acabou por pôr em cheque todo o sector mundial. O Conselho Mundial do Turismo (WTTC, na sigla em inglês) já disse que a quebra global pode chegar aos 25% e que estão em risco 50 milhões de empregos em todo o mundo.

Na economia do século 21, há uma indústria que concentra riqueza e outra que a distribui. A primeira é a de Tecnologia da Informação, sector em que estão as cinco empresas com o maior valor de mercado no mundo hoje. Apple, Amazon, Microsoft, Alphabet (que controla o Google) e Facebook valem juntas 5 triliões de dólares, uma concentração inédita na história do capitalismo. A indústria que distribui o rendimento é mais fragmentada. Trata-se do turismo, que promove um constante fluxo de pessoas pelo globo e gera oportunidades de negócio tanto para grandes conglomerados (companhias aéreas, redes hoteleiras, empresas de cruzeiros) quanto para pequenos empreendimentos, sejam agências de viagem locais, pousadas, restaurantes ou guias turísticos.

Segundo uma pesquisa anual do Conselho Mundial de Turismo, em parceria com a Oxford Economics, o sector de turismo foi responsável, em 2018, por 10,4% de toda a actividade económica do planeta, gerando 319 milhões de novos empregos (um em cada cinco dos que foram criados desde 2014). O valor total movimentado por essa indústria é calculado em 8,8 triliões de dólares por ano. Se fosse um país, o turismo só ficaria atrás dos Estados Unidos e da China.

Esta previsão, de perda de 25% do volume do turismo, diz Victor Fidalgo, estaria nos limites do aceitável para Cabo Verde, visto que o grosso do fluxo turístico acontece entre Novembro e Abril, ou seja, aparentemente poder-se-ia dizer que o país perderia apenas 1,5 mês da época alta. Mas, avisa o consultor, essas contas são ilusórias. “O pagamento aos hotéis é feito com um atraso de 60 dias em média, o que aumenta o risco dos hotéis de Cabo Verde perderem 4 meses de receitas, dos quais 2,5 já fizeram despesas (crédito perdido) que não receberão dos clientes e 1,5 por suspensão da operação na época alta. Ademais, numa circunstância dessas, a retoma nunca é imediata. Portanto, além do impacto na tesouraria das empresas turísticas ao abarcar receitas de Janeiro a Abril, devemos esperar que só a partir de Outubro/Novembro, iremos sentir os sinais da retoma”.

Aliás, a Fitch já alertou que menos turistas é dos maiores impactos do coronavírus para Cabo Verde: “Uma forte contracção no turismo devido ao impacto do coronavírus vai restringir o crescimento económico e diminuir os lucros em moeda estrangeira para muitas economias”, lê-se num relatório sobre o efeito do surto nos países do Médio Oriente e África, publicado na semana passada.

“A severidade do impacto do vírus nos padrões de viagens vai depender da duração da epidemia, cujos efeitos adversos vão aumentar se as perturbações durarem até meio do ano”, acrescentam os analistas.

A Standard & Poor’s já fez as contas, e acrescentou que a quebra no crescimento do PIB de Cabo Verde para este ano pode ir de 2,73 pontos percentuais do PIB, caso o turismo abrande 11%, até uma queda de 6,71 pontos se o fluxo de turistas cair 27%.

Segundo a agência de notação financeira, a economia de Cabo Verde deverá registar um abrandamento do crescimento económico este ano, que pode mesmo ser negativo em caso de quebra mais acentuada no turismo.

Vários especialistas já apontaram que a recuperação do sector do turismo, face a uma qualquer anormalidade como uma pandemia, varia entre 19,4 meses e 10 meses, e é mais rápida quanto mais acertadas forem as medidas políticas para o sector.

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Segundo Victor Fidalgo, “a recuperação irá depender da sobrevivência dos actuais actores no mercado pelo que é fundamental o Governo permitir às empresas ferramentas que assegurem a sua tesouraria durante este período de crise, quer pelo apoio das instituições financeiras, quer pela mitigação dos custos de paragem da actividade, nomeadamente no que se refere aos custos associados ao trabalho (INPS, Impostos, etc.)”.

Por outro lado, acrescenta, “a questão da rapidez da recuperação dependerá muito da competitividade e do custo do destino no mercado. Assim, é importante o apoio do Governo na preservação da competitividade do país. Existem condições para isso. Infelizmente, os esforços e a boa vontade do Vice-Primeiro Ministro e do Ministro do Turismo não chegam. A estrutura actual do governo permite outros sectores, muitas vezes sem conhecimento ou competência técnica na matéria, intervir como força de bloqueio porque uma determinada Lei (mal concebida) lhes dá poderes nefastos. Uma recentragem de todos os poderes de decisão em matéria do turismo, apenas no respectivo Ministério, impõe-se com urgência”.

A economia cabo-verdiana é altamente integrada na economia mundial, mas essa integração é desigual, porque representa uma grande dependência do arquipélago em todos os aspectos. Além do pouco que exporta, o país importa cerca de 89% do que consume. “O sector do aprovisionamento é crucial para a nossa própria sobrevivência”, sublinha Victor Fidalgo. “Satisfaz-nos dizer que o Ministério do Comércio vem agindo muito bem no sentido de evitar qualquer ruptura de stocks. Entre as importações e o consumo, a ponte é assegurada, em grande parte, pelas pequenas e médias empresas. Embora o Governo já tenha um programa consistente e pró-activo para as PME’s uma revisão de alguns aspectos poderá ser necessária, a fim de evitar o colapso dessa importante ponte ou meio de circulação de bens e serviços na nossa economia. O problema que se põe é que os próprios mecanismos de circulação/distribuição de bens e serviços são perturbados pela pandemia que limita e muito, a circulação de pessoas”.

Crucial, segundo o consultor, é que o governo não deixe empresas em insolvência, falirem ou demitirem trabalhadores. “A demissão em massa dos trabalhadores teria consequências desastrosas. Do ponto de vista económico, destruiria um dos pilares da nossa economia que são os trabalhadores. O capital não funciona sem o trabalho. Isso dificultaria ainda muito mais a retoma, após a pandemia. Do ponto de vista social, estando as pessoas desempregadas e sem meio de sustento, a convulsão social é um risco elevadíssimo. Deve-se tudo fazer para (mesmo alterando a Lei, em regime de urgência) impedir o despedimento massivo e em contrapartida, subsidiando as empresas na manutenção de uma parte dos salários dos seus empregados. Ou seja, prolongar o período de “lay-off”, enquanto durar a crise e assumir de forma partilhada os custos da manutenção da mão-de-obra e da preservação da paz social”.

Certo é que a crise económica vai afectar o PIB, o emprego e o consumo das famílias, mas o choque vai atingir as famílias de forma desigual. Numa economia como a cabo-verdiana, onde mais de 40% trabalham na informalidade, uma das questões fundamentais é como se vai garantir o rendimento dessas pessoas.

“Havendo uma ruptura mesmo que parcial no funcionamento da rede de produção e circulação, no sector informal, naturalmente que as pessoas ficam sem meios de sobrevivência. Um programa urgente de apoio social para mitigar os efeitos deve estar a ser analisado para imediata implementação”, sublinha Victor Fidalgo.

Em resumo, os efeitos do coronavírus na economia cabo-verdiana serão enormes e nefastos, arriscando pôr em causa não só o processo de retoma que se vem verificando desde 2016, mas também muitas aquisições feitas no período anterior.

“Não podemos reduzir a nossa visão apenas ao turismo”, afirma Fidalgo. “A pesca, a agricultura, as poucas indústrias, e particularmente o sector de distribuição e circulação de pessoas e bens fica bloqueado durante esta fase. Cabo Verde, contrariamente a muitos países que bem ou mal têm uma certa base de produção que possa dar pelo menos para a sobrevivência, não tem isso. Por isso, um programa urgente de mitigação dos efeitos da crise do coronavírus a ser apresentado aos principais parceiros, nomeadamente do GAO, assim como uma dinâmica diferente na mobilização de investimentos, diversificando a geografia interna do seu destino, devem ser as prioridades”.

“Contra o vírus, ele mesmo, só devemos seguir e respeitar escrupulosamente as orientações do Ministério da Saúde que vem monitorizando o processo com muita mestria e equilíbrio”, conclui o consultor.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 25 de Março de 2020. 

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Autoria:Jorge Montezinho,29 mar 2020 10:31

Editado porJorge Montezinho  em  7 jul 2020 23:20

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