Tempos de incertezas e reflexão

Nestes tempos estranhos de reflexão, dirijo estas linhas principalmente aos estudantes universitários de quem tenho saudades e dedico-as a algumas pessoas que me demonstraram amizade durante a vida e devo a eles, em parte, o que sou: meu pai José A. Leitão da Graça e o Prof. Fernando Mourão. E ainda, à minha mãe Tchutcha, a resistente.

1. Da identidade

Das lavas vulcânicas surgem depois os homens: uns maus, outros bons. Do caldeamento de cores diferentes tiveram depois que enfrentar o agreste saheliano que se instalou por séculos nas ilhas atlânticas, segundo a profecia trágica de um descendente de Griot da ilha de Santiago. Entretanto, de Homem humilde e trabalhador, lá se foi sobrevivendo com a ajuda da sua geografia no mapa Mundo, passando por episódios de dor e sofrimento que tiveram início na escravatura, seguindo com a emigração quer para o oeste, o outro lado do Atlântico primeiro, depois para o Sul (continente africano) e no pós-Guerra para o norte europeu. As três correntes migratórias – quase todas com efeito boomerang - marcaram sobremaneira a identidade crioula, sobretudo de há cem anos a esta data.

A identidade “americana”, iniciada com os marinheiros bravenses na pesca da baleia, para a costa oriental da América, sendo os pioneiros nessa aventura diaspórica mas que por razões de distância e falta de ligação marítima foram perdendo paulatinamente os vínculos sem, no entanto, perder a “essência” identitária – que normalmente é transmitido em casa, de pais para filhos. Hoje, graças a essa perseverança, essa “teimosia identitária”, com as ligações aéreas e as novas tecnologias, temos a retoma dos fluxos sazonais e permanentes (de acordo, é certo, com o quadro legal norte-americano). Temos também uma corrente menos expressiva, no início do século XX, para Brasil, Argentina e Uruguai.

A identidade “africana” continental, é sentida principalmente nas partidas para os vizinhos Guiné-Bissau (também parte do império colonial português) e Senegal; para São Tomé e Príncipe e Angola. E de forma residual em Moçambique e Cote d’Ivoire. Pelas semelhanças (reminiscências identitárias?) pode-se dizer que nessas paragens, o processo integrativo foi das mais facilitadas pelos autóctones não obstante alguns percalços relacionais, políticos e sócio-economicos.

Por fim, a identidade “europeia” (Portugal, França, Itália, Holanda, principalmente) e sua influência é evidente nas principais ilhas pelos contributos financeiros, pelas presenças frequentes dos emigrantes no torrão natal sobretudo nas festividades religiosas e pagãs e ainda nas modas, projetos de vida, etc. Tem sido assim desde a independência a esta parte. Todavia, de notar que muitas vezes a integração, no sentido de plena realização, é dificultada devido a certos preconceitos que ainda subsistem nalgumas dessas sociedades.

2. Da sociedade

Pode-se dizer que foi a partir da última década do século passado que o “elevador social” foi “instalado” em Cabo Verde. Antes, havia algumas poucas famílias mais abastadas, ligadas à terra e ao comércio, mas é consensual (creio eu) que foi com a abertura económica dos anos noventa, com maior participação do capital da nossa diáspora, com mais ajudas e empréstimos, é que se produziu mais riqueza e o aumento do PIB per capita.

O surgimento de um Estado laico (estilo revolucionário da época) embora sob um fundo enraizado de ideologia cristã, tornou cedo a sociedade cabo-verdiana mais igualitária em termos de oportunidades de género (educação e emprego, legalização do aborto, etc.), sem que, no entanto, tenha sido feito um trabalho pedagógico e correcional no sentido de se evitar o agravamento de violência contra as mulheres, por exemplo. Ou de maior responsabilidade “paternal”.

Com o surgimento dos “novos ricos” a partir da década de noventa, através de negócios de terrenos municipais, de privatizações e influência estrangeira, de negociatas e traficâncias, certos valores morais que eram caros à geração antecessora começam a ser colocados em causa, por um lado, e por outro, o “período hedonista” das discotecas, alcoolismo juvenil, drogas e prostituição, entra naturalmente no país tudo em nome de mais liberdade e em defesa dos Direitos Humanos, agravado ainda com a criminalidade “importada” pelos repatriados dos Estados Unidos e Europa, muitos deles tendo cumprido penas altas de homicídio e tráfico de drogas.

Mas o certo é que se constituiu hoje uma percentagem significativa de cidadãos com algum poder de compra, a que se pode classificar de “classe média”, com ou sem ligação ao poder. Tal é sobretudo produto de uma atitude de sobrevivência e muito trabalho de uma nova geração razoavelmente bem formada que acompanha as novas oportunidades locais em termos de formação académica e iniciativas profissionais. Assim espero.

3. Da Política Externa

Num contexto global de “avaria” financeira devido à crise pandémica, joga-se cartadas importantes na geopolítica africana nos últimos tempos, em que vemos a China entrar com mais força no continente africano pela via de um Smart power, combinando o Soft power (comércio, vacinas, tecnologias, melhores ofertas financeiras com reflexos no financiamento de infraestruturas, educação, desporto, etc.), com agora, o Hard power (segurança, armamento, formação militar, etc.). Basta ver o interesse da diplomacia chinesa (ministro dos negócios estrangeiros Wang Yi) em visitar, nos últimos anos, muitos países africanos e assinar-se acordos em somas avultados (cerca de 6 biliões de USD por Conferência, FOCAC). O primeiro produtor industrial do mundo teve um crescimento de 8% em 2021 (melhor marca do ano) mas com risco de forte contração neste e nos próximos anos. Enquanto isso, temos a Rússia à procura de uma nova “arquitetura” da Europa.

Ainda a nível global e securitário, as ameaças difusas que advêm do uso crescente de internet e de relações virtuais, provocam o medo e a instabilidade em qualquer sociedade, mesmo àquelas que “se portam bem” no plano interno e externo.

A posição geográfica de Cabo Verde no Atlântico, coloca-o inevitavelmente adentro das esferas de segurança norte-americana e europeia. Portanto, assumindo uma identidade “Afro-Ocidental”, de acordo também com uma parte significativa da sua identidade cultural (educação, manifestações e representações, religião, etc.), poderá sem complexos assumir outras identidades e, diversificar as suas relações no plano internacional. Muitos países (em particular a R. P. da China) entram neste grupo de parceiros internacionais privilegiados, assim como Brasil, Índia, Japão, Rússia e outros países do leste europeu, Cuba, Israel, países árabes, etc.

No contexto africano – de que faz parte – goza de um bom reconhecimento por estar na vanguarda da democracia, pelo fraco nível de corrupção e credibilidade externa. Despido de riquezas minerais com alta cotação no mercado internacional, tem conseguido (até a pandemia pelo menos) um crescimento económico moderado, muito graças ao investimento estrangeiro em grandes unidades turísticas com impacto no emprego e na arrecadação fiscal.

A nível sub-regional, constrói uma aproximação (há muito encetada) à maior instituição de integração regional (a CEDEAO), abrindo uma embaixada na capital nigeriana (Abuja), num momento conturbado a nível securitário e político (guerra ao terrorismo e ao grupo Boko Haram na zona do Sahel, ainda golpes de Estado no Mali e na Guiné-Conacry), em que as atenções estarão viradas para a segurança, paz e diplomacia. Tais prioridades, ao lado da redução do apoio externo, levaram certamente à reforma institucional na organização (CEDEAO), no sentido de maior racionalização. Ora, aqui entra as contribuições dos Estados Membros e a sua força nas decisões a nível sub-regional. Embora a tendência atual seja de maior atenção na economia e na vacinação, parece-nos importante dar a devida atenção aos aspetos políticos. E neste campo, há-que ter em conta uma mudança geracional ávida pelo comando, com novas propostas e interesses. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1052 de 26 de Janeiro de 2022. 

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Autoria:Camilo Querido Leitão da Graça,31 jan 2022 7:55

Editado porAndre Amaral  em  29 jun 2022 23:28

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