Levar o entusiamo do desporto para outros desafios

PorA Direcção,2 fev 2024 7:49

A euforia à volta das duas provas desportivas internacionais tem sido dominante em Cabo Verde durante as últimas semanas. Sucessivas vitórias das equipas cabo-verdianas no CAN de futebol e no CAN de andebol têm galvanizado a nação especialmente por acontecerem contra equipas experimentadas e com projecção internacional. A passagem vitoriosa para os quartos de final do CAN de futebol levou o entusiasmo de todos ao rubro.

É palpável o orgulho das pessoas de todas as idades pelas grandes prestações dos atletas nacionais tanto numa modalidade como noutra. Também é visível a satisfação geral pela demonstração de unidade nacional que esses momentos gloriosos proporcionam. Curiosa é a observação e quase lamento que esse sentimento convergente da vontade nacional não se manifeste também em outras causas e situações.

O facto de Cabo Verde parecer elevar-se em competições desportivas muito acima do que seria expectável, considerando a sua pequena população e fracos recursos para investimentos no sector, levanta em muitos a questão por que é que o mesmo não acontece noutros domínios. Seria desejável que houvesse o mesmo foco, a mesma energia e a mesma convergência de vontades no enfrentar dos extraordinários desafios que se colocam ao país. Desafios, por exemplo, nas áreas da educação, saúde, segurança que são essenciais para o desenvolvimento do capital humano e para a projecção de uma melhor imagem do país claramente que podiam beneficiar de uma mudança de atitude.

Para alguns a falha em reproduzir a unidade que se vê no apoio às provas desportivas no exterior está na polarização política que divide o país, bloqueia a cooperação entre as pessoas e desincentiva a participação na vida pública e a solidariedade nas comunidades. Implícita está a ideia que unidade de vontade só se materializa no confronto com o outro, exterior à comunidade, ao gerar ondas que não poucas vezes tomam forma de fervor nacionalista ou de afirmação identitária. Não se vê que essa forma de criar unidade nacional tende a engendrar extremismos violentos e quando define um regime político limita a liberdade, fomenta a intolerância e força o conformismo na sociedade e nas pessoas. E que no domínio económico e social gera ineficiências várias, desperdiça oportunidades e restringe a possibilidade de criatividade e inovação. Nostalgia em relação a isso não devia existir num Cabo Verde ainda com a memória clara dos primeiros quinze anos pós-independência.

De facto, a unidade que tendencialmente é mais perene e mais profícua é aquela que resulta da liberdade e do pluralismo, da igualdade, diversidade e inclusão. Pode na sua dinâmica interna aparentar caos e ineficiência, mas porque tem como base a iniciativa, a motivação e a criatividade é potencialmente superior em conseguir resultados. Perante diferentes desafios revela-se também adaptativa e capaz de rever estratégias e ainda de inovar. Muitas dessas características notam-se nas grandes equipas desportivas. São exemplo de como protagonismos e talento pessoal, imersos numa cultura de base meritocrática e de cumprimento de regras e tendo como chapéu o espírito de grupo traduzido no amor pela camisola, podem conseguir resultados fantásticos.

Transpor para outros sectores da vida política, económica e social esse ethos que permite competir e aglutinar, que força regras e vive da iniciativa e que inova e não exclui, nunca foi tarefa fácil. Nem se sabe se será realmente possível considerando a complexidade das relações humanas e das relações entre as nações particularmente em tempos de globalização. A verdade, porém, é que o sucesso no processo de desenvolvimento a vários níveis foi primariamente para os que conseguiram aproximar-se desse ideal. E fizeram isso com sistemas políticos estáveis e funcionais, estrutura produtiva criadora de riqueza e empregos, organização social marcada pela expressão plena de individualidade e participação livre e criativa, uma academia pujante fervilhando com ideias e inovações e um ambiente cultural aberto a novas formas de expressão e o aprimoramento de outras.

Nos países que optaram pela autocracia, pelo nacionalismo identitário e por regimes quase teocráticos não se deixa de notar casos de crescimento económico rápido por algum tempo. Não dão a garantia de ter o nível de resiliência que as democracias historicamente já demonstraram enfrentando situações de guerra e crises de vários tipos designadamente energéticas, financeiras e de saúde pública. Em outros países o informalismo excessivo da economia, a incapacidade de modernizar a agricultura e de se industrializar acompanhado de uma postura das elites em apoderar-se dos recursos do país, incluindo uma parte considerável da ajuda externa, confinam a grande maioria da população à pobreza e à exclusão social. Aí o recurso ao discurso da vitimização, o tentar definir-se contra os outros num esforço de criar consciência nacional e forjar nações mantem frágeis as instituições democráticas e alimenta o ressentimento e a inveja na luta que todos são compelidos a travar na corrida aos escassos recursos.

Com isso, continua-se a escavar mais o proverbial buraco onde se se encontra no momento, tornando cada vez mais difícil resolver o problema do desenvolvimento. Na sequência, pode vir a desesperança que torna tudo ainda mais complicado porque perde-se confiança nas instituições, o civismo é menor, a solidariedade torna-se escassa e a criminalidade aumenta. Não cair nesse círculo vicioso é essencial e para evitar isso deve-se socorrer de tudo o que pode mostrar que é possível ir além das expectativas e ter sucesso onde com os recursos existentes era improvável. Recuperar um optimismo realista expresso na ideia que, fazendo o investimento no ponto certo, abrindo caminho para uma maior cooperação das pessoas e instituições e deixando espaço para os talentos se revelarem num trabalho de equipa, é possível atingir o inimaginável.

Provas desportivas particularmente enfrentando adversários internacionais servem bem para isso. Conseguem concentrar a atenção e o entusiamo de todos na preparação das partidas e cada vitória pode ser tida como confirmação de que com esforço, talento e espírito de equipa se pode ir longe. É uma lição que deve ser transportada para outros sectores da vida nacional para inverter alguma desesperança que poderá estar a implantar-se na população em particular na juventude. Para isso, é importante que as vitórias, os feitos dos atletas e o reconhecimento internacional não sejam alvo de mais um acto de apropriação dos políticos ávidos de protagonismo e de visibilidade. Pelo contrário, sejam tomados como mais um forte incentivo para a nação, no seu todo, livre, diverso e plural, realizar o seu potencial e estar à altura dos desafios colocados pela construção do presente e do futuro do país. 

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1157 de 31 de Janeiro de 2024.

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Autoria:A Direcção,2 fev 2024 7:49

Editado porClaudia Sofia Mota  em  22 abr 2024 23:28

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