Liberdade, Palavra e Futuro: datas que nos obrigam a pensar

PorManuel Brito-Semedo,12 jan 2026 9:14

Em 2026, Cabo Verde assinalará 35 anos de Liberdade e Democracia, marco decisivo da consolidação do Estado de Direito democrático, e 90 anos da Revista Claridade, acto fundador da modernidade literária cabo-verdiana. Em 2027, evocaremos duas datas centrais do nosso património cultural e intelectual: os 120 anos do nascimento de Baltasar Lopes da Silva e os 80 anos da publicação do romance Chiquinho, obra maior da literatura cabo-verdiana.

Não se trata de alinhar efemérides num calendário comemorativo, mas de reconhecer que estas datas desenham um arco de sentido que atravessa política, cultura e pensamento crítico. Juntas, obrigam-nos a uma pergunta simples e exigente: o que fizemos com a liberdade conquistada, com a modernidade herdada e com o pensamento que nos ajudou a imaginar o país – e que futuro estamos, de facto, a preparar?

Liberdade conquistada, democracia que precisa de cuidado

A democracia instaurada em 1991 significou muito mais do que a alternância política. Instituiu direitos, liberdades e garantias, abriu o espaço público ao pluralismo e consolidou uma cidadania activa. Trinta e cinco anos depois, os ganhos são evidentes: estabilidade institucional, eleições regulares, alternância pacífica, reconhecimento externo. Estes resultados não são menores e devem ser valorizados.

Importa, porém, lembrar que nenhuma democracia se sustenta apenas pelos seus êxitos passados. A sua vitalidade mede-se pela capacidade de se renovar, de corrigir desvios e de responder a novas exigências sociais.

Mas a normalidade democrática não pode transformar-se em rotina conformista. A liberdade política não se esgota no voto nem se protege sozinha. Mede-se pela qualidade do debate público, pela independência efectiva das instituições, pela ética da vida política, pela inclusão social e pela capacidade de aceitar a crítica como parte do jogo democrático. Quando o debate se empobrece, quando a superficialidade substitui a argumentação e quando a discordância é vista como ruído ou ameaça, a democracia começa a desgastar-se por dentro.

O maior risco das democracias consolidadas não é a ruptura súbita, mas a banalização silenciosa da liberdade. É nesse ponto que a cidadania precisa de ser cuidada, estimulada e educada. Democracia não é apenas um sistema político; é também uma cultura do diálogo, do respeito e da responsabilidade.Sem cidadãos informados, críticos e participativos, a liberdade tende a esvaziar-se de conteúdo.

Claridade: modernidade como forma de olhar o país

Os 90 anos da Claridade recordam-nos que a modernidade cabo-verdiana nasceu de um gesto simples e corajoso: olhar o país tal como ele é. Claridade não foi apenas uma revista literária; foi um modo de ver e de pensar Cabo Verde. Ao assumir o quotidiano insular, a língua viva, a seca, a fome, a emigração e a mestiçagem como matéria literária e intelectual, os seus autores recusaram exotismos fáceis e dependências mentais.

A modernidade inaugurada por Claridade não foi importada nem decorativa. Foi situada, enraizada nas ilhas e aberta ao mundo. Por isso continua actual. Num tempo marcado pela aceleração digital, pela cultura do imediato e pela fragilidade do debate público, Claridade lembra-nos que a modernidade exige rigor, complexidade e coragem intelectual.

A sua principal herança talvez resida nesta lição: pensar o país a partir da realidade concreta, sem complacência nem subordinação intelectual.

Não há democracia robusta sem densidade cultural, nem cultura viva desligada da cidadania. É também neste ponto que a imprensa assume um papel central: herdeira da liberdade política conquistada em 1991 e da atitude crítica inaugurada em 1936, continua a ser um espaço decisivo de mediação entre cultura, política e sociedade. Uma imprensa livre e exigente é parte integrante da democracia.

Chiquinho: aprender a partir da experiência

Assinalar, em 2027, os 80 anos de Chiquinho é reconhecer um dos romances mais fundadores da literatura cabo-verdiana. Chiquinho é, ao mesmo tempo, um romance de formação individual e colectiva. A infância, a escola, a partida, a emigração e o regresso surgem como experiências que moldam o indivíduo e ajudam a compreender o país.

Neste romance, vemos um Cabo Verde antes da soberania política, mas já cheio de interrogações sobre educação, pertença, mobilidade e responsabilidade. Chiquinho não descreve heróis; descreve pessoas comuns em processo de aprendizagem. Talvez por isso continue a falar aos leitores de hoje.

A sua actualidade reside na forma como articula educação, consciência social e projecto de vida, temas que continuam centrais no debate nacional.

Reler Chiquinho oitenta anos depois é também interrogar o lugar da educação literária e da leitura na formação de cidadãos livres e críticos. Não há pensamento democrático sem leitura exigente, nem cidadania plena sem contacto regular com obras que ensinam a ver, a interpretar e a escolher. Ler não é um luxo cultural; é um acto cívico.

Baltasar Lopes: pensar o país como dever

Celebrar, em 2027, os 120 anos do nascimento de Baltasar Lopes da Silva é reencontrar o intelectual que deu coerência a esse projecto de pensamento. Filólogo, romancista, ensaísta e professor, Baltasar Lopes ajudou a estruturar uma ideia de cabo-verdianidade plural, crítica e moderna. A sua obra atravessa literatura, língua, educação e reflexão social.

Baltasar Lopes não pensou Cabo Verde a partir de slogans, mas a partir do estudo, da observação e da escrita. Chiquinho é parte integrante dessa visão de país, tal como os seus ensaios e intervenções. A sua lição permanece actual: pensar Cabo Verde não é um luxo académico, mas uma condição da própria democracia.

Pensar o país é, antes de tudo, um acto de responsabilidade cívica.

Pensar o país é perguntar pela escola, pela língua, pela cultura, pela diáspora, pelas desigualdades e pelo futuro comum. É um trabalho contínuo, que não termina com as comemorações.

Memória que serve o futuro

As datas de 1936, 1947, 1991 e 2027 ligam modernidade cultural, literatura, educação, pensamento crítico e liberdade política num mesmo percurso histórico. Pensar o presente implica reconhecer fragilidades reais; perspectivar o futuro exige reinvestir na educação, na leitura crítica da história, na cultura como política pública estruturante e na vitalidade do espaço público.

Estas efemérides oferecem uma oportunidade rara de ligar memória e projecto. O melhor tributo à democracia é fortalecê-la com exigência cívica; o melhor tributo a Claridade é recusar o pensamento fácil; o melhor tributo a Chiquinho e a Baltasar Lopes é continuar a educar o olhar e a consciência colectiva.

Não se trata de nostalgia, mas de consciência histórica activa. Entre a palavra escrita e a liberdade conquistada, há um futuro que continua por cumprir – e que depende, em grande medida, da forma como soubermos pensar, ler e dialogar enquanto comunidade.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,12 jan 2026 9:14

Editado porAndre Amaral  em  12 jan 2026 12:19

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