Em Cabo Verde, as elites nunca se sustentaram apenas pela riqueza. A distinção combinou poder económico, instrução, função pública, prestígio familiar e proximidade dos centros de decisão. Ser proprietário conferia posição; saber ler, escrever e falar em nome da terra conferia autoridade.
Elite não significa aqui excelência moral, mas uma minoria que concentra poder e influencia a sociedade. Em A Construção da Identidade Nacional (2006), esta perspectiva foi aplicada à elite letrada cabo-verdiana, cuja posição assentava na instrução, na palavra, na função pública e no prestígio familiar.
A história das elites cabo-verdianas lê-se como sucessão de grupos com fundamentos próprios: a elite colonial invocava propriedade, comércio e instrução; a da Independência, a memória da luta; a político-administrativa, o domínio do Estado; e uma elite mais recente, o diploma. Mudaram os discursos e as figuras. As redes, porém, sobreviveram.
Da propriedade à autoridade da palavra
A elite do período da administração portuguesa reunia comerciantes, proprietários, funcionários, professores e escritores. Na Praia, Governo e administração favoreciam funcionários; em São Vicente, o Porto Grande dava peso aos comerciantes; em São Nicolau, o Seminário-Liceu formava a elite letrada; e, na Brava, emigração e literatura alimentavam percursos intelectuais.
A instrução transformava posição económica em autoridade social. Escola, liceu, imprensa e associações criaram espaços onde a elite se reconhecia e reproduzia. Deles emergiu uma minoria letrada que se apresentava como voz dos “filhos da terra” e, muitas vezes, do povo. A mobilidade existia, embora limitada: bolsas levaram alguns filhos de famílias modestas à instrução, a emigração ajudou a financiar estudos e o funcionalismo abriu outra via de ascensão. Mas a escola que promovia alguns também reproduzia a vantagem dos que já possuíam meios e relações.
A família completava o mecanismo, transmitindo bens, livros, relações, prestígio e expectativas ao longo de gerações. A elite reproduzia-se por herança material, capital cultural e memória familiar. O apelido abria portas; a instrução ensinava a atravessá-las.
Da memória da luta ao poder do Estado
A partir dos anos cinquenta, emergiu uma elite nacionalista formada no liceu, nas universidades portuguesas e nas redes do nacionalismo africano. Apresentou-se como portadora da missão de libertar o país, convertendo a participação na luta e o prestígio revolucionário em direito de governar. A fórmula dos “melhores filhos do nosso povo”, utilizada pelo PAIGC para designar a vanguarda capaz de dirigir, estabelecia uma hierarquia entre os que integravam o partido e os que ficavam à margem. A nova elite apresentou-se, assim, como mais habilitada e portadora de uma ética superior, justificando o poder pela luta e pela condição de vanguarda.
A ruptura política não foi socialmente completa. Vários dirigentes provinham da elite letrada colonial ou de famílias ligadas ao funcionalismo e às profissões liberais. Em alguns casos, o casamento com filhas de famílias da antiga elite aproximou a nova autoridade do capital social estabelecido. A elite nacionalista incorporou recursos da anterior e reconverteu a memória da luta em capital político.
A concepção do partido como vanguarda, alimentada pela cultura política marxista-leninista da época, ofereceu também uma justificação ideológica à nova hierarquia: já não se governava por nascimento ou propriedade, mas em nome da consciência política, da luta e da missão histórica.
Com a Independência, o Estado organizou a mobilidade social. A administração concentrou empregos, bolsas e carreiras, formando uma elite ligada ao partido único — primeiro o PAIGC e, a partir de 1981, o PAICV — e aos lugares superiores da função pública. O processo permitiu que jovens de famílias rurais ou frágeis acedessem à escolarização, a bolsas e a cargos de responsabilidade. Mas o mesmo Estado que alargava oportunidades também seleccionava beneficiários e estabelecia fidelidades, num regime em que, a partir da Constituição de 1980, o partido ficou consagrado como força dirigente da sociedade e do Estado.
Com a abertura de 1990–1991, o princípio partidário não desapareceu; pluralizou-se. Redes concorrentes substituíram a rede única. A alternância permitiu circulação dentro da elite, mas não necessariamente maior abertura. Mudaram os ocupantes dos gabinetes. O gabinete, esse, conservou o seu poder.
Quando o título substitui a obra
A expansão do ensino superior introduziu outra distinção. Diploma, mestrado, doutoramento e título de professor tornaram-se credenciais de autoridade, num processo que alargou a formação, mas produziu também aquilo que se poderá designar, provocatoriamente, por elite pseudo-académica. Não se trata de desvalorizar os académicos, mas de distinguir qualificação certificada de autoridade intelectual. Uma coisa é possuir diploma; outra é produzir pensamento e obra. A pseudo-elite académica sustenta-se mais no título do que na investigação, mais na função do que na produção científica e mais na presença mediática do que no trabalho verificável.
O seu capital é sobretudo nominal: apresenta credenciais, ocupa cargos e comenta os mais diversos assuntos, mas nem sempre possui produção consistente ou reconhecimento pelos pares. O diploma converte-se em decoração; o cargo universitário, em prova automática de saber; e a exposição pública, em substituto da competência. Quanto menor a obra, por vezes, maior o cartão de visita. A elite intelectual produz pensamento e deixa obra; a titulada pode limitar-se a administrar credenciais. Quando o grau académico se associa à nomeação política e ao controlo institucional, forma-se uma elite híbrida — política, administrativa e pseudo-académica — em que o título justifica o cargo, o cargo dá visibilidade ao título e a visibilidade se apresenta como mérito. O círculo fecha-se e reproduz-se.
Afinal, para que serve uma elite?
A história das elites cabo-verdianas não corresponde a uma simples substituição de grupos. O proprietário ligou-se ao funcionário e ao intelectual; a elite nacionalista nasceu, em parte, das famílias formadas pela escola colonial; e a político-administrativa acrescentou o diploma aos seus mecanismos de afirmação. Mudaram os discursos, mas permaneceram família, casamento, escola, partido, administração e redes.
A questão não é saber se Cabo Verde tem elites, mas se elas permanecem abertas à circulação, renovam a autoridade pelo mérito e pelo serviço, produzem conhecimento e riqueza para além do Estado e aceitam o escrutínio. Uma elite cumpre uma função histórica quando abre caminhos e devolve à sociedade mais do que recebe; deixa de a cumprir quando se fecha, distribui cargos e títulos e apresenta os próprios interesses como interesse da Nação. Uma elite que já não abre caminhos, não produz valor e não aceita o escrutínio deixou de dirigir. Limita-se a ocupar.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.
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