60% do ‘grogue’ é falso

PorAndré Amaral,11 ago 2018 8:07

Trapiche
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​Alambiques ilegais, utilização de lixivia, produção de aguardente usando açúcares e falta de condições sanitárias de produção podem colocar em causa a saúde pública e o estabelecimento do grogue como um produto exportável e de divulgação do nome do país. Mais de metade da produção não pode usar a designação grogue, diz a IGAE.

Grande parte da bebida que se vende com o nome grogue não o é realmente.

Cabo Verde produziu, no ano passado, 10 milhões de litros de aguardente que foi comercializada com o nome grogue.

No entanto, como confirma o Inspector-geral da Inspecção Geral das Actividades Económicas (IGAE), Elisângelo Monteiro, a quantidade de grogue verdadeiro “corresponderá a uma percentagem menor. Podemos estimar que 3 a 4 milhões de litros sejam grogue”, ou seja, os restantes 6 a 7 milhões de litros são uma bebida destilada que não poderá ser chamada de grogue.

Elisângelo Monteiro explica a diferença: “O grogue é produzido exclusivamente com cana sacarina, tudo o resto que seja produzido recorrendo a açúcares e outros é aguardente”.

No entanto, há um dado que pode causar graves problemas de saúde pública em Cabo Verde: “a IGAE tem conhecimento de utilização de lixívias na produção de aguardente” em Cabo Verde, confirma o Inspector-geral.

“As análises à qualidade do produto são obrigatórias e se forem detectados valores acima do limite legal o produto é retirado do mercado e o produtor é coimado até um valor de mil contos. Como pena assessória pode dar-se o encerramento da unidade de produção”, explica Elisângelo Monteiro.

Exemplo disso mesmo, a IGAE anunciou que recentemente, em Achada Limpo, na Praia, foi encerrada uma unidade de produção que funcionava sem autorização e que não reunia as mínimas condições de higiene. Na operação, a IAGE apreendeu quase 100 litros de ‘grogue’ que tinha como destino provável o mercado da capital.

Este é apenas um caso. No país, especialmente em Santo Antão e Santiago, há 312 unidades de produção de grogue e aguardente. “Nelas existem 380 alambiques, porque uma unidade de produção pode ter mais de um alambique em funcionamento”, esclarece Elisângelo Monteiro.

Com a entrada em vigor da lei que regulamenta a produção de grogue em Cabo Verde, a produção está limitada a 180 dias por ano sendo que a IGAE estima que cada alambique possa produzir 180 litros de grogue/aguardente a cada temporada. “Há alambiques que numa hora produzem 20 litros de aguardente”, especifica Elisângelo Monteiro.


Ilegais

Aquando do fim da época de produção e do início do processo de selagem dos alambiques a IGAE apurou que 60% das unidades de produção funcionam de forma ilegal.

Ao Expresso das Ilhas, o Inspector-geral da IGAE explicou que, além das questões sanitárias, a maioria dos casos de ilegalidade se prende com falta de licenciamento industrial das unidades de produção. “Desde que a lei entrou em vigor, os produtores são obrigados a obter um licenciamento industrial junto da Direcção Geral da Indústria”, apontou, frisando que é em Santo Antão que se concentra o maior número de ilegalidades.

Segundo Monteiro a operação de um alambique pode levar à aplicação de coimas que podem atingir os 800 mil escudos e de penas acessórias “que podem chegar aos 2 mil contos”.

No entanto, há que assinalar que apesar do elevado número de unidades de produção a funcionarem ilegalmente, o número reduziu desde o ano passado quando, segundo a IGAE eram 70% das unidades que funcionavam ilegalmente.


Um novo plano de acção

O Governo vai implementar um novo plano de acção para acelerar a implementação da Lei do Grogue, uma vez que, a nível nacional, apenas seis por cento das unidades de produção cumprem os requisitos exigidos.

A informação sobre esta decisão foi avançada esta terça-feira à Inforpress pe­lo ministro da Indústria, Comércio e Energia, Alexandre Monteiro, que se encontra em São Nicolau para uma visita de dois dias, a fim de se inteirar do funcionamento de algumas unidades industriais, principalmente as da produ­ção da aguardente.

Alexandre Monteiro esclareceu que esses seis por cento representam apenas 19 unidades do total das instaladas no país, lembrando que aquando da aprovação da lei, em 2015, havia algum “desfasamento” em relação à realidade, dado que apenas três por cento obedeciam acima dos 50 por cento dos requisitos exigidos.

De entre esses requisitos, Alexandre Monteiro destacou a questão da localização, matéria-prima e instalação, para além de outros conjuntos de obrigações que os produtores devem obedecer para um fabrico de qualidade das aguardentes.

“Pretendemos acelerar esse processo de modo a ter, num horizonte de três anos, apenas unidades de produção da aguardente que cumprem acima dos 50 por cento dos requisitos, que são os mínimos aceitáveis para reduzir o risco de produção de aguardente nocivos à saúde pública“, disse o governante.

Esse plano, segundo o ministro da Indústria, Comércio e Energia, vai permitir uma adequação mais célere da legislação, estabelecer um mínimo de quesitos aceitáveis para licenciar as unidades de produção e reforçar a fiscalização.


Produtores querem mais fiscalização

Santo Antão é, a par de Santiago, onde mais grogue e aguardente se produzem em Cabo Verde.

Segundo informações divulgadas esta terça-feira pela Inforpress, os produtores de grogue estão satisfeitos com a forma como correu a produção deste ano mas pedem um reforço na fiscalização por parte da IGAE.

Segundo declararam os produtores à agência de noticias, a seca, que marcou de forma particular Porto Novo este ano, pouco terá condicionado a colheita da cana-de-açúcar e, consequentemente, a produção do grogue, graças à aposta na mobilização de água, mas também na rentabilização dos recursos hídricos por parte dos agricultores.

Edivaldo Neves, produtor em Ribeira da Cruz, confirma que, nessa localidade, onde existem quatro unidades de produção, tanta a safra como o período destinado à industrialização do grogue decorreram na “tranquilidade”, mas, no seu entender, há ainda a necessidade do reforço da fiscalização.

O reforço da fiscalização passa, a seu ver, pela abertura da representação da IGAE no Porto Novo, medida anunciada nos princípios deste ano, mas que continua por concretizar, lembrou este produtor.

No Tarrafal de Monte Trigo, segundo o produtor Simão Évora, as sete unidades de produção funcionaram na “normalidade”, realçando a aposta dos produtores na qualidade do grogue produzido localmente, que, dentro de pouco tempo, começa a ser exportado para a Europa (ver caixa).

Ainda segundo a Inforpress, 2018 foi marcado pela aposta da IGAE na formação dos produtores do grogue, não só no Porto Novo como em toda a ilha de Santo Antão, iniciativa que visa a melhoria da qualidade da aguardente nesta ilha, com uma produção à volta de dois milhões de litros/ano.

Enquanto isso, o Governo exorta os produtores do grogue a comprometerem-se com a qualidade do produto que pode ser exportado para a Europa e para os Estados Unidos.

Na sua recente visita a Santo Antão, o vice-primeiro-ministro, Olavo Correia, incentivou os produtores de grogue da ilha “a estarem comprometidos com a qualidade” do produto, que tem condições para ser exportado para mercados internacionais e contribuir, cada mais, para o desenvolvimento desta região.

No seu entender, o Governo tem a obrigação de, também, investir na qualidade do grogue que se produz no arquipélago, através de criação de “um bom sistema de fiscalização”, reprimindo aqueles que insistem em produzir uma aguardente de má qualidade.


Açúcar, o grande inimigo

Como já foi referido, o grogue para pode apresentar essa designação pode ser feito à base de apenas um ingrediente: cana sacarina. Todas as bebidas que sejam produzidas recorrendo a outros produtos, não sendo ilegais, não podem ter esse nome. “Serão aguardentes como o vodka, o whisky ou outras bebidas do género”, explica Elisângelo Monteiro.

No entanto, a importação de açúcar tem crescido em Cabo Verde e esse aumento deixa os produtores preocupados.

Em Novembro do ano passado, os produtores mostravam-se preocupados com a chegada de uma “quantidade anormal de açúcar à ilha”.

Na altura, a pouco menos de dois meses do início da safra de cana sacarina e da reabertura dos alambiques, os produtores do grogue, sobretudo no Porto Novo, denunciavam a aquisição, por parte de “supostos” agricultores de uma quantidade invulgar do açúcar refinado que, alegadamente, seria depois utilizado na produção da aguardente.

Alguns produtores, abordados pela Inforpress, diziam ter “informações privilegiadas” de que pessoas estariam a armazenar grandes quantidades de açúcar que, a partir de Janeiro deste ano, poderia vir a ser utilizado no fabrico do grogue, como aconteceu em 2017.

Edivaldo Neves, produtor do grogue em Ribeira da Cruz, localidade conhecida pelo seu “bom grogue”, diz recear que, por falta de fiscalização, alegados agricultores, à semelhança do que se verificou em 2017, voltem a utilizar o açúcar e outros produtos nocivos à saúde para a produção da aguardente.

A própria Inspecção-Geral das Actividades Económicas (IGAE), durante o processo de selagem de alambiques que decorreu durante o mês de Agosto, encontrou, das análises realizadas, “elevada concentração de chumbo, metanol, mas também algumas substâncias cancerígenas, que contribuíram para a “má qualidade” da aguardente em Cabo Verde.


França, o primeiro mercado externo do grogue de Tarrafal de Monte Trigo

O grogue que se produz no Tarrafal de Monte Trigo, Santo Antão, começa, ainda em Agosto, a ser exportado para França, através da empresa ”M&G”, que já tem o certificado que lhe permite exportar para mercados internacionais.

A empresa M&G (Música e Grogue), que se dedica à conservação, promoção e comercialização do grogue “Made in Tarrafal de Monte Trigo”, tem vindo, nos últimos meses, a colocar o produto no mercado nacional, tendo tudo a postos para começar, ainda este mês, a exportar o produto para o mercado europeu, a começar pela França.

O grogue do Tarrafal de Monte Trigo já goza de “excelente aceitação” no mercado nacional, segundo o produtor Simão Évora, um dos promotores da M&G, sociedade que aposta, além da comercialização do grogue natural e velha, também na produção de derivados da aguardente.

Nesta fase, pretende-se engarrafar mil litros de grogue natural e velha, com marca “Tarrafal de Monte Trigo”, segundo Simão Évora, para quem o grande desafio dos produtores do grogue dessa localidade prende-se com a certificação do produto, por forma a facilitar a sua inserção nos mercados internacionais.

Além da Europa, o grogue que produz em Santo Antão desfruta de “alguma facilidade de escoamento” também para os Estados Unidos.

A inserção do grogue de Santo Antão na lista das bebidas alcoólicas comercializadas nos principais mercados internacionais constitui uma das principias aspirações dos produtores desta ilha.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 871 de 07 de Agosto de 2018.

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Autoria:André Amaral,11 ago 2018 8:07

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 nov 2018 3:23

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