3 em cada 4 utentes do Banco de Urgência podiam ser tratados nos Centros de Saúde

PorSara Almeida,7 out 2018 9:00

Depois do Hospital Agostinho Neto, na Praia, vamos agora ao Barlavento, ao Hospital Baptista de Sousa (HBS). Muitas obras em curso ou prestes a arrancar e um Banco de Urgência sobrecarregado de casos que deveriam ser tratados em outras instâncias são alguns dos temas abordados nesta conversa com a directora, Ana Brito.

Frequentemente alvos de críticas, os (dois) hospitais Centrais do país recebem milhares de cabo-verdianos todos os anos. Aliás, serão raros os cabo-verdianos que nunca tiveram, em uma ou outra circunstância, que recorrer aos seus serviços.

São, pois, entidades de suma importância para o país, sendo que a sua situação e funcionamento, pelo impacto directo na vida dos cidadãos, diz respeito a todos.

Entre 70 a 80% dos utentes que recorre ao Banco de Urgências do HBS apresentapatologias passíveis de serem tratadas na atenção primária”. Estes são dados apurados pela auditoria que a direcção do hospital central tem feito e que Ana Brito avança.

Uma situação que sobre­carrega o serviço, criando constrangimentos ao seu bom funcionamento e que está na raiz da maior parte das reclamações escritas que chegam à direcção: o tempo de espera nos Bancos de Urgência, “mais concretamente no BU de Adultos”.

Ana Brito confirma. Após a triagem, que é feita, garante, com celeridade – dando o “ descargo de consciência” de que quem tem situação clínica grave é atendido rapidamente – os casos menos graves ficam à espera, por vezes, horas.

Quem espera, desespera e quem espera com dores ainda mais. Sobre queixas de doentes que ficam em sofrimento durante esse longo tempo, a médica explica que, embora o enfermeiro por norma administre um analgésico ou antipirético, há situações em que este é contra-indicado. A sedação pode impedir o diagnóstico correcto, e pode ocorrer uma iatrogenia [estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico].

“É claro que ninguém quer estar com dores, mas também não queremos que nos aconteça alguma coisa pior, por causa de alguma medicação. Entre essas duas questões, é claro que é preciso manter o doente vivo e depois aliviar a dor quando é possível”, justifica.

De qualquer forma, a escala da dor já aumenta a prioridade do doente, na triagem. Esta é aliás, um dos factores que influencia a atribuição da cor.

Mas, como se dizia, são às vezes horas e horas de espera, e a principal causa, insiste Ana Brito, terá menos a ver com a falta de Recursos Humanos do que com essa demanda desfasada do nível de cuidados necessários.

Uma demanda de utentes que “sobrecarregam o sistema de urgência, que esperam várias horas, e que têm patologias que podem ser tratadas com um médico do centro de saúde, com mais calma, na atenção primária” e na zona de cada doente (cada centro de saúde cobre algumas zonas), insiste.

Enquanto essa situação não se resolver, o BUA “vai continuar a estar sobrecarregado, a ser um grande centro de saúde e ao mesmo tempo ter a obrigação de ver as causas complexas”. Vai continuar a haver reclamações e “não há como inverter essa situação”.

Mudar os hábitos

É sabida e reconhecida a importância de dividir/hierarquizar os cuidados de saúde para regrar os fluxos de utentes e prestar melhores serviços. Contudo, apesar do modelo do serviço nacional de saúde o fazer – está dividido em três níveis de cuidados, correspondendo aos hospitais o segundo e, no caso dos Hospitais centrais também o terceiro – essa divisão ainda não funciona como deveria.

Entre os vários constrangimentos que colocar esta hierarquização dos cuidados a funcionar implica, há que ter em conta um, especialmente complexo na sua resolução, que tem a ver com “elementos históricos” e culturais.

“Antigamente, as pessoas vinham sempre ao serviço de urgência”. Um hábito que se mantém.

Além disso, há a questão da comodidade e continua a persistir “essa mentalidade de que no serviço de urgência do hospital encontram tudo. Encontram especialista, exames complementares de diagnósticos, podem ser internados”. É que, como refere a médica, “as pessoas sempre sobrevalorizam as suas queixas” e pensam que pode ser necessário uma bateria de exames e afins.

Um outro ponto que “não ajuda nada” a mudar estes hábito é a tabela existente e que tem de ser revista, no seu entender. “A pessoa paga o mesmo preço para entrar nos bancos de urgência que para uma consulta nos centros de saúde”. Isso traz largas vantagens de recorrer às urgências. “Paga 150-300 escudos, é imediatamente vista e poderá ser visto por um especialista, se necessário, fazer exames. Se necessário, pode também ser internado, ser posto na sala de observações”, reitera. Se não puder, nem paga nada (aliás, de acordo com a auditoria, a maior parte dos utentes não paga, nomeadamente, a taxa moderadora).

Na atenção primária, os preços são semelhantes, os ritmos são outros. “Marcam a consulta, podem esperar dois, três dias ou mais pela consulta e não vão fazer todos esses exames”, aponta. Assim, no seu entender, “essa tabela está invertida, não nos ajuda nada”.

Mas a directora do HBS está algo optimista. “Acho que com tempo, trabalho e com as alterações que estão previstas poderemos conseguir alguma alteração desse fluxo, que seria fluxo inverso, e conseguiríamos ter o hospital trabalhando para as patologias para as quais está virado” (cuidados secundários e terciários), acredita.

As alterações previstas, recorda, assentam numa reorganização dos Centros de Saúde, sendo que alguns “vão-se unificar, vão-se incluir mais Recursos Humanos nas várias categorias e também equipar os centros de saúde e delegacias de saúde com equipamentos essenciais, de laboratório, de imagem, de forma que o utente possa ficar mais satisfeito quando procura o Centro de Saúde.

Quanto ao projecto em curso para formar equipas de medicina familiar, que está a ser levado a cabo pelo Governo em parceria com a Uni-CV e que conta com o apoio do Brasil e Portugal, Ana Brito considera que virão a ter um “peso enorme”, nesse processo de mudar os fluxos dos utentes. Isto porque irá facilitar que a tal grande parte das patologias que ainda leva ao recurso ao hospital seja efectivamente tratada nos centros de saúde.

“Assim já conseguiremos que a atenção secundária e terciária se dedique às condições mais específicas, mais complicadas, mais complexas. Criamos assim um fluxo entre a atenção primária e a atenção secundária e terciária, adequado para que os doentes se movimentem com maior facilidade, com maior comunicação entre os dois níveis”, explica.

Hospital em (re)construção

O HBS é, neste momento, um organismo em “mutação”. A lista de grandes e pequenas obras, intervenções e aquisições é grande. Muitas já estão em curso, outras na calha. Outubro e Novembro serão meses de grande intensidade nas intervenções e o alvoroço é grande.

Mas antes de falar dos aspectos materiais, também o investimentos nos “imateriais” continua.

Uma medida já tomada para melhorar a satisfação de utentes e seus entes queridos foi a de estender o horário das visitas, que agora é das 14h às 18h, o que evitou a confusão nas enfermarias e permitiu um fluxo de visitas mais calmo e espaçado.

“Também impusemos um acompanhante para cada doente”, por forma a que o acompanhamento seja constante, permitindo posteriormente um seguimento e cuidados mais adequados ao utente.

Entretanto, embora não haja tantas queixas, pelo menos escritas, sobre o atendimento como há sobre o tempo de espera, estas existem. Assim, um dos investimentos que vai ser continuado tem a ver com essa vertente.

“Estamos a estudar como humanizar os serviços”, garante Ana Brito. Isso deverá passar por uma “reedição” da iniciativa tomada em 2016 de contratar uma empresa para ministrar aulas de atendimento ao público e gestão de conflitos.

A nível das urgências, a par do trabalho em relação ao fluxo e da formação para o atendimento, tem havido igualmente “algumas obras para melhorar o atendimento” prestado.

“Vamos começar agora em Outubro a construção de uma nova sala de espera, que é onde temos mais problemas, mais reclamações”, aponta Ana Brito.

Essa nova sala de espera, cuja construção é assumida pela MOAVE e que conta também com um apoio da ENAPOR, vai permitir, segundo a directora, “aumentar a área clínica, a rede de atendimentos ao utente e humanizar mais o serviço”.

Será então possível “reorganizar o espaço conforme as prioridades dos doentes que estão à espera, o que certamente vai dar melhores condições tanto aos utentes como também aos funcionários que aí trabalham – médicos, enfermeiros e demais os ajudantes”.

Ainda em Outubro, vai haver também intervenção, patrocinada pela COPA, no serviço de Radiologia, onde também há “bastante movimento.”

“Temos ainda outras pequenas construções, como na unidade de endoscopia, para a qual já temos um patrocinador – a ENAPOR novamente – e estamos a melhorar ainda a unidade de cuidados intensivos”, uma intervenção que “já está quase” finalizada.

Também a cozinha está a alvo de intervenção. “Neste momento a nossa cozinha vai ser, por um período, externa ao hospital, enquanto estamos a fazer essa rotação de serviços. Vamos ter uma nova cozinha, que já foi projectada e que vamos iniciar ainda este mês”.

Mais para o fim do ano, prevê-se obras para o ambulatório.

Entre as intervenções recentemente feitas está a nova lavandaria hospitalar, que “tem um fluxo completamente adequado, já respeitando os critérios contra infecção intra-hospitalar”. “Com a chegada dos novos equipamentos doados pelos fundos árabes, a mesma irá iniciar funções já este mês.

Entretanto, e após “vários anos” em que apenas um dos três elevadores do HBS funcionava (e mal), actualmente todos estão operacionais. “Temos elevadores completamente novos o que nos tem facilitado bastante, tanto a nível da maternidade como dos doentes cirúrgicos, como dos doentes acamados, até porque somos um hospital na vertical”.

Um serviço que também já foi restaurado “com grande sucesso” foi a neonatologia, que está equipada com cinco incubadoras e recebeu dois ventiladores. “Terminámos agora em Agosto”.

O próximo ano também se advinha profícuo na melhoria das estruturas, e consequentemente dos serviços do HBS.

Há já a promessa do governo chinês de construir de raiz, um bloco novo junto ao hospital, para a Maternidade. Quando estiver pronta, irão ser feitas algumas “alterações de serviços e vamos poder aumentar o serviço de pediatria, o que também já está previsto”.

Obras da Diálise arrancam em breve

Entre as grandes obras previstas para o HBS há uma que tem gerado bastante expectativa: o Centro de Diálise.

Actualmente, o HBS apenas presta diálise de emergência, para estabilização do quadro clínico.

Os doentes renais do Barlavento têm de ser evacuados para a Praia, onde correspondem a quase metade dos utentes atendidos pelo Centro de Diálise do Hospital Agostinho Neto e onde por vezes nem sequer têm família ou amigos próximos.

“Isso tem trazido bastantes constrangimentos”, lamenta a directora. Entretanto, como é sabido, há já um patrocínio do Instituto Camões (Portugal) para a construção do mesmo. O projecto está pronto. “Agora estamos a fazer a movimentação dos serviços, conforme o masterplan [do HBS] – temos de seguir o plano directório – para iniciarmos as obras do novo centro de diálise”. Estas deverão arrancar antes do final do ano.

O quadro de recursos humanos que vão operacionalizar o Centro está também a ser trabalhado com o Ministério da Saúde.

18 meses é a previsão, por alto, para a entrada em funcionamento do Centro.

Recursos Humanos e Listas de espera (ver dados)

Em termos de Recursos Humanos, o HBS conta actualmente com 570 funcionários, entre os quais 64 médicos e cerca de 140 enfermeiros.

Há alguma falta de enfermeiros, “tem estado a ser necessário”, mas essa falha deverá ser colmatada com o novo concurso lançado pelo Ministério da Saúde, ainda este ano. “Mas isso irá depender também, um bocado, da atenção primária…”, adianta.

No entanto, a maior falta verifica-se a nível dos médicos especialistas, nomeadamente na área de anestesia - onde já estava prevista essa ruptura -

Pediatria, neonatologia, cirurgias e otorrinolaringologia.

Só na anestesia, o HBS vê-se este ano privado de dois especialistas, que entram na reforma. “Vai-nos complicar muito a vida”, admite.

A solução poderá passar pela recontratação, sob moldes especiais, desses médicos reformados. Aliás, nada inédito. “Na otorrinolaringologia já temos um médico recontratado, que está na reforma. Tínhamos de o fazer. Só tínhamos 2 especialistas de otorrino, somos um Hospital Central e respondemos pela região do Barlavento. Com um especialista apenas não conseguiríamos [dar resposta] ”.

Listas de espera mais reduzidas

Tem havido, garante a directora do HAN, uma melhoria significativa nas listas de espera para consultas do HBS.

Neste momento, há inclusive várias especialidades de marcação imediata (Cirurgia Maxilo-Facial, Cirurgia plástica, Ginecologia, Hematologia, Medicina Interna e Nutrição ou ver tabela).

A espera de Psiquiatria não chega a um mês (3 semanas), e uma boa parte dos serviços tem entre 1 a 2 meses de espera. As listas mais longas são Cardiologia e Gastroenterologia (ambas com 3 meses), bem como Ortopedia e Fisioterapia (4 meses). Oftalmologia é, por seu turno, o caso mais problemático: 5 meses.

Contudo, a Direcção abre um parêntesis para referir que, aquando da sua tomada de posse, a lista desta especialidade era de cerca de 3 anos, “tendo sido necessária uma reorganização para a sua diminuição”.

“Pegamos na lista e começamos a reorganizar as consultas. Tínhamos dois especialistas em oftalmologia – que também ficam doentes e vão de férias… – mas conseguimos, com muita ajuda da equipa, com os técnicos, não só com os médicos, refazer, voltar a chamar, ver quem realmente ainda precisava de consulta. Fizemos um trabalho à volta disso e realmente conseguimos avançar bastante na lista”, explica Ana Brito, acrescentando que entretanto o HBS conta com mais um oftalmologista.

Entretanto, a cirurgia ainda causa alguns constrangimentos, pois “não encontramos uma verdadeira lista de espera na central de consulta”. Uma lista que permita saber ao certo quantas pessoas. “É um trabalho que estamos a fazer agora com a ajuda da informática: criar listas de espera para as diferentes especialidades cirúrgicas, para termos maior controlo sobre os doentes, sobre os exames que tem de fazer antes, as consulta, para não falhar nada. Para termos menos absentismo no dia da consulta das cirurgias, porque as pessoas faltam muito”, diz.

Na parte dos exames, a endoscopia apresenta ainda uma lista de espera considerável, uma vez que o aparelho avariou. “Mas agora já temos aqui em São Vicente a maior parte dos equipamentos da doação árabe. Vamos retomar e refazer essa lista de espera, ver como conseguimos avançar”.

Hoje é também, avança a médica, mais fácil marcar as consultas. O sistema foi reorganizado, informatizado, e vai ser iniciado o centro de marcação única (para consultas, análises laboratoriais, exames de imagem)

Contas

Quanto às contas do HBS… “Contas, já se sabe”, desabafa a directora. São sempre questões complicadas. “Temos as nossas limitações orçamentais.”

No entanto, avança, houve “uma redução apreciável” das dívidas face a 2016.

Entre as dívidas que prevalecem estão a devidas a fornecedores com a Electra e alguns outros de forma mais diminuída.

Obras previstas como o ambulatório, a maternidade e o centro de diálise já estão orçamentadas neste e próximo ano e o apoio de parceiros privados continua a ser uma ajuda relevante.

Além disso, uma revisão do Orçamento do Hospital seria igualmente importante. Limitações há sempre, é ver até onde se pode ir…

Internamentos (2017)

5 626

Consultas (2017)

36 144

Evacuações externas (2017)

272

Exames de imagem:

cerca de 30 000 exames

Intervenções cirúrgicas:3 300

Nº de evacuações externas ano 2017:

272

Quadro:

Este ano foram retomadas as teleconsultas de especialidade com as outras ilhas, inseridas no plano das evacuações e deslocações de especialistas, tendo o HBS feito, até Agosto, 155 teleconsultas com destaque nas especialidades de cardiologia, cirurgia e ortopedia.

Ocupação:

O serviço com maior taxa de ocupação é a Cirurgia (81,4%), e o com menor é a Tisiologia (22,2%), seguido da Pediatria (33,6%)

Em números absolutos, a lista é encimada pela Ginecologia/Obstetrícia, com 1989 utentes internadas seguido da cirurgia (1080).

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 879 de 03 de Outubro de 2018.

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Autoria:Sara Almeida,7 out 2018 9:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  27 jun 2019 23:22

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