Entendendo o stress… não é “frescura”

PorSheilla Ribeiro,2 nov 2019 8:58

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o stress como uma epidemia global que afecta mais de 90% da população do mundo. Entretanto, segundo especialistas, é preciso estar atento aos sinais de alerta e tentar dominar esta reacção do corpo que poderá trazer consequências de grandes dimensões.

Levantar a voz para a irmã por tudo e por nada devido à falta de paciência. É assim que a administrativa e controle financeiro, Orisanda Furtado, diz ter percebido que o stress do trabalho estava a afectar a sua vida pessoal. 

“Devido ao stress do trabalho, muitas vezes acabo por ser impaciente. Aborreço-me por qualquer coisinha. Algumas vezes paro para me analisar e perguntar o porquê do meu comportamento”, relata Orisanda Furtado.

O que é o stress? 

O psicólogo Nilson Mendes diz que o stress é a “resposta do corpo a um evento ou a uma situação de pressão” na vida. Prosseguindo, explica que existe uma série de componentes individuais que condicionam no impacto do stress no quotidiano, desde o contexto social e económico até à predisposição genética e o próprio ambiente em que se vive. 

“É uma resposta fisiológica e comportamental normal a algo que aconteceu ou está para acontecer, que faz a pessoa sentir-se ameaçada ou que, de alguma forma, perturba o seu equilíbrio”, explana. 

Quando se sentir em perigo real ou imaginado, de acordo com o psicólogo, as defesas do organismo reagem rapidamente num “processo automático”, conhecido como “reacção de luta ou fuga” ou de “congelação”. 

Nilson Mendes diz que inicialmente o stress pode ser positivo. Entretanto, deixa de ser proveitoso, quando começa a prejudicar gravemente a saúde, alterando o humor, a produtividade, os relacionamentos e a qualidade de vida em geral.

“Em pequeno nível, pode ajudar a trabalhar sob pressão e motiva a fazer o melhor. Ao contrário, quando atinge níveis elevados, o corpo e a mente pagam o seu preço”, justifica.

O estilo de vida e o stress 

Para Orisanda Furtado, trabalhar numa Organização Não Governamental (ONG) contribui para o seu stress. A administrativa/financeira revela que o mesmo é causado por muitas vezes ter de trabalhar sem dinheiro.

“Há momentos em que há dinheiro e outros em que nem por isso. Quando não há dinheiro, estressas porque tens um leque de despesas para liquidar. Muitas vezes, sequer tens a previsão de receitas”, conta.

Por sua vez, Leida Moniz, contabilista, confessa que a profissão é “estressante” por estar sempre sob pressão além dos prazos de entrega de documentos e relatórios.

“Por vezes, é-nos concedido projectos hoje, para gastar o dinheiro no dia seguinte e ainda entregar o relatório no mesmo dia, isso causa muito stress. E o stress afecta muito a minha vida profissional porque quando estou muito estressada tenho menos produtividade no trabalho”, declara. 

A estudante universitária, Ercília Fonseca, considera-se uma pessoa por natureza estressada. Mas, segundo conta, na época dos exames costuma ser estressada ao extremo. 

“Durante os exames fico louca porque tenho menos paciência do que o habitual, não suporto nada nem ninguém. Quanto mais ansiosa estou, mais irritada fico a ponto discutir por algo insignificante”, refere.

Segundo Nilson Mendes, o nível de stress pode ser influenciado pelo nível de controlo que cada pessoa possui sobre a carga e sobre o ritmo de trabalho. Por outro lado, consoante o psicólogo, o estilo de vida ou até mesmo a personalidade da pessoa (ser agitado ou calmo) também condicionam o stress.

“Mas, hoje em dia, a vida moderna é cheia de dificuldades, com prazos, decepções e muitas exigências. Para muitas pessoas, o stress é tão comum que se tornou quase um modo de vida”, avança. 

Conforme o psicólogo, as pressões no local de trabalho, que podem incluir prazos apertados, um chefe imprevisível, ou tarefas intermináveis influenciam no stress da pessoa. Esta pressão, segundo diz, muitas vezes, vai para além do que é razoável, fazendo do espaço laboral uma fonte geradora de muito stress.

“As principais causas de stress laboral, observadas, estão relacionadas com ansiedade e depressão, nomeadamente devido à pressão laboral de prazos apertados e de excesso de responsabilidade tendo em conta a falta de recursos disponíveis”, afirma.

Pelo facto de aumentar a tensão muscular na região do pescoço e ombros, o psicólogo informa que melhorar a postura pode evitar o stress, as dores e até a prisão do intestino.

“O corpo está desenhado de modo a lidar com pequenas quantidades de stress, sobretudo canalizadas para um único momento. Não estamos, no entanto, equipados para lidar com o stress a longo prazo, de forma continuada. Podemos ficar cansados, sem capacidade de resposta”, garante. 

Sintomas e factores de stress

Nilson Mendes afirma que é importante identificar as causas do stress de modo a preparar melhor o seu combate. Elucida ainda que as situações e pressões indutoras do mesmo são conhecidas como estressores.

“Geralmente, vê-se o stress como sendo algo de negativo que nos acontece: como um horário de trabalho cansativo ou uma relação complicada. No entanto, acontecimentos positivos, tais como: viajar, casar, ou até receber uma promoção ou começar a trabalhar, também podem estar na sua origem”, aclara. 

Retomando a explicação, enuncia que o stress pode ter origem em factores internos ou externos que, directa ou indirectamente, proporcionam a desestabilização no equilíbrio dinâmico do organismo. 

O stress, conforme Nilson Mendes, pode ser auto-gerado, por exemplo, quando há uma preocupação excessiva, com algo que pode ou não vir a acontecer, pensamentos ou ainda pessimistas sobre a vida.

“O stress depende ainda da percepção que cada pessoa tem sobre ele. Algo que é stressante para alguém pode não o ser para outra pessoa”, declara. 

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Os sinais de alerta 

Ercília Fonseca confidenciou ao Expresso das Ilhas que em tempos foi mais stressada e que agora tenta ser menos. Isto porque, conforme conta, o stress acabou por afectar as suas relações afectivas.

“Digo isso porque o facto de me stressar por tudo e por nada causou-me, e por vezes ainda causa, muitos desentendimentos. São situações em que se eu fosse uma pessoa mais calma não teriam acontecido”, reflecte. 

O psicólogo Nilson Mendes assegura que uma vez que a pessoa reconhece que está sob stress torna-se necessário elencar as soluções possíveis. Para tal, conforme adianta, deve-se separar as situações que se vão resolver com o passar do tempo e aquelas em que não é possível fazer nada. 

“O segredo é tomar o controlo daqueles pequenos passos que estão ao nosso alcance de modo a aliviarmos a carga”, atesta. 

Desde o stress positivo, de acordo com Nilson Mendes, até pressentir muito stress, passando por um stress excessivo ou stress agudo, os sintomas vão se agravando no decorrer do tempo.

“Saber reconhecer quais os sintomas em cada uma das fases é de primordial importância, uma vez que a tendência é que, se nada for feito em contrário, o stress irá agravar-se ao longo do tempo, podendo desencadear graves consequências para a nossa saúde”. 

Inicialmente, consoante a explicação do psicólogo, os sintomas podem ser fino, mas quando o stress causa diarreia, dores no peito, queda de cabelo, manchas na pele, dor de barriga, dores nas costas, tonturas, entre outros sintomas exuberantes, trata-se da degradação da qualidade de vida. 

“Os sintomas de stress são a forma que o organismo encontra para nos informar das alterações. Mãos transpiradas, batimento forte do coração antes de efectuar qualquer coisa, são sinais típicos, mas muitos outros afectam o nosso corpo (sintomas físicos) e mente (sintomas psicológicos) ”, indica.

O cansaço mental, a perda de memória, falta de concentração, ansiedade e irritabilidade excessiva são alguns dos sintomas do stress emocional, conforme Nilson Mendes. 

“Assim como alterações no humor (mau humor constante), agitação psicomotora, incapacidade de relaxar, sensação de solidão e isolamento e a negligência face às responsabilidades”, prossegue.

Por outro lado, o psicólogo aponta alterações no apetite, tiques nervosos ou herpes como sintomas físicos. 

Gerir o stress 

Para Leida Moniz, divertir-se nos finais de semana é a melhor forma de combater o stress semanal. Para a contabilista, estar com os amigos e familiares como forma de dar risadas e brincadeiras é a melhor forma de recarregar as energias e relaxar. 

Em contrapartida, Orisanda Furtado revela que para além de falar com uma psicóloga para desabafar e ser aconselhada passou a praticar exercícios. 

“Todos os dias faço caminhada por mais ou menos uma hora. Outra coisa que me ajuda muito é ver televisão. Quando estou stressada, vejo o jornal da noite ou novelas e procuro ocupar o meu tempo com leitura”, revela a administrativa/financeira, argumentando que com essas actividades sente-se aliviada. 

Para Nilson Mendes, gerir o stress é saber gerir os limites além de provocar um sentimento de auto-eficácia, força, optimismo e sentido de coerência. Não ser demasiado auto exigente, procurar aspectos positivos e rever as razões pelas quais se deve sentir grato, são algumas das recomendações do psicólogo na gestão do stress.

“Se continuar a sentir que não consegue gerir o nível de stress é importante procurar ajuda profissional”, aconselha.

Um estudo publicado este ano pela European Heart Journal, constatou que empregados que sofrem de stress crónico têm 68% mais chance de desenvolver doenças cardíacas. Além disso, diversas pesquisas garantem que o problema aumenta o risco de desenvolvimento de cancros e até mesmo doenças oculares.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 935 de 30 de Outubro de 2019. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,2 nov 2019 8:58

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  13 nov 2019 21:19

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