Espaços verdes, uma necessidade urbana

PorSheilla Ribeiro,16 nov 2019 10:04

A necessidade de espaços verdes urbanos é uma das consequências da evolução que as cidades têm sofrido ao longo do tempo. A cidade da Praia, por sua vez, dizem os mais críticos, não oferece aos seus habitantes áreas verdes que garantam a salubridade e a qualidade de vida na cidade, apesar de já se estar a notar alguma coisa.

Para o arquitecto César Freitas, a arborização nas cidades é fundamental, não só para a criação de um ecossistema e poder ajudar a biodiversidade, mas também porque através das árvores se mantêm a fauna e a flora.

“E nas cidades, nós podemos ter a arborização para as pessoas poderem ter espaços de sombreados, além de que nós passamos a ter uma cidade com um aquecimento menor”, prossegue, explicando que nesse sentido, as pessoas passam a transitar de forma mais confortável, promovendo a mobilidade pedonal. 

Para além de absorver o dióxido de carbono, as árvores contribuem, de acordo com a mesma fonte, para a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. Portanto, as florestas urbanas são fundamentais. 

“Felizmente a cidade da Praia tem estado com alguma preocupação neste sentido, mas nós temos de acelerar o passo para podermos ter melhor conforto e maior qualidade de vida nas cidades em Cabo Verde”, argumenta o arquitecto. 

Outro ponto de vista 

De outro lado, Avelino Pires, Director da Quercus Cabo Verde define Florestas Urbanas como sendo uma pequena zona florestal, situada dentro ou próxima a uma cidade, que tem uma grande importância na manutenção da Biodiversidade das espécies, uma vez que, apesar das influências das cidades e dos seus habitantes, estas conservam grandes variedades de plantas e muitos animais acabam por encontrar o seu habitat nessas zonas.

“Na maioria das grandes cidades mundiais, são definidos como ‘Pulmão Verde’ porque contribuem para mitigar a poluição química e sonora, reduzir o efeito do calor, aumentar a disponibilidade e qualidade da água, reduzir a erosão e melhorar a qualidade do ar, entre outras valências”, aclara. 

Em Cabo Verde, conforme o director da Quercus Cabo Verde, ainda não há uma área vasta que pode ser considerada como uma floresta urbana. Apesar disso, prossegue, existem algumas zonas dentro e perto das cidades que podem contribuir para minimizar os efeitos provocados pelas construções, as indústrias e as alterações climáticas. 

“Na cidade da Praia, por exemplo, temos algumas zonas com alguma vegetação como são os casos do Fundo de Cobom, perto do Praia Shopping, assim como a zona de Taiti, que deveriam ser preservadas e requalificadas, mas que certamente vão desaparecer no futuro, devido ao avanço das construções”, acrescenta. 

Por isso, diz, é preciso, desde já, acautelar estas questões para que se possa ter cidades onde a qualidade de vida das pessoas, o seu bem-estar, seja sempre uma prioridade e esteja intimamente ligado à Natureza. 

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Como criar espaços verdes? 

César Freitas explica que há várias formas de se aplicar as florestas urbanas, ou espaços verdes nas cidades. Entretanto, avança que não podem ser feitas de forma casuística nem de forma aleatória. 

“A meu ver, seria muito importante a arborização, por exemplo das principais conexões dos diferentes bairros. Isso não só faz com que a biodiversidade, as diferentes espécies também consigam ter um caminho e mover dentro dessa floresta, como também faz com que as pessoas mais facilmente e mais confortavelmente transitem de um bairro para outro de forma agradável e pedonalmente”, diz, acrescentando que as cidades ficam mais bonitas. Isso porque, acrescenta, “as árvores também transmitem uma beleza paisagística interessante” ao meio urbano. 

Segundo o arquitecto, seria uma grande aposta os municípios, e de uma forma geral, a sociedade, ter na sua prioridade, assim como habitações, estradas e passeios, a arborização na agenda dos decisores e executores da cidade.

“Porque fazer uma cidade e as suas conexões e não promover a arborização, penso que é adiar algumas vantagens que as árvores trazem, por exemplo, para a economia, para a competitividade das cidades”, justifica. 

Por exemplo, clarifica que uma das vantagens seria resolver os problemas dos desastres naturais, consolidação das encostas, infiltração das águas pluviais e carregar o nível das águas subterrâneas. 

“Isso tudo são vantagens económicas e naturais que beneficiaria a cidade grandemente e seria algo que toda a sociedade poderia envolver-se e teria um custo muito reduzido. Ou seja, seria de alto impacto, mas de baixo custo”, fundamenta. 

Selvas de betão

José Jorge Pina, da Associação Pró Praia, descreve alguns bairros da capital como sendo “autênticas selvas de betão e de construção de habitações”. Por isso, advoga que apesar dos esforços que se tem feito para melhorar a situação, como por exemplo a intervenção na zona do Cobom, o tratamento de algumas encostas e a criação de praças, há muito por fazer.

“A Câmara Municipal da Praia pode demolir e favorecer construções noutros locais, assistidas pelo Governo e pelo Edil. Só assim poderá ser possível equilibrar a situação. Portanto, demolindo habitações ou reservando áreas para espaços verdes e equipamentos sociais, a cidade da Praia pode ser uma cidade equilibrada no futuro”, opina. 

Na mesma linha, Avelino Pires alude que a expansão da cidade horizontalmente, implica investimentos na urbanização de novas zonas, o que poderá constituir um problema devido aos escaços recursos disponíveis, entretanto, as autarquias devem sempre ter em consideração a necessidade de reservarem áreas para a construções de praças e espaços verdes devido à sua importância. 

“Nas zonas onde já não é possível fazer este tipo de planificação, é preciso incentivar novos tipos de construção, mais sustentáveis, que incluem jardins verticais ou no tecto dos edifícios, assim como a criação de hortas urbanas, que tem um grande papel na economia das famílias, assim como pode ser terapêutico para as pessoas mais idosas e reformadas”, considera. 

É preciso, consoante a mesma fonte, sensibilizar a população para uma maior” gestão dos recursos hídricos, assim como apostar fortemente no tratamento das águas residuais, que podem ser reutilizados na manutenção dos espaços verdes. 

Funções, usos e benefícios dos espaços verdes nas cidades 

Segundo o dirigente da Quercus Cabo Verde, no nosso país mais de 60% da população vive nas cidades e, devido ao aumento das construções nos centros urbanos e aos aumentos sucessivos da temperatura nos últimos anos, os espaços verdes ganham uma importância ainda maior. 

“Estes podem desempenhar importantes funções da vegetação, devido à falta de chuva, assim como ter uma influência directa no controlo do microclima da cidade, contribuindo para a sua amenização através das suas propriedades termorreguladores, controlo da humidade, controlo das radiações solares, absorção doe dióxido de carbono e aumento do teor em oxigénio”, garante. 

Estando a maioria dos municípios em fase de requalificação urbana, informa, os espaços verdes podem também ser úteis na separação física do trânsito automóvel da circulação de peões, assim como podem ser enquadradas numa rede contínua de percursos dos mesmos e servirem de zonas de jogo, lazer e recreio, dependendo da sua tipologia. 

“Podem também ter um papel importante na ligação dos vários espaços diferenciados entre si e na amenização de diferentes contrastes”, acresce. 

Avelino Pires relembra que a Quercus Cabo Verde tem chamado a atenção sobre a necessidade de se apostar na criação de mais espaços verdes, assim como na conservação daqueles que já existem.

“Esta exigência tem sido levada em consideração em quase todas as obras de requalificação urbana levada a cabo nos últimos tempos, tanto pelos municípios como pelo Governo, o que nos deixa muito satisfeitos, apesar de considerarmos que estamos longe de atingir os patamares desejados”, complementa. 

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Onde poderia ser verde? 

José Jorge Pina considera que a cidade da Praia está mal servida em termos de espaços verdes tendo em conta a sua extensão e em relação aos metros quadrados ocupados por construções urbanas e comerciais.

“Limitaram-se a dar todos os metros quadrados existentes na cidade da Praia e raramente ficou uma área que deve ser reservada a espaços verdes, a espaços de lazer, a equipamentos sociais”, afirma o activista para quem a localidade do Palmarejo, por ser um bairro recente, tinha toda a hipótese de ser aquilo que não se fez durante anos”. Prosseguindo, diz que no Palmarejo deveria haver um espaço verde para o conforto da população.

“Eu queria dar um exemplo típico que traz muita amargura para a cidade da Praia. O que se está a fazer com Taiti. Muitos de nós, tínhamos esperança que Taiti fosse o nosso parque da cidade. Os engenheiros e arquitectos e muita gente da força social da Praia já escreveu e todos nós estamos ainda à espera que se corrija o Taiti e se desenvolva um Taiti verde”, afirma. 

Para José Jorge Pina, aquele é o único espaço central onde havia esperança de ver um espaço verde, com fontes, com bancos e um espaço livre para fazer feiras e outros recursos existentes em outras cidades. 

No que diz respeito à floresta urbana na encosta do Liceu Domingos Ramos recentemente inaugurada, opina que é um caso em que foi bem aproveitado o financiamento verde da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) para florestas urbanas. Entretanto, alega que gostaria de ver esse financiamento repartido com Taiti de modo a haver uma grande faixa verde.

César Freitas fala em oportunidade perdida no que se refere à praça do Palmarejo, que descreve como sendo um dos bairros mais populosos do país e da cidade, que poderia beneficiar-se com um espaço verde. Esses espaços, conforme diz, serviriam para o encontro de pessoas, da biodiversidade de modo a ter o chilreio dos passarinhos, espécies da fauna e da flora, constituindo-se assim, num promotor de uma nova realidade verde naquele bairro. 

“E depois, esse polo poderia ser catalisador do desenvolvimento dos outros eixos urbanos que conectassem com outros bairros, nomeadamente, a Avenida de Santiago e a Avenida que vai para Tira Chapéu e para a Cidadela”, explana. 

Poderiam ser, segundo o arquitecto, eixos fundamentais para a arborização para que a biodiversidade se expanda e penetre nos bairros, de forma a contaminar a cidade inteira. Apesar de considerar que a praça daquele bairro foi uma oportunidade perdida de se ter um espaço verde, afirma que as cidades são resilientes e que no futuro irão ser encontradas outras soluções, noutros locais.

“Um outro local que penso e que inclusivamente nós fizemos um estudo preliminar por nossa iniciativa, foi a zona de Cobom onde já existe, digamos, uma minifloresta e a nossa ideia era fazer com que essa floresta fosse muito mais humanizada “, manifesta. 

Por outro lado, advoga, que a minifloresta do Cobom poderia ser rentabilizada para a criação de um viveiro, para a criação de uma estrutura económica que pudesse produzir as espécies nativas e adaptáveis ao nosso clima e pudessem ser comercializadas para toda a cidade. Com isso, as pessoas podem “replicar e plantar” essas árvores noutros sítios como em suas casas ou nos seus jardins.

O Expresso das Ilhas tentou ouvir a Câmara Municipal da Praia, mas as várias tentativas revelaram-se infrutíferas. Em contactos com o Gabinete de Comunicação e Imagem da referida autarquia ficamos a saber que o vereador responsável pela área encontra-se fora da cidade.

Sensibilizar as pessoas para a importância das árvores

O director da Quercus Cabo Verde reforça que nos últimos anos foram realizadas várias campanhas de plantação de árvores, tanto nas escolas como nas comunidades, o que tem contribuído de forma positiva para a vida nas cidades.

“Entretanto, é preciso continuar a apostar na Educação Ambiental, realizando campanhas de sensibilização através dos meios de comunicação social e das redes sociais, para que possamos ter uma sociedade cada vez mais amiga e comprometida com o meio ambiente”, avisa. 

Apear da Quercus Cabo Verde ter realizado várias actividades com vista a sensibilizar a sociedade civil para a importância da plantação das árvores, o dirigente diz que é preciso que as escolas estejam mais envolvidas nessa questão e que através dos núcleos ecológicos existentes realizem campanhas de sensibilização dentro das escolas e nas comunidades onde estão inseridas. 

“Toda sociedade deve estar envolvida para que possamos ter um país cada vez mais sustentável a nível ambiental”, finaliza.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 937 de 13 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,16 nov 2019 10:04

Editado porJorge Montezinho  em  5 ago 2020 23:21

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