“Não queremos jovens de mãos estendidas, queremos que as usem para programar” - Pedro Lopes

PorJorge Montezinho,15 fev 2020 8:51

Pedro Lopes
Pedro Lopes

O Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável – PEDS 2017/2021, tem como um dos objectivos transformar Cabo Verde numa plataforma digital, ancorada numa visão estratégica de Hub ICT, com alicerces sólidos de conectividade, desenvolvimento de capacidades e plataforma de serviços.

Neste contexto do Cabo Verde Digital está a ser construído o parque tecnológico e acabam de ser lançados projectos como a Bolsa Cabo Verde Digital e a Academia de Código. Para perceber o que é este ecossistema digital, o Expresso das Ilhas falou com Pedro Lopes, Secretário de Estado para a Inovação e a Formação Profissional.

Começando pela agenda digital, o que é, no fundo?

A agenda digital do governo é dividida em duas partes: uma, que é a parte da governação digital, que cabe à minha colega secretária de Estado Edna [Edna Oliveira, secretária de Estado para a Modernização Administrativa], e a parte da economia digital, que me cabe a mim. Nesta parte temos vários objectivos, queremos ser um prestador de serviços para o continente, queremos também que a partir daqui se localizem várias empresas e utilizar o nosso parque tecnológico como um hub de inovação. E o que queremos também é apoiar o ecossistema local e é assim que nasce o Cabo Verde Digital. Apresentámos este projecto em Lisboa, no âmbito do Web Summit, onde fomos um dos primeiros países africanos a ter um stand, e no seguimento, no dia depois, no Convento de São Pedro de Alcântara, com o Comissário Moedas [Carlos Moedas Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação], com vários embaixadores e empreen­de­dores, apresentá­mos o Cabo Verde Digital. E agora começam as concretizações.

Qual é o objectivo?

O objectivo do Cabo Verde Digital é reforçar o apoio à comunidade ICT [Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC], fazendo com que tenhamos um verdadeiro ecos­sistema, onde existe uma ligação entre talento, universidades e empresas, e também reforçar o empreendedorismo digital e as competências digitais. Este é que é o Cabo Verde Digital.

E que desafios podemos antecipar?

Bem, são os próprios que a inovação exige: que andemos muito depressa. E este é o grande desafio, fazer as coisas rápido, óbvio que não é fazê-las de forma apressada, mas rápido, com qualidade e visão de futuro e testar soluções. Se não testarmos soluções, se fizermos sempre as mesmas coisas esperando resultados diferentes, que é a definição de loucura de Einstein, não chegamos a lado nenhum. É preciso testar soluções diferentes.

Que soluções diferentes querem experimentar?

Resolvemos trazer para Cabo Verde um curso intensivo de programação, uma parceria internacional com a Academia de Código, que está presente em vários países, já formou mais de mil programadores, com estes formandos a terem histórias curiosas porque são desde pessoas que trabalhavam num bar e hoje são programadores da Comissão Europeia, e queremos trazer essas histórias para Cabo Verde. Queremos tornar a formação profissional em algo sexy, uma formação profissional virada para uma nova geração. É normal que os jovens queiram estar relacionados com o que os rodeia e os computadores e os telemóveis estão presentes na nossa vida. porque não transformá-los em instrumentos de trabalho para que possam melhorar o seu futuro? É isso que queremos. O processo de candidatura está aberto até ao final de Fevereiro. Em três dias já tivemos mais de 350 candidaturas, não é preciso ter uma formação específica, pode ser um advogado, como pode ser uma pessoa que trabalha na construção civil, as únicas condições são estar desempregado, ter até 35 anos e que fale um bocadinho de inglês. O processo de selecção vai ser rigoroso e queremos, num ano, formar cem jovens cabo-verdianos nesta área. A Academia de Código ajuda-nos também na empregabilidade dos jovens, não estão só na formação, mas também estão na empregabilidade. Cumprindo e finalizando o curso, a própria academia vai procurar colocar esses jovens no mercado de trabalho, e eles têm uma taxa de empregabilidade de cerca de 98% porque é uma área que tem uma procura muito grande, e vão colocá-los aqui, em empresas cabo-verdianas, em empresas que não são cabo-verdianas, mas que estão neste momento a vir para Cabo Verde e querem programadores, e o compromisso é que a partir do momento que tivermos 100 jovens formados vamos conseguir atrair empresas para o país. Basta ver o que aconteceu noutras paragens que têm as mesmas características que Cabo Verde, como os Açores, que fizeram algo parecido na Ilha Terceira e converteram em programadores pessoas que nunca imaginaram ter esse futuro. Acredito que os jovens, mesmo os que estão desmotivados, têm potencial. Temos de ser nós a trabalhar esse potencial e da parte deles também tem de haver querer.

Falou do ecossistema digital, que está ainda a ser criado, ou seja, também se pode estar a dar competências aos jovens que eles podem aproveitar para deixar o país e irem trabalhar, por exemplo, para os Açores.

Acreditamos que isso não vai acontecer, porque estamos a finalizar a construção do nosso parque tecnológico, temos manifestações de interesse de várias empresas que querem localizar-se lá, estamos a reforçar a nossa conectividade e um jovem se tiver opção de ficar no seu país, ele prefere ficar. Quem tem talento e vontade, porque é preciso muita vontade, de mudar a sua vida, nós queremos que fiquem em Cabo Verde.

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Mas, além deste programa, há ainda a Bolsa Cabo Verde Digital.

O nosso objectivo aqui é também muito claro: criar 50 empresas start-ups de base tecnológica em Cabo Verde, apoiando até 100 jovens, porque poderão ser até duas pessoas por start-up. Temos várias histórias de jovens que têm os seus trabalhos normais, porque precisam de pagar contas, mas que ao fim-de-semana estão a programar porque essa é a sua verdadeira paixão, ou formação. O que queremos? Dar uma força para esses jovens, mostrar que não têm de estender a mão para ninguém, e que possam eles próprios construir o seu futuro. O que vamos fazer? Apoiar cada jovem com 30 mil escudos, 60 mil se forem dois, durante seis meses, o tempo que consideramos propício para que eles possam testar a sua ideia no mercado. Queremos também que haja um acompanhamento empresarial através da Pró-Empresa e a novidade é que estas empresas start-up vão ser incubadas em ambiente profissional ou académico, são as empresas – neste caso CVTelecom, UNITEL – e as nossas universidades e a NOSi que vão dar espaços para os jovens, fornecer o equipamento, Internet, electricidade, etc., ou seja, só vão ter como preocupação transformar a sua ideia em negócio.

Nem todas terão sucesso.

É óbvio que nem todas terão sucesso, mas há outras que vão ter e, de certeza, que a segunda tentativa vai correr melhor, a terceira melhor ainda, e criamos também um espírito de empreendedorismo virado para o futuro. E mais, não vai ser o governo a escolher as start-ups, vão ser as empresas e instituições que recebem os jovens, respeitando, como é óbvio, os requisitos que estabelecemos como a idade, etc. Ou seja, a CVTelecom ou a UNITEL podem escolher start-ups que forneçam serviços de que precisam, criando assim também oportunidades de negócios.

De qualquer maneira, estamos a falar só de questões de, podemos dizer, software, porque a nível de hardware há ainda um trabalho longo a ser feito no país; falo das auto-estradas digitais, da protecção da propriedade intelectual, da fibra óptica, da investigação, da transferência de tecnologia das universidades para o mercado, da banda larga, etc. Ou seja, por muito que alguém queira programar e vender o seu produto, se a internet falha um dia ou dois, lá se vai o negócio, ou mesmo no e-commerce, se não conseguir mandar os seus produtos daqui para qualquer parte do mundo, lá se vai o negócio também.

Sinceramente, considero até que a parte do hardware tem sido trabalhada mais do que a parte do software. Estamos a construir um parque tecnológico que estará finalizado em 2020, temos também um parque tecnológico, mais pequeno, em São Vicente. Fizemos um investimento grande no Ella Link [cabo submarino] que vai reforçar a nossa conexão com o mundo, estamos ainda a pensar como podemos reforçar mais ligações com cabos a Cabo Verde, todas as escolas de Santiago têm fibra óptica, que foi reforçada há pouco tempo, temos wifi a chegar a todas as escolas do país, temos os Web Lab em quase todas as escolas do país, temos projectos como no Maio, onde toda a ilha está coberta com wifi, temos mais de cem praças digitais com acesso gratuito à Internet, ou seja, temos dado passos importantes. Agora, e por isso é que estamos a fazer este esforço, temos de transformar também os nossos jovens para guiarem o carro que estamos a construir.

Essa é outra questão: como pensam motivar as pessoas para a tecnologia?

Temos esse desafio, mas também é papel do governo criar e mostrar as oportunidades do digital, mostrar que um computador ou um telemóvel são instrumentos e ferramentas de escala social. Não queremos jovens eternamente dependentes do governo, nem a estender a mão, queremos que as mãos sirvam para programar e para construir o Cabo Verde Digital que queremos. Somos um país prestador de serviços, aliás, somos conhecidos por vender soluções de governação electrónica para outros países africanos, porque não vender soluções empresariais? Eu não sei quem fez as aplicações que estão no meu telemóvel, e não preciso de saber, se tiverem qualidade e me prestarem um serviço útil não preciso de saber de onde vêm, é isso que queremos fazer. Acreditamos na qualidade dos nossos jovens, mas não basta acreditar, há que lhes criar oportunidades e, de certeza, que eles as saberão agarrar. Queremos que os jovens saibam, não só utilizar a Internet para o Facebook ou para o Viber, mas também para promover o seu negócio.

No fundo, a mudança mental de apenas consumidores para também produtores.

É exactamente isso. Mas ainda dentro do Cabo Verde Digital temos outros projectos. Posso antecipar o Digital Praiadise, que é atrair nómadas digitais para Cabo Verde, com um quadro legal e conectividade. A partir do momento que tivermos conectividade, a partir do momento em que tenhamos um quadro legal interessante, tenho a certeza que os nómadas digitais vêm para Cabo Verde e irão acrescentar valor à nossa comunidade. Temos também o programa Entrepeneur in Residence, com o objectivo de trazer para o país empreendedores de base tecnológica, onde possam passar a sua experiência aos nossos jovens, e temos outros programas que iremos anunciar com o passar do tempo, mas o Cabo Verde Digital é isto, medidas com impacto e que a retórica esteja acompanhada de criação de oportunidades. É interessante referir esse transformar a retórica em algo prático, caso contrário, esta Agenda Digital não passará de um catálogo de boas intenções. Claro. E é isso que estamos a mudar. Nós queremos anunciar e concretizar, e testar novas ideias.

Aliás, Cabo Verde pode funcionar como um laboratório.

Pode, não só um laboratório para testar programas novos, mas também um laboratório empresarial, desde que mantenha e respeite o nosso meio ambiente, desde que respeite as pessoas que cá estão. Estamos completamente abertos para que novas soluções sejam testadas em Cabo Verde; carros sem condutor, drones que podem transportar produtos, estamos abertos a qualquer indústria que queira testar as suas soluções tecnológicas em Cabo Verde e abertos a ser flexíveis em relação à nossa legislação, cumprindo, claro, o que disse em cima.

No campo tecnológico o comportamento costuma ser esse: experimentem primeiro que depois logo se vê a regulação. Em Cabo Verde geralmente é ao contrário: regula-se demais e não há espaço para grandes experiências.

Pois é, mas temos de ter as nossas start-ups a desafiar a legislação. Se calhar, como membro do governo não devia estar a dizer isto, mas a verdade é que queremos que as nossas start-ups, primeiro que tudo, façam coisas, depois lá encontraremos o enquadramento legal.

Pela nossa conversa, vejo o governo a ter um papel de locomotiva de todo este processo, mas quem deve, de facto, impulsionar a adopção das tecnologias? O governo? Os cidadãos? Os operadores? As empresas?

É uma pergunta interessante. Eu acredito que o governo não pode ser a locomotiva do desenvolvimento tecnológico de um país, têm de ser as start-ups, os jovens, as universidades, as empresas estabelecidas que apostam na inovação e na investigação, e isso é algo que tem de acontecer cada vez mais em Cabo Verde. Ao governo cabe o papel de criar oportunidades. É óbvio que se não criarmos oportunidades para formar os jovens, para lhes dar visibilidade, para internacionalizar as suas ideias, eles não o conseguirão fazer. Daí este esforço contínuo do governo.

Qual é o patamar de consciência tecnológica em que está a sociedade cabo-verdiana?

Na minha opinião, temos de reforçar a literacia digital da população cabo-verdiana. E estamos a consciencializar as pessoas para a importância da Internet. É importante que possamos combater também os novos desafios e perigos da Internet, e falo em fake news, algo que me preocupa porque ultimamente começam a atingir um nível cada vez mais preocupante e isso divide-nos cada vez mais. Quando falo em dividir estou a falar em questões de religião, de raça. A Internet deve ser uma ferramenta para partilha de ideias e de união e o cabo-verdiano sempre teve um sentimento de comunidade muito forte, mas está provado que as redes sociais catapultam, essencialmente, sentimentos negativos e as pessoas têm tendência para partilhar coisas negativas. Não proibir, mas reforçar a literacia digital. Estamos a pensar também num programa de literacia digital, não só para os mais jovens, mas também para os que têm mais idade, porque há cada vez mais avós em Cabo Verde a navegar e queremos que o possam fazer de forma segura.

Uma última questão, recentemente o ministro das Finanças disse que seriam alocados os recursos financeiros, humanos e institucionais necessários para esta agenda digital. Nesta entrevista vimos todos os projectos que já existem e os que vão surgir, por isso, se as coisas não correrem como planeado, a responsabilidade será de quem?

Quando falamos em governo, falamos no país, não há governo de um lado, cidadãos do outro. O que eu penso, e por isso falamos em ecossistema, é que todos nós estejamos unidos e na mesma direcção. No ICT não há partidos políticos, não há interesses particulares, há Cabo Verde. Nós queremos fazer com que as universidades, os empresários, os empreendedores, os talentos e os decisores políticos possam entender quais são os desafios, antecipar as tendências e criar oportunidades para que as pessoas as aproveitem. Se falhar, falhamos todos. Não acredito que vamos falhar, a história tem mostrado que Cabo Verde sempre soube aproveitar as oportunidades e acompanhar as tendências do mundo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 950 de 12 de Fevereiro de 2020. 

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Autoria:Jorge Montezinho,15 fev 2020 8:51

Editado porFretson Rocha  em  30 out 2020 23:20

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