COVID-19 :Universidades em alerta com laboratórios e recursos humanos

PorSheilla Ribeiro,16 mai 2020 8:30

A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) e a Universidade Jean Piaget mostram abertura em colocar os seus laboratórios e recursos humanos à disposição das autoridades sanitárias para trabalhos de investigação e análise do novo coronavírus em Cabo Verde. A Universidade Técnica do Atlântico (UTA), em São Vicente, por seu lado, diz não ter uma estrutura física laboratorial adequada, mas afirma ter profissionais formados e capacitados para colaborar em outros espaços.

Em declarações ao Expresso das Ilhas, o docente da Universidade Técnica do Atlântico, o biólogo Evandro Lopes, afirmou que aquela instituição de ensino possui “um laboratório capacitado em termos humanos”, tanto é que, frisou, tem, neste momento, pessoas que trabalham noutras áreas que “já foram capacitadas e entendem muito” da estação, verificação, DNA e fazer essas coisas. Quanto aos equipamentos, defendeu, “é só fazer uma formação mínima” com os equipamentos necessários.

Conforme explicou este responsável, o laboratório de biologia molecular tem como valências primárias a catalogação de espécies de peixes, moluscos, toda a vida que existe basicamente no arquipélago de Cabo Verde.

“O laboratório não está equipado para ajudar na luta contra a COVID-19. Existem muitas regras essenciais do caso da COVID-19 e um laboratório não está equipado para isso. Uma delas é a técnica de PCR, que nós fazemos, mas é a Reacção em Cadeia de Polimerase (PCR) normal. A técnica de PCR que é feita para a COVID é um real time PCR, ou seja, em tempo real. Então, a nossa técnica, o equipamento, mesmo de real time PCR, nós não temos”, elucidou.

Um outro aspecto, apontou, é que um laboratório de medicina humana, ligada a essas questões de doenças que contaminam o homem, tem certas regras quanto à compartimentalização do laboratório. “Cada equipamento em espaço fechado tem de estar em ambiente climatizado, regular a temperatura, a entrada de pessoas, regular muitas coisas. O nosso laboratório é um espaço mais aberto onde fazemos muita coisa num mesmo espaço”, explicou.

Evandro Lopes referiu ainda não ver como o laboratório, em si, fisicamente, poderia ajudar em muita coisa, porque, conforme ressaltou, os laboratórios lá fora, muitos deles, já estão compartimentalizados e eles conseguem usar extrações não evasivas, usar amostras não evasivas por ter toda as condições.

“No nosso caso, tinha de haver um investimento muito grande para fazer isso. Seria mais interessante pegar um laboratório normal de estudo de patologias normais – nós temos vários laboratórios aqui em Cabo Verde inclusive laboratórios públicos – que já têm um sistema de compartimentalização e com reciclagem do ar, esses sim, é só pegar neles e colocar o equipamento necessário. Os recursos humanos poderiam ser aproveitados, só tinham que ter uma acção de formação de reciclagem no equipamento real time PCR”, referiu.

Mudança de foco

Para este docente universitário, já é hora de se começar a pensar em laboratórios de biologia molecular em Cabo Verde.

“No nosso caso em particular, nós temos entraves enormes na aquisição de equipamentos, reagentes, dentre outros, porque mesmo que nós consigamos um projecto para ir lá fora buscar esses equipamentos e reagentes para trazer, depois as taxas alfandegárias, a burocracia associada a isso torna tudo muito cansativo. Isso impediu que nós pudéssemos ter crescido e ficamos confinados à universidade”, prosseguiu.

Por tudo isto, advoga, já é tempo de se começar a equacionar a existência de um laboratório de biologia molecular “para toda e qualquer coisa”.

“Estou neste momento a fazer o doutoramento numa universidade em Portugal e eles têm um centro de investigação e já nos enviaram mensagens para que quem estiver apto, ou que quiser ajudar pode ir ao laboratório apoiar nos trabalhos com a COVID-19. O que fizeram lá foi só pegar em todo o material que era desnecessário dentro do laboratório, retiraram e deixaram somente o material para extracção e aplicação da COVID-19. Ou seja, os laboratórios de lá já estão equipados fisicamente para isso”, contou.

Já em Cabo Verde, disse, “os melhores laboratórios estruturados fisicamente não trabalham, estão fechados”.

“Os laboratórios mais pequenos estão dentro nas universidades a desenvolver trabalhos de investigação. Somos pequenos mas muitas vezes queremos dar o nosso contributo e o factor patrimonial não nos deixa”, complementou.

Universidade Jean Piaget

Hélio Rocha, da Univer­sidade Jean Piaget de Cabo Verde, explicou que, numa perspectiva geral, aquela instituição de ensino superior tem cinco laboratório relacionados com a área da saúde.

“Temos um pequeno laboratório pertencente ao grupo de investigação de doenças tropicais, outro laboratório de biologia geral, um laboratório da química geral, um laboratório de enfermagem e o maior, se calhar o maior laboratório de Cabo Verde, o de fisioterapia”, especificou.

Neste momento, a única condição que a universidade teria disponível, caso fosse solicitado, seria no diagnóstico a nível de anticorpos. “Que é o exame da espectrometria e então poderíamos ajudar nessa parte de detecção de anticorpos”, acrescentou.

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Até agora, disse Hélio Rocha, a instituição não foi solicitada para nenhuma ajuda. Caso contrário, completou, já teria disponibilizado os equipamentos e os espaços. “O que nos falta em equipamentos não nos falta em termos de recursos humanos. Pelo menos na área da saúde”, acrescentou.

Dentre várias acções levadas a cabo no âmbito desta pandemia, este responsável indicou que a universidade está a participar de uma plataforma científica para a recolha de informações para depois disponibilizar para toda a comunidade. “Há produção de uma média de 30 artigos por dia relativamente à COVID-19 e há a necessidade de uma equipa gerir toda essa informação”, revelou.

“Eu vejo isso com muito interesse porque era bom que houvesse em Cabo Verde, como começamos a ter pessoas recuperadas, um stock de plasma que podessem ser utilizadas em pessoas que estejam em risco eminente de morte pela COVID-19 e, ao administrar esse plasma, que já tem anticorpos contra o vírus teríamos uma evidência bem robusta visto já possuir vários outros elementos e fortes evidências que podem solucionar a questão a COVID-19. É com muita satisfação que ouvimos essas notícias de que já há várias pessoas recuperadas. Daí fazer a doação de plasma para se ter um estoque”. defendeu.

Apostar numa agência científica

Hélio Rocha disse acreditar que há a possibilidade de apostar numa agência científica em Cabo Verde no sentido mais biológico, ou das ciências da vida, áreas que estão sendo postas em evidência neste momento. Isso para se conseguir dar respostas e saber quantas pessoas estão infectadas. Entretanto, alegou, “esta ciência precisa de equipamentos”.

“Podemos conseguir esses equipamentos lá fora. Outros países já estão 100 ou 200 anos mais avançados que nós e a diferença entre nós e esses países mais desenvolvidos é um abismo enorme em termos de ciência”, prosseguiu.

Ainda defendendo o seu ponto de vista, este interlocutor acrescentou que nesses países esses laboratórios de investigação já conseguem grandes projectos de um milhão e meio de dólares ou dois para um laboratório satisfatório.

“Assim, eles conseguem comprar grandes equipamentos e fazer uma ciência fina. Mas de que pouco se fala é que eles não começaram sozinhos, começaram com pequenos laboratórios financiados pelo estado. O estado foi lá, perguntou o que é que precisavam minimamente para dar os primeiros passos”, referiu.

Por isso, disse achar que em Cabo Verde se está a falhar neste aspecto. Segundo afirmou este professor universitário, se um investimento no mínimo de 10 mil contos fosse feito em equipamentos de pesquisa básica nas universidades e públicas ou privadas que tenham pessoas e know-how para trabalhar na área da biologia molecular, pelo menos 4 ou 5 laboratórios das universidades em Cabo Verde estariam em perfeitas condições para dar a resposta juntamente com o Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP).

“Por vezes estamos a falar de um investimento de 200, 150 contos e não são equipamentos descartáveis, são equipamentos que vão ser utilizados, muitas vezes, por vários anos. Se tivéssemos pelo menos mais 5 aparelhos de PCR distribuídos pelas universidades, facilmente faríamos diagnósticos num tempo mais curto”, defendeu, completando que “são equipamentos para detectar qualquer coisa que tenha DNA ou RNA”.

No Verão, exemplificou Hélio Rocha, quando ocorre uma virose, com esses equipamentos poder-se-ia investigar as viroses e outras coisas, uma vez que, conforme explicou, podem dar respostas a vários problemas, inclusive antecipar muitos outros.

“Temos capacidade para fazer projectos bem elaborados, mas quando não têm condições mínimas não se consegue o apoio financeiro e depois caímos na armadilha de estarmos sempre a associar-nos a um outro investigador de fora”, finalizou.

Laboratórios da Uni-CV não estão equipados para fazer testes da COVID-19

Por seu turno, a Reitora da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Judite Nascimento, elucidou que a universidade possui vários laboratórios, tanto de química, como de biologia, de biologia molecular, de física e também na área da saúde, o de enfermagem.

“Estão bem equipados, mas não estão equipados para fazer testes da COVID-19. Contudo, estão equipados com o material e os equipamentos que são destinados aos objectivos que nós preconizamos. No entanto, competências temos na Universidade de Cabo Verde e, havendo interesse e necessidade de utilização dos nossos laboratórios, nós já nos predispusemos junto do governo”, informou.

Aliás, avançou, a universidade pública já foi accionada no sentido de disponibilizar o espaço na Escola Grande, cidade da Praia, e o espaço em São Lourenço dos Órgãos na escola de Ciências Agrárias e Ambientais, interior de Santiago.

“No que diz respeito ao espaço da Escola Grande, está a ser utilizado pelo hospital para a recolha do sangue e o espaço de São Lourenço está a ser preparado para a eventualidade de haver casos em São Lourenço dos Órgãos e necessidade de algum espaço para colocar as pessoas. Assim, a residência estudantil que nós temos na escola de Ciências Agrárias e Ambientais poderá vir a ser utilizada”, detalhou.

Relativamente a outras condições de participação no combate à COVID-19, disse Judite Nascimento, a Universidade de Cabo Verde, inclusive através do projecto Casa da Ciência, já está a imprimir viseiras para os funcionários, permitindo-lhe maior protecção no momento de atendimento ao público.

Além disso, prosseguiu a reitora, a Uni-CV está a trabalhar num segundo projecto, por iniciativa de uma professora em São Vicente, de produção de máscaras comunitárias para a comunidade académica, mas também desinfectantes que poderão ser produzidos nos laboratórios da universidade em São Vicente. Na Praia, acrescentou, há também um grupo de professores predispostos a produzir desinfectantes para o período pós-quarentena.

“Ainda não temos matéria prima para a produção das máscaras e gel desinfectante. Para as viseiras sim. Já imprimimos algumas com material que tínhamos, mas para desinfectante e máscaras vamos apresentar os projectos aos nossos parceiros a ver se conseguimos financiamento para a matéria prima. Queremos priorizar essas máscaras aos nossos estudantes e às pessoas dentro da Uni-CV podendo, havendo condições, também colaborar com o Governo nesse sentido”, ressaltou.

Judite Nascimento informou ainda que os recursos humanos da universidade também têm colaborado com o Governo através dos investigadores a colaborar com o INSP na organização das estatísticas, no tratamento dos dados, além dos que estão a trabalhar com o ministério das Finanças em projectos que estão a ser desenvolvidos em função de diversas especialidades.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 963 de 13 de Maio de 2020. 

  

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Autoria:Sheilla Ribeiro,16 mai 2020 8:30

Editado pormaria Fortes  em  31 mai 2020 5:19

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