Medicina dentária e covid-19 : Dentistas com custos acrescidos. Preços podem aumentar

PorNuno Andrade Ferreira,14 jun 2020 8:31

Consultórios dentários reabrem, mas dentistas estão confrontados com aumento de despesas com equipamentos de protecção. Profissionais pedem apoio.

Com a evolução da pandemia de covid-19, a actividade da medicina dentária foi praticamente suspensa. O elevado risco de contágio justificou a decisão de encerrar consultórios, excepto para casos urgentes.

Agora, dentro de regras de segurança mais apertadas, os dentistas reabrem as clínicas ou preparam-se para retomar os atendimentos regulares.

Carmelinda Gonçalves, presidente da Associação dos Médicos Dentistas Cabo-verdianos fala de um clima de desafios e incertezas.

“Acho que o principal desafio, neste novo contexto, é fazer as readaptações de hábitos e procedimentos. Obviamente, muito disso tem a ver com as condições financeiras para se implementarem todas as mudanças que são imprescindíveis”, comenta.

“É como se a medicina dentária estivesse a renascer num contexto absolutamente novo. Há que se tomar todo o tipo de cuidados para que as clínicas possam prestar os seus serviços da forma mais segura possível”, acrescenta.

Devido à natureza da sua prática e à proximidade com os utentes, os profissionais de saúde oral estão expostos a gotículas respiratórias e aerossóis que podem ser criados durante os procedimentos.

Depois de dois meses de férias forçadas, Carla Duarte, dentista na Praia, já reabriu o seu consultório.

“Elaborámos um plano de contingência com recomendações de actuação antes, durante e depois da consulta. Não só tivemos o cuidado de reforçar a formação da nossa equipa, como investimos nos equipamentos de protecção individual (EPI)”, observa.

Fatos próprios, calçado impermeável, máscaras FFP2 ou FFP3, viseiras. Alguns dos requisitos deste novo normal dentro de um consultório de medicina dentária.

Alcione Rocha, dentista em São Vicente, complementa que as medidas abrangem várias áreas das clínicas e não apenas o local onde são realizadas as consultas. Procura-se reforçar a higiene e desinfecção de todas as áreas e evitar a aglomeração de pessoas. Antes da deslocação ao consultório, há uma triagem por telefone ou correio electrónico.

“As consultas têm maior intervalo entre elas, adequadas a cada procedimento. Em situações de atraso considerável, contactamos o paciente para um ajuste do horário. Agendamos as consultas cujos procedimentos têm mais aerossóis para as primeiras horas e é feita sempre uma desinfecção após cada paciente. Reorganizámos a clínica. Retirámos as revistas, os brinquedos para as crianças. É obrigatório o uso de máscara na sala de espera”, resume.

Para que tudo fique claro, a Associação dos Médicos Dentistas elaborou um protocolo de atendimento, que já está a ser implementado. Este reforço de segurança sanitária exige investimento num sector que vem de várias semanas de ‘lockdown’.

“Se pensarmos que o aumento [do preço] de alguns EPI foi superior a 1.000%, no mínimo vais gastar mil escudos para te equipares devidamente, multiplicando por dois, porque é para ti e para o teu assistente. Depois, a clÍnica tem que estar com todos os cuidados sanitários em relação ao atendimento. O mais óbvio é que, havendo um aumento do preço desses equipamentos, esse preço seja repartido entre a clínica e os doentes”, defende Carmelinda Gonçalves.

No mercado nacional faltam equipamentos essenciais e a competição internacional é severa. Os dentistas têm procurado contornar os constrangimentos através da união de esforços, como explica Staline Fatuda, médico em São Vicente.

“A classe tem-se unido mais para poder encontrar fornecedores, principalmente em Portugal, onde temos maior facilidade em adquirir. Juntamos esforços para ter uma quantidade que justifique o envio”, concretiza.

“As clínicas não vão conseguir suportar o custo sem repassá-lo para os pacientes. Porém, temos a consciência de que todos, inclusive os nossos pacientes, estão fragilizados economicamente e fazer uma alteração de preços de repente não é o mais indicado e vai criar mais barreiras a pacientes que estão a precisar de tratamentos dentários.

Para já, tudo na mesma. Não existe qualquer decisão sobre o eventual aumento dos serviços odontológicos, até porque no caso de pacientes cobertos com seguro, através do INPS, a tabela é única e não pode ser alterada unilateralmente.

A presidente da associação dos profissionais do sector pede medidas especiais e alerta que a falta de apoios poderá colocar em causa a viabilidade de muitas clínicas.

“Tem que haver algum tipo de financiamento especial. É uma classe que também cria emprego. Não é só o dentista, são os assistentes e toda uma equipa que trabalha dentro e fora dos consultórios. Se não existirem incentivos, muitas não vão conseguir”, apela.

O Director Nacional de Saúde, Artur Correia, afirma que os dentistas privados têm que assumir os seus custos, não obstante um eventual apoio pontual das autoridades.

“Podemos colaborar naquilo que for possível, na medida das nossas possibilidades, mas no meu entendimento os privados têm que assumir os seus custos. Podemos colaborar pontualmente, numa situação emergencial, para apoiar com equipamentos de protecção individual, mas não como um sistema”, preconiza.

Conforme a associação do sector, Cabo Verde conta actualmente com cerca de 150 médicos dentistas.

com Lourdes Fortes e

Fretson Rocha

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 967 de 10 de Junho de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,14 jun 2020 8:31

Editado porAntónio Monteiro  em  2 ago 2020 23:21

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