Os vencedores da COVID-19 : Relatos na primeira pessoa

PorSheilla Ribeiro,20 jun 2020 9:20

A Covid-19, conforme relatam pessoas que por ela foram infectadas, traz um conjunto de marcas e consequências que poderão perdurar por anos.  Essas podem ser as frustrações vividas durante o período de confinamento, assim como o preconceito a que estão sujeitas mesmo após receberem alta.  Os recuperados Ailton Tavares, Ariana Semedo e Rodney Fernandes são testemunhas na primeira pessoa.

Ailton Tavares tem 34 anos, nasceu na ilha do Maio, mas há sete anos que vive na ilha da Boa Vista onde trabalha como cozinheiro no hotel Karamboa, no qual surgiu o primeiro caso em Cabo Verde.

“Eu e minha mulher entramos em isolamento no dia 19 de Março. Os nossos filhos ficaram em casa. Saímos no dia 12 de Abril, depois de fazer o teste. Mas logo no dia 15, as autoridades foram-me buscar porque tinha testado positivo e eu tinha de ir para o confinamento”, relata.

Mas antes, quando regressaram para casa, conta este entrevistado, a saudade era tanta que não resistiram a ir buscar os seus filhos que estavam em casa de uma cunhada, embora sem saberem os resultados dos testes.

“Tínhamos consciência de que deveríamos manter-nos afastados. Por isso, quando estávamos perto deles usávamos máscaras. Num domingo, um colega mandou-me uma mensagem de que já estavam confirmados mais dois casos positivos do Karamboa. Um deles era o meu colega da cozinha. Sou cozinheiro. Não comentei com a minha mulher, até porque naquela hora ela estava a dormir e não queria acordá-la”, revela.

Ailton afirma que ficou “perturbado” com a notícia que acabara de receber e que, logo de manhã, teve de contar à mulher e pedir que as crianças – a mais pequena tem quase três anos e a mais velha, que tem outro pai biológico, tem 10 - fossem mandadas de novo para a casa da cunhada. Os dois adultos, conforme disse, ficaram na mesma casa, mas afastados. Cada um dormia num quarto separado.

“Fui para o isolamento, mas estava muito triste porque a minha mulher ia ficar sozinha, as crianças não estavam. Ela estava psicologicamente abalada devido aos 25 dias afastada dos filhos. Não foi nada fácil. Foi um momento de aprendizagem na minha vida”, prossegue.

Segundo conta as autoridades afirmaram não ter o resultado do teste da sua companheira, apesar de terem feito os testes no mesmo dia. Ailton diz que até hoje desconhecem o resultado do teste PCR da mulher e que, por isso, partem do pressuposto que tenha sido negativo uma vez que ela não foi isolada.

Assintomático e confinado

Ailton Tavares salienta que já chegou a ter gripe que o obrigou a ficar dias deitado. Mas afirma que com a COVID-19 não sentiu “absolutamente nada de especial”. “Acredito que não tive nenhuma complicação porque sou jovem”, supõe.

“O confinamento fez-me pensar muito. Há coisas que acontecem para que a gente tenha uma visão diferente. É um momento em que paras e pensas em tudo aquilo que tinhas a possibilidade de fazer e que simplesmente um vírus impediu-te de fazer. Senti saudades da minha casa”, frisa este recuperado que teve 44 dias sem poder chegar perto da filha.

Com certeza, reiteira, o momento mais difícil durante toda essa história de COVID-19, foi voltar ao isolamento depois de ter saído do Karamboa.

Lembrando dos dias de confinamento, este entrevistado conta que ele e outros doentes tinham de ficar “totalmente afastados” de tudo.

“Nos batiam a porta, abríamos, encontrávamos a comida, mas não víamos nenhum rastro da pessoa que levava a comida. Tudo por causa do medo, mesmo estando protegido. Medo de chegar perto. Nenhum de nós saía do quarto, falávamos um com os outros de longe, já que as portas ficavam num corredor”, continua.

Mas, prossegue afirmando que, com o tempo, foram-se “abrindo” e, vendo que que não estavam ao ponto de não poderem falar uns com os outros, já que estavam todos infectados. O único contacto que evitavam, conforme relata, era com pessoas que não estavam infectadas, justamente para que estas não fossem contaminadas com a COVID-19.

Angústia

Ailton afirma que viveu momentos de angústia durante o período de confinamento por causa da falta de respostas aos exames que poderiam dizer se já estava, ou não, livre da doença.

“Fizeram-me uma primeira recolha e dias depois uma segunda. Só que eu não sabia o resultado da primeira recolha, fiquei pensando no que poderia estar a passar. Depois, quando começaram a sair alguns resultados das pessoas que estavam no mesmo espaço de isolamento que eu, disseram que três pessoas continuavam positivas. Aí fiquei quase maluco”, continua contando.

Dias depois, numa sexta-feira, recorda que um grupo voltou para a casa. Algo que, conforme diz, deixou a ele e aos restantes que continuaram confinados “muito felizes” porque deu-lhes ânimo pensar que também poderiam estar a caminho de casa.

“Depois foi angustiante porque não disseram se já havia ou não resultados. A hora não passava devido à ansiedade. Fiquei num vai e vem dentro do quarto. Alguém ligou-me para o telemóvel, fui atender e desligou, liguei para o número e não dava. O número voltou a ligar e eu atendi mas o dava muito baixo, a única coisa que eu compreendi foi quando a doutora disse que deu negativo. E eu não estava a pensar em chorar mas as lágrimas começaram a descer pelo simples facto de saber que estava a regressar para casa”, acrescenta.

De volta à casa

Para Ailton, o chegar em casa foi como “começar tudo de novo”. Conta que começou a sentir-se estranho dentro da sua própria residência.

“Dizia para mim mesmo no isolamento que quando voltasse para casa iria fazer tudo e mais alguma coisa. Mas ao chegar em casa era como se eu estivesse a sentir falta do espaço de isolamento porque eu já havia criado uma rotina. Ali era tão silencioso que a pessoa conseguia ter um encontro consigo próprio, mas de volta à sociedade, com barulho por todos os lados, comecei a sentir-me estranho”, testemunha.

Este recuperado da COVID-19 confidência ainda que depois de receber alta não sofreu nenhum preconceito de perto porque se manteve dentro de casa. “Não coloquei os pés na rua, fiz todo o procedimento recomendado para não ficar a ser visto como aquele que trouxe de novo o vírus para dentro da comunidade”, acrescenta.

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“Não devemos excluir as pessoas. Nunca devemos discriminar porque toda gente pode passar por essa situação e quem já esteve infectado não quer que as pessoas tenham esse tipo de comportamento. Qualquer pessoa pode apanhar esta doença. Não há nada melhor do que receber conforto”, prossegue.

Entretanto, relembra Ailton que chegou a sentir preconceito, justamente no dia em que as autoridades o foram buscar em casa.

“Foi a pior coisa e eu não desejo isso a ninguém. E foi mais por causa do aparato montado. Toda gente fica a olhar e a apontar o dedo”, finaliza.

“Tive que fechar minha conta no Facebook”

Ariana Semedo, 24 anos, do bairro de Vila Nova, na cidade da Praia conta que teve que fechar sua antiga conta no Facebook porque não estava a aguentar tantas mensagens ofensivas de pessoas com quem teve contacto antes de lhe ser diagnosticada com COVID-19.

“Disseram que eu já sabia que estava com COVID-19 e que ainda assim fiquei perto delas. Assegurei que não sabia, até porque se soubesse avisaria a todos e não colocaria ninguém em risco, principalmente a minha família. Por isso criei uma outra, adicionei apenas familiares”, explica.

Esta entrevistada revela ainda que, enquanto esperava pelo resultado do último exame, antes de deixar o confinamento após 21 dias, ficou sabendo que uma vizinha em Vila Nova, também contaminada com o vírus, estava a dizer pelo bairro que contraiu o novo coronavírus porque esteve numa festa onde Ariana também esteve.

“Mesmo sem ter nenhum tipo de contacto com ela a culpa recaiu sobre mim”, lamenta.

Os sintomas

Ariana Semedo conta que começou a sentir os sintomas no dia 20 de Maio. Na altura, revela, sentia fortes dores na cabeça e nos olhos. Entretanto, afirma, no primeiro momento, não contactou a Delegacia de Saúde porque não pensava que tratasse de COVID-19. Entretanto, no dia 22 fez o teste, após contactar a Delegacia de Saúde.

“Ligaram-me no dia 24 a dizer que o meu teste acusou positivo. No mesmo dia fui transportada para a Escola de Hotelaria e Turismo (EHTCV)”, descreve.

Na família, apenas Ariana acusou positivo e conforme pondera, isto deve-se ao facto de viver no andar de cima e a mãe no andar de baixo.

Apesar de jovem, Ariana diz sofrer de asma e sinusite e que, quando pequena, sofreu de pneumonia. Daí que, num determinado momento, no confinamento, começou a sentir muito cansaço, falta de ar e teve de ser transferida para o Hospital Agostinho Neto (HAN) para receber oxigénio.

“Sentia muita dor no peito e falta de ar. Até para falar eu ficava cansada demais, para andar cansava, sentia que não podia fazer nada. Por isso, mandaram-me para o Hospital, disseram que não podiam fazer mais nada por mim no EHTCV”, recorda.

“Os médicos não me tocavam e sequer chegavam perto de mim, nem para falar mesmo com todo o tipo de protecção que eles tinham. Eu estava no quarto particular, não chegavam até mim para falar comigo, nem os enfermeiros. No dia que eu cheguei ao hospital de madrugada, foi um médico cubano que foi cuidar da senhora que estava ligada ao ventilador, falou comigo, perguntou como eu estava e eu disse que estava com muita dor no peito e que não parava. Então ele recomendou cerca de 9 medicamentos, sem especificar o tipo de medicamento”, lamenta.

Ariana Semedo foi diagnosticada com pneumonia e bronquite e teve de permanecer no HAN por dois dias, o que “não foi nada fácil”.

Emoção

A jovem emociona-se ao contar que sentiu saudades de casa, todos os dias. Naquele momento, reflecte, a sua fé não deixou que nada a abalasse e convencer-se que era apenas mais uma fase. “Fui lutando contra tudo o que eu sentia”, afirma.

Ao regressar a casa, apesar das recomendações de fazer distanciamento social por mais 14 dias, não aguentou e abraçou o filho.

“Embrulhei-me num lençol para o abraçar. Mas não abracei mais ninguém”, comove.

“Esse vírus veio para todos e veio ensinar-nos muita coisa. Uma delas é que não é não e que devemos cumprir uma ordem. Não acreditava nesse vírus e nem que estivesse em Cabo Verde. Outra coisa é que ninguém deve discriminar quem já o teve. Eu vou sempre apoiar alguém que se contaminar com esse vírus porque sei o que eu passei. Por isso, sou eternamente grata a todos os enfermeiros que estiveram comigo”, assegura.

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Recuperados criam grupo de apoio no Facebook

Rodney Fernandes ficou conhecido pelos vídeos que publicava no Facebook durante e depois do confinamento. Conforme revelou ao Expresso das Ilhas, o alcance dos vídeos foi grande e, por isso, pessoas que não queriam expor-se mandavam-lhe mensagens fazendo denúncias, pedindo ajuda, o que por vezes torna-se “desgastante”.

Foi daí que criou o grupo “COVID-19 em Cabo Verde”, formado por recuperados, doentes activos, activistas sociais, jornalistas, enfermeiros e psicólogos.

“No início, o grupo era formado apenas por pacientes recuperados de COVID-19 e aqueles que ainda estão activos, jornalistas e enfermeiros. Depois adicionei outros profissionais de saúde e alguns activistas sociais que estão sempre nas redes sociais”, narra.

Hoje, o grupo tem cerca de 60 membros da ilha da Boa Vista, Praia e cabo-verdianos que contraíram o vírus em Portugal e nos EUA.

No grupo, são debatidos temas como discriminação por parte dos recuperados e os seus familiares, o impacto da pandemia nas crianças, mas também, solidariedade entre os integrantes.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 968 de 17 de Junho de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,20 jun 2020 9:20

Editado porAndre Amaral  em  20 set 2020 23:20

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