Aumento de casos altera métodos de rastreio de Delegacias de Saúde da Praia e de Santa Catarina

PorSheilla Ribeiro,14 nov 2020 7:34

Se com o surgimento do primeiro caso de COVID-19 na Praia, para além de contactar as pessoas que se submeteram ao teste PCR, a Delegacia de Saúde local mantinha sob vigilância os contactos directos desses, agora com o aumento de número de casos, a tarefa passa a ser de quem testou positivo apelar para que os seus contactos façam o teste.

Em Santa Catarina, no interior de Santiago, ainda é a Delegacia de Saúde quem contacta as pessoas que estiveram próximas dos casos positivos, mas, o aumento de número de casos fez com que parasse de realizar, diariamente, visitas aos doentes em isolamento domiciliar.

Em declarações ao Expresso das Ilhas, a delegada de Saúde da Praia, Ulardina Furtado, esclarece que a Delegacia de Saúde tem uma equipa organizada que é responsável para ligar às pessoas para notificar o resultado dos testes, sejam eles positivos ou negativos. Dependendo do resultado, explica, a autoridade sanitária delega as devidas orientações. A equipa é formada por médicos e enfermeiros, incluindo a delegada de Saúde, que pode ligar directamente para as pessoas.

“Antes quando dávamos resultado a uma pessoa, ela indicava-nos os nomes de todos os seus contactos directos para que pudéssemos ir ao domicílio de cada um realizar os testes. Neste momento a conduta mudou um pouco. Quando a pessoa recebe o seu resultado, pedimos para que avise a todos os seus contactos para se deslocarem aos Centros de Saúde das suas residências para fazer o teste”, explicita.

Ou seja, a própria pessoa que testou positivo avisa a todos os seus contactos directos para realizarem os testes. Porém, a autoridade sanitária está ciente de que um caso positivo tem, por exemplo, seis ou sete pessoas que devem deslocar-se aos Centros de Saúde para se submeterem ao PCR.

“Deixamos de nos comunicar com os contactos directos de casos positivos devido à quantidade de transmissão na comunidade. Agora, com a quantidade de casos não conseguimos ir a todas as casas para realizar os testes, não temos transporte, não temos recursos humanos suficiente para ir a casa de todos que testarem positivo e de todos os seus contactos. Por isso, tivemos que procurar outra estratégia para que também a população tenha a sua responsabilidade”, justifica.

Conforme esta responsável, ainda que a Delegacia tenha deixado de se comunicar directamente com os contactos dos casos positivos, a equipa leva muito tempo a ligar a todos aqueles que realizaram os testes PCR, já que recebem, num único dia, centenas de resultados.

“Começamos a fazer chamadas de manhã cedo e por vezes terminamos no final do dia ou à noite. As horas de trabalho dependem da quantidade dos resultados que recebemos, mas é um trabalho que leva o dia todo e já estamos há vários meses trabalhando nisso, mas fazemo-lo continuamente e não deixamos ninguém pendente”, descreve.

No caso de a pessoa não atender o telefone, a Delegacia de Saúde insiste em ligar nos dias subsequentes, até a mesma atender. Entretanto, por vezes há casos em que a Delegacia tem um número errado, em que o telefone da pessoa avaria e por alguma razão a pessoa não consegue contactar a outra, até que a pessoa ligue de volta para saber do seu diagnóstico.

“Felizmente conseguimos contactar a maior parte dos positivos ou quase todos, este é o aspecto que damos maior importância na questão de cortar a cadeia de transmissão. A nossa preocupação é contactar os positivos a tempo e hora para que possam manter-se em casa e para que possamos cortar a cadeia de transmissão”, enfatiza.

Para cortar a cadeia de transmissão do vírus, frisa, a Delegacia de Saúde trabalha de segunda a segunda. Segundo Ulardina Furtado, dependendo do número de amostras, assim é o número de pessoas a trabalhar. Ou seja, tanto pode trabalhar a equipa inteira, como podem trabalhar por escala.

Uma outra equipa, semelhanças e diferenças no modo de trabalhar

Por seu turno, a Delegada de Saúde de Santa Catarina de Santiago, Elisângela Tavares, avança que a Delegacia de Saúde local também tem uma equipa formada por enfermeiros, a própria delegada, infeciologista, e uma assistente social, que faz o seguimento dos casos que já foram diagnosticados com COVID-19 e os seus contactos.

“Trabalhamos de segunda a segunda, de manhã à noite. Quando recebemos os resultados dos testes, contactamos as pessoas, organizamos a colecta dos seus contactos directos, organizamos o seu seguimento”, retrata, acrescentando que tendo em conta que todos os que fizeram o teste têm de ficar em isolamento, ao receber os resultados a Delegacia liga a todos de modo a tirar do isolamento aqueles que testaram negativo.

Normalmente, avança, quem faz o primeiro contacto com o caso positivo é Elisângela Tavares, que depois passa o trabalho para o seguimento com a assistente social e enfermeiros.

Assim, aqueles que estão em isolamento domiciliar, se precisarem de remédios, por exemplo, a delegada de Saúde logo contacta um enfermeiro daquela localidade que “leva tudo aquilo que o paciente precisar”.

“A partir do momento que a pessoa faz o teste PCR, orientamos que faça o isolamento, que use máscara e assim quando o resultado sair é só tem de dar continuidade ao que vinha fazendo. Estamos a fazer este trabalho desde que surgiu o primeiro caso”, relata.

Conforme Elisângela Tavares, a Delegacia de Saúde de Santa Catarina possui uma equipa fixa, uma vez que formou pessoas, especificamente para este trabalho. Aliás, refere, o município não chegou a ter um número exponencial de casos, exceptuando no mês de Setembro.

“Essa equipa consegue dar resposta porque integra uma equipa de colheita, de infecção, de resposta e uma equipa de vigilância”, assegura.

Por dia, explana, a autoridade sanitária de Santa catarina de Santiago recebe cerca de 30 resultados. Ou seja, são 30 chamadas para aqueles que realizaram o PCR, mais os contactos directos dos que foram diagnosticados com COVID-19.

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“Cada vez que os casos positivos aumentam o trabalho para nós aumenta. Antes, por exemplo, fazíamos diariamente uma visita domiciliar aos casos positivos, neste momento não conseguimos fazer isso. Então, passamos a fazer estas visitas, por vezes, duas vezes por semana. As coisas já não são como no mês de Junho, por exemplo, ou Julho e Agosto, desde Setembro já não conseguimos fazer mais do que duas visitas domiciliares”, declara.

O cansaço e suas possíveis consequências

“Estamos a trabalhar todos os dias desde o mês de Março, a equipa não é renovada, temos trabalhado dia e noite na mesma coisa. Estamos todos cansados, e é um trabalho contínuo, não podemos parar até realmente conseguirmos vencer esta luta”, manifesta Ulardina Furtado, delegada de Saúde da Praia, para quem o Ministério de Saúde fez um esforço “extraordinário” ao contratar mais enfermeiros.

Para esta responsável, o cansaço pode reflectir na saúde dos profissionais de saúde, como pessoa.

“Porque não temos descanso, a nossa imunidade vai diminuindo, podemos adoecer e somos um grupo de risco porque estamos em contacto permanente com pessoas positivas, podemos contrair a COVID-19 e com a imunidade baixa temos a probabilidade de complicar mais do que os outros”, aponta.

Além disso, a médica indica possíveis implicações psicológicas, como a síndrome de Burnout (um desgaste que prejudica os aspectos físicos e emocionais da pessoa, levando a um esgotamento profissional), complicações a nível familiar e pessoal derivado das “pressões” sobre a profissão. Isso porque, menciona, têm de continuar a fazer o trabalho que já era feito no dia-a-dia e que “não podem ser deixado de lado”, mais o trabalho que a COVID-19 implica.

“É mais uma preocupação, mais um stresse, mais um peso que estamos a levar no dia-a-dia, por isso queremos trabalhar para que esta situação possa acabar o mais rápido possível”, pronuncia.

Nessa linha, Ulardina Furtado apela aos jovens a se cuidarem para que possam cuidar dos mais velhos e mais novos, sobretudo agora com o início das aulas na Praia.

“Cumpramos todas as normas de segurança, como o uso de máscaras, fazer distanciamento, higienização para que não levemos nada para casa. E tendo em conta que vamos iniciar as aulas trabalhemos todos juntos para que possamos realmente diminuir o número de casos para que os nossos filhos possam ir para a escola em segurança. Façamo-lo pelos nossos filhos e pelos nossos velhos”, apelou.

Por sua vez, a delegada Elisângela Tavares frisa que os profissionais de Saúde de Santa Catarina estão cansados, o que é agravado com a “falta de colaboração” da população.

“Neste momento o que acontece? Os casos aumentam todos os dias, mas as pessoas estão relaxadas, não querem cumprir orientações, tudo isso faz com que os profissionais se sintam cansados, não desmotivados, mas cansados”, sublinha.

A “maior” consequência deste cansaço é, alega, a desmotivação dos profissionais. “Acredito que se a população contribuísse e tivéssemos estagnação pelo menos de casos seria um alívio para os profissionais de saúde”, exprime.

“Eu apelo a cada um que assuma a sua responsabilidade porque sabemos que o vírus está activo, que está a circular na comunidade, para todos tomarem cuidado, evitemos fazer visitas, ir a funerais e outros hábitos que implicam aglomerações. Apelo ainda que colaborem para ver se melhoramos esta situação porque há coisas que acontecem e nos deixam um pouco admirados, principalmente a questão do funeral. Ainda se vê funerais com centenas de pessoas”, constacta.

Reacções a sugestão de isolamento

Ao recomendar isolamento, a delegada Elisângela Tavares conta que há vários tipos de reacção. Conforme diz, há aqueles que colaboram, sobretudo aqueles com sintomas e que logo aceitam seguir todas as orientações dadas mas, por outro lado, há aqueles que resistem ao cumprimento das indicações.

“A maioria tem colaborado. Mas, como há muitos casos assintomáticos, as pessoas resistem a cumprir as orientações por estarem sem sintomas, então temos que praticamente fazer um trabalho para que entendam. Às vezes perdemos mais de meia hora ao telefone só para explicar qual é a importância de ficar em casa mesmo estando assintomático, a explicar como se dá a transmissão”, discorre.

Quando há muita resistência, a delegada explica que a pessoa é colocada em isolamento institucional. No caso daqueles que colaboram com a Delegacia de Saúde de Santa Catarina de Santiago, a autoridade sanitária verifica, in loco, se de facto a pessoa tem ou não condições para fazer um isolamento domiciliar, sem por em risco os demais familiares.

Na Praia, segundo Ulardina Furtado, as reacções são parecidas. Ou seja, dependem da personalidade de cada um.

“Há aqueles que aceitam calmamente, que até já estão preparados para o resultado porque sabem dos riscos a que estiveram expostos, á aqueles que não ficam satisfeitos e não acreditam no resultado porque estão completamente assintomáticos. Há ainda aqueles que explodem e os agridem com palavras e que temos de convencer a aceitar os resultados e a seguir as orientações”, narra.

Nesse caso, aqueles que “agridem com palavras” são os que mais “complicam” a Delegacia de Saúde que tem de ficar vigilante se de facto vão ou não fazer o isolamento.

Tendo em conta que a ilha do Fogo, depois da Praia, tem mais número de casos activos, o Expresso das Ilhas tentou uma entrevista com a Delegada de Saúde porém não foi possível devido ao muito trabalho derivado do número elevado de contaminação na ilha. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 989 de 11 de Novembro de 2020.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,14 nov 2020 7:34

Editado porFretson Rocha  em  26 nov 2020 18:19

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