Ensino à distância : Professores, pais e alunos apontam para dificuldades e limitações

PorSheilla Ribeiro,11 jul 2020 8:58

Dificuldades para tirar dúvidas, falta de material técnico, incerteza quanto à aprendizagem dos alunos e pouco tempo de aulas estão entre as limitações do modelo de ensino adoptado pelo ministério da Educação.

Para a Direcção Nacional da Educação e algumas escolas da capital as aulas à distância implementadas em alternativa às aulas presenciais, correram bem apesar dos desafios como a falta de dispositivos e o processo de adaptação. Nesta reportagem, o Expresso das Ilhas ouviu a avaliação do ensino à distância do ponto de vista dos pais, professores e alunos.

Apesar das dificuldades, alguns professores deram-se bem com o ensino à distância. É o caso de Ângela Silva, professora há 20 anos no regime de monodocência. Actualmente, lecciona alunos do primeiro ao quarto ano e tem por turma, 34 alunos. A pandemia, conta, adicionou um outro desafio, aulas virtuais.

Para esta professora, a adopção deste método foi bom, porque permitiu aos alunos estarem em contacto com o conteúdo escolar, permitindo-lhes fazer a revisão das matérias.

“Interagi com os meus alunos através de mensagens, telefonemas, fichas de exercícios que eu enviava todas as semanas. Eles resolviam, mandavam de volta e eu corrigia. Utilizava ainda aplicativos como Messenger e Viber”, descreve.

Segundo a professora, apesar do impacto positivo nos alunos, os professores não estavam preparados, em termos de instrumentos como a internet, ou dispositivo para as aulas.

“A escola, só no fim, disponibilizou internet para que pudéssemos manter o contacto com os alunos. No início fizemos o nosso esforço para que tal acontecesse”, menciona.

Ainda que considere esse método como sendo bom, esta professora refere que o ensino à distância não permite ao professor ter a clareza se o aluno trabalhou ou não sozinho, se de facto aprendeu a matéria dada.

Ângela Silva destaca ainda a dedicação e o empenho dos pais que estiveram “mais presentes” para auxiliar os estudos dos filhos, apesar de não terem conhecimento do conteúdo que repassam aos mesmos.

“Mas o ensino à distância devia continuar, só que de uma forma melhorada. Para a primeira experiência foi muito bom e ultrapassou a nossa expectativa”, garante.

Diferença de oportunidades no ensino à distância

A presidente do Sindicato Democrático dos Professores (SINDPROF), Lígia Herbert, considera que a falta de recursos dos pais e o facto do sinal da rádio ou televisão não chegar a todos os concelhos de todas as ilhas, constitui um factor de discriminação no ensino à distância.

“Quando estamos a falar de ensino à distância temos de falar da sua massificação. Ou seja, todos iguais nas suas diferenças. Os alunos devem ter exactamente a mesma prioridade, a mesma regalia de todos. Não estamos a falar somente do ensino à distância nas cidades. Nas próprias ilhas, nos concelhos há uma diferença muito grande mesmo de zona para zona”, pondera a sindicalista.

Por esse motivo, Lígia Herbert considera que o ensino à distância não teve um grande efeito em zonas distantes onde os pais não têm telemóveis e não conseguem fazer grupos de Messenger ou aulas por email.

Além disso, aponta, muitos progenitores não estavam preparados para auxiliar os filhos nos estudos, uma vez que não tinham domínio sobre todas as matérias dadas. A preocupação do SINDPROF é que os conteúdos não tenham sido assimilados.

Conforme revela, inúmeros pais contactaram o SINDPROF para tirarem as dúvidas antes de explicarem aos filhos uma matéria, ou quando os mesmos colocaram dúvidas sobre determinadas lições que não absorveram através do Messenger.

“Foi muito badalado por muita gente que houve sucesso, havia condições, mas as condições não são tantas como se apregoou. Se o ministério está a pensar continuar com as aulas audiovisuais é preciso que se crie estratégias robustas e não estratégias avulsas, para que todas as crianças e jovens de Cabo Verde tenham acesso a essa tele-aula para que não haja uns com tele-aulas e outros não”, frisa.

Uma outra preocupação do sindicato refere-se aos alunos do 12º ano. Para estes, a sindicalista acredita que o ministério da Educação deve negociar com o Ensino Superior para se dar continuidade aos conteúdos que não foram ministrados.

Caso contrário, prossegue, esses jovens estudantes, ficarão com lacunas de conteúdos necessários para o curso que escolherem.

“Nós temos uma série de preocupações para o início do ano lectivo porque estamos a ver que este surto pandémico está a aumentar dia pós dia em Cabo Verde e está a chegar a todas as ilhas. Com a abertura entre as ilhas, pensamos que cada concelho, cada delegação deve começar a fazer o levantamento das necessidades”, sugere.

Uma vez que se torna necessário criar o distanciamento entre os estudantes e que turmas de 30 ou 40 alunos já não serão possíveis, a presidente do SINDPROF assevera que é preciso começar a criar recursos.

“Se não há salas, que se construa, que se alugue, mas é preciso que os meninos tenham distanciamento porque esta pandemia ainda vai ficar por cá por algum tempo”, reitera. Herbert refere que é preciso estar aberto a novas experiências, como o ensino à distância e parabeniza os professores que conseguiram dar aulas sem alunos e outros mecanismos”.

Mas, persevera, o ministério de Educação deve formar os professores, principalmente os recém-recrutados, para as aulas virtuais, instruindo desde o tipo de letra às cores que devem ser utilizados.

“Estamos a apelar ao ministério que forme, recicle tudo quanto são professores para que todos estejam preparados. Agora, quando se prepara os recursos humanos tem de se preparar recursos técnicos para tal. Tem de haver megas, os pais têm de ter telemóvel, televisores, tudo”, recomenda.

Os professores, segundo Lígia Herbert, têm-se mostrado reticentes e temem criar problemas aos miúdos, transmitindo algo que eles possam perceber de outra forma.

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De um modo geral, o Sindicato avalia que o ensino à distância funcionou de forma parcelar, entretanto, leva em consideração que apenas com o teste diagnóstico no início do ano lectivo é que se pode saber se os alunos aprenderam ou não.

Falta de interesse é um dos obstáculos

“Assistir às aulas na televisão superou as minhas expectativas e as dos meus colegas. Foi um bom reforço do ministério”, narra Érica Garcia, estudante do 12º ano, no Liceu Regina Silva, em Achadinha.

A estudante explica ao Expresso das Ilhas que o receio das aulas audiovisuais se devia ao facto de que no início os conteúdos não serem iguais aos que eram dados nas salas de aula. Tal diferença nos conteúdos fez com que Érica Garcia e os colegas perdessem o interesse em assistir as aulas, que “geravam mais dúvidas do que esclarecimentos”.

“Depois, os professores explicaram que o plano era que todos os Liceus leccionassem aquela matéria, porém, no nosso Liceu não atingimos aquela meta, não nos foi ensinado determinados conteúdos. Por isso, estávamos por fora daquela revisão, daí a falta de vontade em assistir às aulas”, explica.

Com o tempo, a jovem alega que as aulas se tornaram “interessantes”, porém, ainda assim não assistiu a todas por não saber se passaria ou não de ano. De todas as disciplinas, Érica Garcia revela que assistiu mais às aulas de Francês, Português, Biologia e Matemática.

A mãe esteve sempre ao seu lado nas aulas em que assistia pela televisão. Isto porque, conforme menciona, os professores disponibilizavam os conteúdos através da plataforma Classroom e, por vezes, realizavam videoconferências da turma para a explicação das matérias onde havia mais dúvidas.

“Apesar de ter sido bom, consigo apontar mais desvantagens do que vantagens nesse método de ensino. Com as aulas presenciais, sentes a obrigação de assistir às aulas mas, em casa, principalmente onde os pais não têm tanto pulso para incentivar os filhos a assistirem às aulas, a responsabilidade é nula. O aluno assiste se quiser”.

Continuando, Érica Garcia aponta a falta de foco nos estudos devido a “inúmeros” factores de distracção”. Um outro empecilho aos estudos seria a falta de interesse do aluno e por vezes a falta de electricidade em casa.

Ainda assim, esta entrevistada diz que a grande vantagem foi não ter ficado sem “absolutamente” nada para fazer durante o confinamento.

“Eu senti muita falta das aulas presenciais. Na escola, caso não compreendesse uma matéria, havia a possibilidade de debater com os colegas, o que ajuda. Na televisão, se não compreender fico sem compreender porque as aulas eram rápidas. Hoje é dia de uma matéria, amanhã é outra matéria com uma pequena revisão do dia anterior já que o tempo é muito limitado”, lamenta.

Aliás, no caso de as aulas audiovisuais continuarem, a jovem sugere um aumento do tempo de cada aula por considerar 20 minutos de aula insuficiente.

“Cada aluno possui um ritmo diferente de aprendizagem. E em 20 minutos não pode absorver toda a matéria sem que haja dúvidas”, sublinha.

Tempo insuficiente para aprendizagem

Quem também aponta 20 minutos como sendo “insuficiente” é a balconista Eloisa Vieira. “Do meu ponto de vista, as aulas tinham muito pouco tempo. Às vezes não dava para compreender toda a matéria, as aulas eram aceleradas já que tinha de haver tempo para as aulas das outras classes. As crianças não conseguiam acompanhar tudo. Menos mal que já tinham estudado a maioria dos conteúdos nas salas de aula, porque se fossem conteúdos novos nada seria absorvido”, asseverou.

Eloisa Vieira é mãe de três estudantes. Um do 4º, 7º e 9º ano de escolaridade, que acompanharam as aulas através da televisão. Para esta mãe, as tele-aulas serviram para que os filhos não ficassem sem nada para fazer, no que diz respeito à escola.

“Mas, se eu não tivesse ficado em cima delas, elas não conseguiriam acompanhar. Não tinham assim tanto interesse e sempre reclamavam que já tinham estudado aquela matéria e que não era fácil entender a explicação”, refere.

A falta de interesse dos filhos, segundo relata esta entrevistada, deve-se “muito” à não obrigatoriedade de estar numa sala de aula, o que fez com que as crianças não as levassem “tão a sério”.

Por isso, entende que no futuro o método deve sofrer melhorias de modo a ter mais qualidade e que “possa de facto contribuir para a aprendizagem” das crianças.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 971 de 8 de Julho de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,11 jul 2020 8:58

Editado pormaria Fortes  em  16 jan 2021 23:21

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