“Há países que já estão a atravessar a segunda e a terceira onda da pandemia e nós ainda nem saímos da primeira” - Bastonário da Ordem dos Médicos

PorJorge Montezinho,22 ago 2020 6:55

O cirurgião Danielson Veiga tomou posse como bastonário da Ordem dos Médicos há quase dois anos. Neste tempo de pandemia, a Covid-19 não podia ficar de fora desta conversa com o Expresso das Ilhas. Mas, nesta entrevista, falámos igualmente de outros temas que preocupam a classe, desde a necessidade de mais formação e mais especialistas, passando pelo sector privado, até à falta de reconhecimento que a profissão ainda tem.

Quando foi eleito disse que o objectivo era melhorar a qualidade da medicina em Cabo Verde. O que era necessário para que houvesse essa melhoria?

O nosso foco é a formação do médico cabo-verdiano, que é a razão porque foi criada a ordem. Ao mesmo tempo, queríamos divulgar o que tem sido o médico cabo-verdiano. Infelizmente, o que temos constatado é que em Cabo Verde tanto da parte da sociedade como dos nossos governantes não tem havido uma política de promoção da imagem do médico. Ouve-se falar de um grande jurista, de um grande músico, de um grande escritor, mas falar de médicos não está enraizado na cultura cabo-verdiana. Outra questão tem a ver com as especializações, muitas vezes, um médico que chega a Cabo Verde com uma formação especializada, traz a formação que ele próprio escolheu e não porque houve um trabalho de raiz.

Ou seja, não houve uma preocupação em saber as necessidades do país e quais as formações que seriam mais necessárias?

Exactamente, é uma opção pessoal e quando chega, se esse quadro é necessário, é enquadrado, mas, no fundo, não houve um plano. Acho que um programa bem estabelecido é fundamental para definir o perfil do médico. Tenho a certeza que durante o estágio probatório [obrigatório] os clínicos séniores têm uma ideia do empenho do colega e poderão direccioná-lo, porque tivemos casos de colegas que durante o estágio mostraram interesse em fazer uma especialização, tiveram de ir para a periferia, o que é normal porque existe lá falta de médicos, e depois de regressarem, quiseram formar-se numa área específica, mas foram-lhe dadas especialidades que nada têm a ver com as áreas em que se debruçaram mais. O que acontece é que é uma pena que ninguém reconheça o dom que o médico tem e este tem de aproveitar aquilo que aparece. É verdade que Cabo Verde ainda não forma especialistas, é verdade que temos necessidade de muitos especialistas, se nas áreas em falta não aproveitamos as vocações, isso é preocupante.

Esse é, para a Ordem, o principal problema?

Há outros. As condições de trabalho, por exemplo, que tem a ver com o salário, com as férias, o tempo de repouso, o controlo de sobrecarga e tem de haver meios para fazer o trabalho para o qual se formou. Eu formei-me em cirurgia e, tenho a certeza, que não consigo pôr em prática, em Cabo Verde, 50% do que aprendi.

Falta de material sim e o pouco que existe é partilhado entre especialistas. Dá pena porque o médico cabo-verdiano e os estudantes de medicina são dedicados.

Mas porquê? Por falta de material?

Falta de material sim e o pouco que existe é partilhado entre especialistas. Dá pena porque o médico cabo-verdiano e os estudantes de medicina são dedicados. Nas universidades temos demonstrado alguma tendência para nos mostrarmos como estudantes responsáveis, temos atingido metas muito boas. Por exemplo, os nossos alunos quando vão a Portugal fazer formação todos os professores me dizem que se dedicam bastante, não se sentem retraídos e engajam-se bem com os colegas portugueses, há ajuda e partilha de documentos e todos têm passado de ano sem grandes dificuldades. O mesmo acontece no Brasil, em Cuba, na China também, principalmente os que fazem os estudo em inglês. Enfim, Cabo Verde já atingiu bons indicadores em termos de saúde, mas penso que podia ter já atingido muito mais. Tudo de bom que conseguimos alcançar, na minha opinião, foi atingido mais pela dedicação dos médicos do que propriamente por causa do sistema em si. Uma das motivações que nos leva a entrar na medicina é ajudar as pessoas, mas tem de haver algo em troca, tem de haver meios, tem de haver um salário digno e algumas regalias que existem noutras partes do mundo e que cá não temos.

Mas, acha há uma consciência das autoridades que se o médico cabo-verdiano não tiver essas condições pode ir exercer em qualquer outro país?

É verdade que há muitos que não voltaram. Eu quando me formei tive convites de Macau, do Canadá, da Austrália e pensei seriamente. Mas os meus pais, que eram enfermeiros, sempre me disseram que devia trabalhar em Cabo Verde e optei por regressar. A integração não foi fácil, mas estou cá há 24 anos a dar o meu contributo e não estou arrependido. Confesso que antes tinha algum desgosto em relação aos que não voltavam, mas hoje entendo perfeitamente que sair de um local onde há todos os meios e vir para Cabo Verde não é fácil. Mas ajudar Cabo Verde não podem ser apenas palavras, temos de ter meios e condições para cá estar, tem de haver debates, aliás, a ordem foi criada para ajudar o Ministério da Saúde, mas nem sempre tivemos a sorte de estar envolvidos. O médico está consciencializado para ajudar, mas temos de contar também com os políticos.

É mais fácil lidar com um ministro que é também médico?

Não é assim tão linear. Apesar de haver alguma abertura do ministro em relação a nós, mas um médico que está na política tem uma visão diferente de um médico que está no terreno. Há muita coisa que podia já estar feito, mas provavelmente há outras prioridades. Mas investir mais no capital humano, penso que é básico. Em termos de infra-estruturas, penso que estamos numa situação razoável, mas em termos de formação médica temos falta, até porque a medicina muda todos os dias. Muitos médicos fazem formação por conta própria. Há já um regulamento, dentro do ministério da saúde, que dá as condições para os médicos fazerem formações, mas não é fácil ser seleccionado, por isso, em vez de estarem à espera, muitos optam por gastar do próprio bolso.

Se alguém se formar em medicina molecular, não tem nada para fazer em Cabo Verde

Mas isso não é também o problema que falámos atrás? Porque um médico pode optar por uma formação que quer, mas não por aquela que faz mais falta ao país? não devia haver uma certa coordenação para evitar, por exemplo, que haja dez médicos a fazerem a mesma formação?

Sim, isso não faria sentido. nós, na Ordem, criámos uma lista de especialidades necessárias para que as pessoas se foquem nessa mesma lista. Porque, realmente, se alguém se formar em medicina molecular, não tem nada para fazer em Cabo Verde. eu próprio quando me formei, ia com a ideia de me especializar em cirurgia cardiotorácica, mas um amigo disse-me para pensar bem se devia continuar essa formação porque em Cabo Verde não se faz cirurgia cardiotorácica. Por isso mudei para cirurgia geral, focalizando na cirurgia gastrointestinal e sinto que sirvo melhor Cabo Verde do que se tivesse chegado com a especialização em cirurgia cardiotorácica, que ainda não temos condições para fazer porque depois desse tipo de cirurgia o paciente deve ser levado para uma unidade de cuidados intensivos, que não temos em Cabo Verde. Com o nível de investimento que se fez na saúde, penso que os cuidados intensivos seriam fundamentais.

Como tem mostrado o actual cenário de pandemia pela covid-19.

Exactamente, há mortes que são preveníveis. Já tivemos cá médicos cabo-verdianos da diáspora que quiseram ajduar o governo a montar a unidade de cuidados intensivos, houve um estudo profundo, chegou a ser seleccionada uma área para a instalação dos equipamentos, infelizmente não foi instalado, provavelmente por causa dos custos. Mas hoje em Cabo Verde já temos hemodiálise, que é muito mais caro. Chegámos a formar enfermeiros que, entretanto, foram embora para as Canárias, para Portugal. Agora temos cá dois médicos cubanos a trabalhar na área, mas estão na área de cuidados especiais. É parecido com os cuidados intensivos, mas sem todas as características. Precisamos de mudanças e os políticos deviam ouvir mais as pessoas.

O que falta afinar no relacionamento com a tutela?

Eu penso que temos demonstrado total abertura em relação ao nosso ministro, ele também tem mostrado abertura, quando solicitamos encontros está sempre disponível, mas queremos que as coisas saiam do papel, temos de sentir que algo está a ser feito. Só dizermos aos colegas que houve um encontro com o ministro e depois nada é feito, surgem críticas. Nós não temos poder para mandar em ninguém, tem de haver interesse dos dois lados.

Nesta questão da falta de especialistas, a ensino de medicina em Cabo Verde pode ser uma resposta?

Penso que sim. só para lhe dar uma ideia da nossa falta de especialistas, estão inscritos na ordem cerca de 650 médicos, em actividade serão uns 450, e cerca de 70% dos médicos são generalistas, não têm especialidade. Para que os cuidados de saúde tenham qualidade tem de haver especialização e com os contactos que tivemos com a Ordem dos Médicos e com o Ministério da Saúde de Portugal há uma grande abertura para nos ajudarem com as formações. Claro que a selecção de um aluno cabo-verdiano para ir estudar em Portugal é diferente da feita aos alunos portugueses e isso pode criar alguns conflitos. Segundo conversas que tive com alguns colegas tem havido alguma oposição, e eu diria até que é justa, por parte dos portugueses quando vêem um estudante cabo-verdiano ou angolano a ficar com um lugar. Com a tendência actual do populismo mais vale estarmos prevenidos. E o populismo já tem uma proporção grande no mundo e estamos a ver qual tem sido o resultado. Se não houver uma política voltada para o país, vamos ter sérios problemas. Por isso, penso que o ensino da medicina em Cabo Verde é uma ideia boa, com parte da formação a ser feita cá e outra em Portugal. Os professores portugueses podem vir cá dar aulas, já estamos a preparar o estatuto para docentes cabo-verdianos e penso que Cabo Verde vai ganhar.

Os próprios médicos vão também ganhar, porque têm de estar sempre actualizados.

Exactamente e isso é fundamental para a prática de medicina de qualidade.

Temos alguns ventiladores instalados, mas só temos dois intensivistas, os médicos cubanos de que falei há pouco

Em relação à Covid, e falando novamente da questão das especializações, quando a doença apareceu, do que se falou mais foi dos equipamentos: da chegada de ventiladores, de máscaras, etc., mas não se referiu a falta de cuidados intensivos. Houve aqui alguma falha de comunicação? Até porque os equipamentos não trabalham sozinhos.

Pois não. Temos alguns ventiladores instalados, mas só temos dois intensivistas, os médicos cubanos de que falei há pouco. Com a parceria que temos com Portugal, também poderíamos ter acesso a formações para pessoas que vão cuidar de pacientes com a doença. Aliás, a maioria dos clínicos que temos a cuidar de pacientes com covid são médicos de medicina interna e de pneumologia. Faltou uma formação, por isso muitas das pessoas que foram para os cuidados especiais não sobreviveram. Não diria que é apenas por falta de formação, mas se estivessemos melhor preparados as consequências poderiam ser diferentes. Sabemos que com um bom serviço de cuidados intensivos há vidas que podiam ser salvas.

Mas, no global, como classifica o combate à pandemia?

Como disse há dias o director de controlo de doenças infecciosas, o Dr. Jorge Barreto, ainda estamos numa situação em que os números mostram apenas a ponta do iceberg, de certeza vai haver mais infecções se não houver mudanças. A densidade populacional em Cabo Verde é alta, principalmente na Praia, imagine zonas como Achadinha, Achada de Santo António, Eugénio Lima, Ponta D’Água, com casas coladas umas às outras, cada uma com umas dez pessoas, com muitas crianças, quem diz que as crianças não andam de casa em casa, a contaminar as famílias? Mesmo em termos culturais, vizinho que não cumprimenta vizinho com um aperto de mão ou um abraço pode perder uma amizade, mesmo neste contexto. O melhor método, para mim, intervenções casa a casa, falar com as pessoas, criar equipas, como a Igreja do Nazareno está a fazer, por exemplo, que mostram imagens, dão explicações, penso que isso vai fazer com que a população colabore melhor.

Ou seja, há toda uma complexidade que não se resume ao ‘usem máscara’.

Exactamente. É verdade que o surto na Praia é responsabilidade principal das pessoas, mas tem de haver uma intervenção mais próxima. Só a televisão, ou só a rádio, não chega, temos de ir falar com as pessoas. E não se pode comparar a Praia com nenhuma outra cidade cabo-verdiana, não é só a densidade populacional, mas é também os circuitos dos negócios, a circulação das pessoas do interior para a capital. Chegámos a falar com o ministério da saúde se seria possível criar cordões sanitários, isolar certas regiões, pelo menos durante o período de incubação e transmissão. Tenho a certeza que a população até colaborava, mas para isso tem de haver sensibilização. Penso que não é difícil combater esta doença, desde que todos façamos a nossa parte. Não é à toa que nos países asiáticos se conseguiu – sim, os regimes nem sempre são os mais democráticos, mas conseguiu-se na Coreia do Sul também, no Japão. Por vezes é preciso uma política um pouco mais agressiva.

No fundo, acha que não pode haver medo de tomar decisões. Falou da questão dos cordões sanitários, mas muitos autarcas vieram opor-se a essa medida ao longos dos últimos meses.

Mas a população compreende essa necessidade se for explicado. Porque falamos do bem comum. Veja, que no início nem se dizia quais eram as zonas onde havia casos, mas é importante ter essa informação, para se poder isolar. O vírus tem um período de incubação e de contágio e depois pode voltar a abrir-se, mas durante esse tempo, as pessoas que estivessem nessa zona não saiam para infectar outros. Parece-me o mais correcto. Por isso é importante que haja comissões conjuntas, da saúde, das autarquias, da ordem dos médicos, da sociedade civil, onde se podia conversar de forma aberta e definir uma política mais assertiva. Precisamos de uma mudança de mentalidade e de não ter medo de críticas. Nós temos a noção que é uma doença nova, ainda estamos a estudar quais serão as consequências, porque há pessoas que mesmo depois de recuperadas ficam com sintomas que ainda não se conseguem explicar. Em resumo, a população precisa de colaborar mais, mas também temos de ser mais ousados na imposição das regras. Temos de pensar no colectivo e penso que os cabo-verdianos estão abertos a colaborar, porque tenho a certeza que ninguém fica de consciência leve se a morte de um pai, ou de uma tia, ou de um irmão, foi por culpa dele. Tenho a certeza que com a mensagem certa, as pessoas vão acatar.

Relaxou-se demasiado cedo?

Penso que sim. Ficou-se com a impressão que já estava tudo bem. E agora vamos ver, com a reabertura das escolas. Há países que estão já a atravessar a segunda e a terceira onda e nós ainda nem saímos da primeira. Mas se todos colaborarem, penso que é possível ultrapassar.

Para terminarmos, gostava de falar da questão do turismo. Os operadores aceitam reabrir os hotéis se, entre outras condições, puderem trazer os seus próprios médicos, principalmente da Europa. Nas conversas que tive com os operadores, disseram-me que é difícil conseguir a inscrição na ordem dos médicos de Cabo Verde e que a burocracia é excessiva. Há abertura por parte da ordem para agilizar este processo?

Há, perfeitamente. Temos um regulamento de inscrição para nacionais e para estrangeiros. Não temos nenhuma oposição em relação aos médicos estrangeiros, mas anteriormente para que os médicos estrangeiros pudessem exercer em Cabo Verde tinham que trabalhar no público durante três anos, ou trabalharem como cooperantes, ou tinham de ter um documento do ministério da saúde com as razões porque essa pessoa era contratada, ou então se houvesse uma política de reciprocidade entre as partes, ou seja, um médico cabo-verdiano era também reconhecido como especialista no país de origem do médico estrangeiro. Agora já não é tão complicado, é só as pessoas perguntarem pelo regulamento, entregarem os documentos e penso que não haverá qualquer problema.

  • A Ordem dos Médicos Cabo-verdianos foi a primeira associação profissional existente no Pais.
    Em Abril de 1990, como resultado de algumas iniciativas de carácter associativo no seio da Classe Médica, foi criada a Associação dos Médicos que, embora de carácter privado e, por conseguinte, despida de poderes públicos de autoridade, contava nessa época com pouco mais de 70 médicos.
    A 26 de Junho de 95, foi aprovada a lei nº.126/IV/95 que define as bases da criação e regime jurídico das Ordens Profissionais, que veio conferir o necessário enquadramento jurídico à criação da Ordem dos Médicos de Cabo Verde.
    Uma Comissão Instaladora para a criação da Ordem foi eleita numa Assembleia-geral que, de entre outras funções, tinha a responsabilidade de elaborar os Estatutos da futura Ordem, a ser criada pelo Governo.
    A 20 de Outubro de 1997, nascia a Ordem dos Médicos Cabo-verdianos e eram aprovados os seus estatutos, com o decreto-lei nº. 65/97.
    Em Janeiro de 1998, na Assembleia Nacional, onde se reuniram 64 Médicos em serviço no Arquipélago, procedeu-se à eleição dos primeiros órgãos nacionais da Ordem dos Médicos Cabo-verdianos.
    A Ordem tem como princípios orientadores da sua acção:
  • O dever de promover e defender a saúde da população;
  • O exercício da profissão médica com total independência e dignidade.
  • Constituem as suas principais atribuições:
  • Defender e promover a ética, a deontologia e a qualificação profissional médicas.
  • Contribuir para a realização à escala nacional dos direitos dos utentes do Sistema Nacional de Saúde.
  • Colaborar na definição da Política Nacional de Saúde.
  • Proceder à inscrição dos médicos como requisito indispensável e necessário para o exercício da Medicina em Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 977 de 19 de Agosto de 2020.

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Autoria:Jorge Montezinho,22 ago 2020 6:55

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  19 set 2020 23:21

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