Hospitais de ilhas com mais casos perto do limite

PorNuno Andrade Ferreira,2 mai 2021 8:59

Explosão de casos aumenta pressão hospitalar. Situação do país é diversa, mas a ocupação está quase completa nalguns hospitais.

A situação sanitária agravou-se durante o mês de Abril, com Cabo Verde a bater recordes de novas infecções e mortes por covid-19. Esta segunda-feira, a taxa de incidência por 100 mil habitantes situava-se nos 592. De 19 a 25 de Abril, foram confirmados 1.883 casos e a vaga contínua em sentido ascendente. O crescimento de diagnósticos positivos está a reflectir-se num aumento da pressão hospitalar.

Com o arquipélago na pior fase da pandemia, o Director Nacional de Saúde, Jorge Barreto, não poupa nas palavras e fala de uma situação grave. Não há recusa de internamento, mas as unidades de saúde estão a trabalhar à beira do limite.

“Cabo Verde enfrenta, neste momento, uma situação grave que não está controlada. Apesar de não termos situações de recusa de internamento, por falta de cama ou de condições para dar assistência, os hospitais, pelo menos aqui na Praia e em São Vicente, estão a trabalhar quase no limite. Há sempre soluções para podermos continuar a dar a resposta que é esperada, mas a situação é grave”, diz de forma peremptória.

Um maior número de casos significa, dias depois, um aumento de pacientes a precisar de cuidados hospitalares e, num terceiro momento, de cuidados diferenciados, como ventilação mecânica. A evolução desfavorável está espelhada na taxa média de ocupação de leitos covid, que passou de 30% para 55% a 60%, segundo dados da Direcção Nacional de Saúde (DNS). O valor pode mostrar uma imagem imprecisa, considerando que a situação ilha a ilha é muito díspar.

“Com o aumento de casos, maior a probabilidade de aparecerem casos graves. Aumenta a probabilidade de internamentos e internamentos de situações graves que acabam por sobrecarregar a capacidade dos sistemas”, avalisa Jorge Barreto.

Apesar da procura crescente, as reservas nacionais de oxigénio, medicamentos e testes mantêm-se em níveis de segurança.

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“De acordo com informações dos laboratórios, não há motivos para preocupação em termos da quantidade de testes. Em termos de outros recursos, medicamentos e também de oxigénio, não temos, pelo menos por enquanto, situações de preocupação, embora estejamos a fazer o seguimento de perto, no sentido de evitar esse tipo de constrangimento”, comenta o Director Nacional de Saúde.

Praia

O Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza contactaram a direcção clínica do Hospital Agostinho Neto, na Praia, para perceber o nível de ocupação da ala dedicada a pacientes covid. Fomos remetidos para a DNS, que avança que, das 14 camas disponíveis, 13 estavam ocupadas nesta segunda-feira. Foi reactivada, como hospital de retaguarda, a Escola de Hotelaria e Turismo, que tinha recebido pacientes em isolamento nos primeiros meses da pandemia, em 2020.

No início da semana, existiam cinco doentes em estado considerado grave, mas nem todos a necessitar de respiração mecânica.

De 19 a 25 de Abril, a Praia contabilizou 850 diagnósticos positivos.

São Vicente

Em São Vicente, o director clínico do Hospital Baptista de Sousa, Paulo Almeida, alerta para as consequências do agravamento da epidemia de SARS-CoV-2, com um maior nível de transmissão comunitária. Para já, a situação nos internamentos não é de ruptura, mas os riscos são reais. Na semana passada, a ilha registou 257 novos casos.

“À medida que registamos um aumento de casos, obviamente, vai registar-se um aumento de casos mais graves. Desde há duas semanas que estamos com o isolamento quase cheio. Também no serviço de urgência, o número de doentes diagnosticados tem sido alto. Houve um dia em que, só no hospital, registámos 23 casos de infecção, sem contar com os contactos. Isto cria uma demanda maior nos serviços de internamento. Se antes tínhamos uma média de três ou quatro doentes internados, neste momento a média é entre oito e nove, com doentes mais graves e com necessidade de ventilação mecânica”, resume.

“Ainda não chegámos numa fase de ruptura, mas se os casos continuarem a aumentar neste ritmo…”, deixa em aberto.

O responsável clínico do hospital de referência para a região Norte destaca a imprevisibilidade da situação pandémica e o que isso pode significar para a capacidade de resposta do sistema de saúde.

“O máximo que já tivemos foram dois doentes entubados, aquilo consegues gerir. Numa situação com seis ou sete doentes, já é muito mais complicado, porque os consumíveis vão depender do número de doentes, do tempo que cada doente vai ficar entubado. É uma situação imprevisível”, explica.

O Baptista de Sousa tem 12 camas para doentes covid, num espaço com capacidade para 15. Em breve, o número de leitos disponíveis chegará às três dezenas, com o alargamento a uma nova área.

Sal

A situação no Sal é uma das mais graves do país. Entre 19 e 25 de Abril, a ilha somou 189 novas infecções. As autoridades locais alertam para o elevado número de pacientes a necessitar de avaliação médica, internamento e ventilação. No final da semana passada, a ocupação de camas covid situava-se nos 90%.

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O Delegado de Saúde, José Rui Moreira, recorda que a estrutura hospitalar é de carácter regional.

“Está a ser muito difícil enfrentar esta situação, tendo em conta que temos que atender também a casos não covid que precisam de internamento, consultas, etc. Se formos ver o espaço que temos, estamos quase no nosso limite”, alerta.

Se não for colocado um travão ao ritmo de contágio, José Rui Moreira admite um cenário de ruptura.

“Isso pode acontecer no Sal ou em qualquer parte. O colapso do sistema é possível se os casos seguirem aumentando. Nessa leva de covid, estamos a ter muitos casos mais graves e isso é complicado”, reforça.

As equipas foram reforçadas, mas continuam a ser insuficientes, porque as solicitações são muitas.

“O reforço não é só de pessoas que atendem os doentes, mas tivemos que reforçar o aeroporto, o porto. Tivemos que abrir outras enfermarias, preparar a abertura de um lugar para internamento de turistas, reforçar para a campanha de vacinação. Ganhámos muitos recursos, mas ficam insuficientes de cada vez que os casos aumentam”, observa.

Fogo e Brava

Cenário diferente na região sanitária de Fogo e Brava, onde a situação epidemiológica atravessa um momento de estabilidade. Apesar disso, o director do Hospital Regional São Francisco de Assis, Evandro Monteiro, lembra a necessidade de existir vigilância permanente. Esta segunda-feira, estavam dois pacientes internados, ambos com prognóstico favorável.

“Estamos com uma boa capacidade de resposta. A nível do internamento hospitalar de doentes covid-19, temos capacidade para nove pessoas. Na região sanitária, temos poucos casos activos, mas ainda estamos numa fase de quase término da campanha eleitoral e estamos, digamos, no período [que antecede] o festão de São Filipe. Quer dizer que temos uma mobilidade importante para as ilhas e, sobretudo, com Santiago. Aí sim é a nossa preocupação, pois eles têm muitos casos activos neste momento”, sintetiza.

Entre 19 e 25 de Abril, os três concelhos do Fogo registaram, em conjunto, 21 diagnósticos positivos para infecção por SARS-CoV-2. Na Brava não foram registados casos.

Antecipando um eventual agravamento da situação epidemiológica e contando com a imprevisibilidade que caracteriza a pandemia de coronavírus, o responsável de saúde está atento aos stocks de oxigénio e medicamentos. Houve reforço de meios e a situação é confortável.

“Há todo um protocolo já elaborado, a ser rigorosamente cumprido. Agora, a preocupação dos colegas, a nível nacional, também é a nossa. Neste momento, estamos numa situação normal, dentro de um problema epidémico, mas a probabilidade desse cenário se alterar é muito alta”, sublinha Evandro Monteiro.

Ribeira Brava

Na Ribeira Brava, ilha de São Nicolau, a situação também é considerada estável, com 17 casos acumulados em sete dias. No final da semana passada, as 12 camas disponíveis no centro de saúde local estavam todas desocupadas.

O Delegado de Saúde, Élvio Pereira, explica que a maioria dos diagnósticos positivos diz respeito a assintomáticos ou pessoas que desenvolvem sintomas leves. Sem necessidade de internamento, os pacientes ficam sujeitos ao cumprimento de isolamento domiciliar.

“Sempre que é diagnosticado um caso, fazemos o contacto com a pessoa para dar todas as orientações. Disponibilizamos vitaminas e paracetamol, caso tenha febre, disponibilizamos máscaras e vamos acompanhando os doentes durante os dez dias [de isolamento]. Se temos um pico muito grande, não é possível telefonar todos os dias e priorizamos aqueles com algum sintoma, mas disponibilizamos o contacto, em caso de agravamento ou necessidade de algum apoio”, esclarece.

O Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza também tentaram o contacto com as estruturas de saúde da Boa Vista, mas sem sucesso.

À hora de fecho desta edição ainda não estava disponível o boletim epidemiológico de terça-feira. Com dados de segunda, 26, Cabo Verde registava um total acumulado de 22.586 casos de infecção por SARS-CoV-2, dos quais resultaram 208 óbitos.

Em todo o mundo, já foram diagnosticadas com o ‘novo’ coronavírus perto de 150 milhões de pessoas. 3,1 milhões perderam a vida. O primeiro caso de infecção foi detectado em Dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan.

*com Lourdes Fortes e Fretson Rocha 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1013 de 28 de Abril de 2021. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,2 mai 2021 8:59

Editado porAndre Amaral  em  7 mai 2021 6:19

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