Adesão dos maiores de 60 anos ainda aquém do desejável

PorSara Almeida,20 jun 2021 9:18

Com a chegada de mais vacinas contra a covid-19 ao país, intensificou-se e alargou-se a campanha de vacinação. A adesão tem sido boa, mas há um senão. Entre os maiores de 60 anos, grupo que desde o primeiro momento foi considerado prioritário, nem metade foi inoculado.

Desde o início da pandemia morreram em Cabo Verde 276 pessoas, por complicações provocadas pela covid. O site da covid19.cv, consultado esta terça-feira, não está actualizado. Aí aparecem ainda 273 óbitos, mas os dados disponíveis permitem comprovar aquilo que já se sabe: os idosos são as maiores vítimas mortais da covid.

Acontece em todo o mundo. Acontece também aqui em Cabo Verde.

Em números: apenas cerca de 12% do total de infecções registadas em Cabo Verde são de pessoas acima dos 60 anos. Contudo, essas faixas etárias representam mais de 85% das mortes ocorridas, ligadas à doença.

Para além dos óbitos, e tendo em conta que a doença tende a manifestar-se nos idosos de forma severa, são também estas faixas que maior pressão provocam sobre as estruturas de saúde.

Como seria de esperar, no plano de vacinação contra a covid, para além dos profissionais de saúde, e outros da linha da frente do combate à pandemia, estavam os idosos.

Num primeiro momento, logo a partir do arranque da vacinação, em Março, todos os acima dos 70 anos. Num segundo, os maiores de 60. Estávamos ainda numa altura em que escasseavam as vacinas. Hoje, a chegada de vários milhares de doses já permitiu alargar os públicos-alvo, rumo à meta assumida: 70% da população total de Cabo Verde vacinada até ao fim do ano.

Contudo, entre os maiores de 60 apenas cerca de 48% da população foi já vacinada. É ainda pouco, reconhece-se.

O desejável, é que tenhamos pelo menos 70% destas pessoas vacinadas, até porque ainda é nesta faixa etária que ocorre a maior parte das mortes e das situações complicadas nos hospitais”, frisou o Director Nacional de Saúde, Jorge Noel Barreto, na conferência semanal sobre a situação epidemiológica no país.

Mais sensibilização

Porquê ainda tão pouco? Não há lista de espera entre os idosos acamados que pretendem ser vacinados e quanto aos restantes idosos, à excepção de São Vicente, onde há algum atraso na sua vacinação, a “baixa” percentagem de inoculados terá a ver, essencialmente, com o facto de as pessoas não se quererem vacinar.

“Estamos a tentar vacinar a maior parte das pessoas maiores de 60 anos. Os que não foram vacinados, é porque não estão inscritos”, garante a coordenadora.

É que, como se sabe, a vacinação contra a covid não é obrigatória. Muita gente, “começou por recusar a vacinação por medo, devido às informações que circulavam, principalmente sobre a vacina AstraZeneca” (que tem sido administrada nesta população).

Uma percentagem menor de não vacinados, poderá dever-se ao facto de a pessoa já ter estado infectada, sendo necessário aguardar meio ano e há ainda a mentalidade de que, como alguns idosos não saem muito, nem têm muito contacto com outras pessoas, não vale a pena vacinarem-se.

Ivanilda Santos considera, pois, que a não-vacinação pouco terá a ver com o facto de o idoso não conseguir inscrever-se.

É que, como relembra, há vários canais para o fazer. Reconhece-se que a inscrição através da plataforma digital criada para o efeito possa ser complicada para quem não domina ou não tem acesso às novas tecnologias. Mas a inscrição também pode ser feita através da Linha Verde ou da linha da Casa do Cidadão (800 11 12 e 800 20 08), que são gratuitas, ou nos próprios centros de saúde.

Aliás, em muitos centros de saúde, para os idosos, nem sequer há a necessidade de fazer uma inscrição. “Os idosos, quando chegam, vacinam-se no mesmo dia”, aponta.

Seja como for, apesar de continuar a haver diariamente um número significativo de inscritos dessas idades, as autoridades não estão satisfeitas com a percentagem atingida e irão reforçar o apelo à adesão.

“O Instituto Nacional de Saúde Pública está a trabalhar neste momento para massificar a sensibilização”, avança.

Entretanto, refere a coordenadora, a adesão das pessoas dos 45-60 anos tem sido boa, bastante superior à das pessoas mais idosas.

Mais adesão nas camadas mais novas

A nível de vacinas, chegaram ao país, desde Março, 235.050 vacinas, das quais 181.200 em Junho. Esse aumento recente do stock levou também ao aumento das equipas de vacinação e permitiu alargar a vacinação a outros grupos que já tinham sido definidos como prioritários (como os professores), mas também à população acima dos 45 anos, e a todos os adultos das ilhas do Sal e Boa Vista. Além destes, também há já instituições cujos trabalhadores estão a ser vacinados em massa.

Ivanilda Santos garante que todas as contas já foram feitas, o que possibilitou esse alargamento.

“Sabemos quantas pessoas temos e quantas doses temos disponíveis”, diz, acrescentando que “as doses que temos são para administrar a primeira dose e a segunda às pessoas que já foram vacinadas anteriormente”.

No total pretende-se vacinar até ao fim do ano toda a população adulta. Aquando da concepção do plano de vacinação, em 2020, previa-se que esta rondava os 330 mil. O número porém, deverá ser superior.

De acordo com declarações do primeiro-ministro esta segunda-feira na Assembleia Nacional, é esperado que “até Agosto possamos ter vacinado um total de 200 mil pessoas, correspondente a 52% da população elegível”. Isso significa que o número de elegíveis será assim de cerca de 384 mil pessoas.

Entretanto, 44 mil pessoas já tomaram pelo menos uma dose da vacina e o ritmo de vacinação é acelerado. De cerca de 600 vacinados diários no país, em Abril, passamos dois a três mil por dia, média que tende a aumentar nestes dias, tendo em conta a massificação no Sal e Boa Vista.

A meio milhão da meta

Em breve deverão chegar mais vacinas ao país. Como já foi anunciado, Cabo Verde está a negociar com a China a compra de 200 mil doses de vacinas. Estão também em curso negociações com os Estados Unidos, inclusive no âmbito dos 500 milhões de doses de vacinas da Pfizer que estes compraram para doar via Covax.

Contas feitas, Cabo Verde precisará ainda receber até ao fim do ano mais de 500 mil doses (falando em vacinas de toma dupla), para poder cumprir a sua meta.

Mas não basta ter vacinas, e equipas e logísticas eficientes, para cumprir a meta da vacinação. A população tem de aderir.

“Podemos colocar a meta, mas se a população não aceitar as vacinas nós não vamos conseguir chegar lá. A adesão é fundamental para atingirmos a cobertura desejada”, alerta a coordenadora do programa de vacinação. Adesão é pois elemento-chave na tríade para o sucesso do plano.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1020 de 16 de Junho de 2021.

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Autoria:Sara Almeida,20 jun 2021 9:18

Editado porFretson Rocha  em  2 abr 2022 23:20

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