Covid-19: Chegaram as vacinas. Ou quase

PorNuno Andrade Ferreira,28 nov 2020 8:00

Várias vacinas estão a chegar ao mercado. Cabo Verde está atento. Vacinação geral da população não é para já.

Está cada vez mais perto o momento em que o mundo poderá passar a contar com uma arma poderosa no combate à pandemia de covid-19. A vacina ou, para sermos rigorosos, as vacinas estão a chegar. Uma dúzia de projectos científicos estão na derradeira etapa de pesquisa e, nas últimas semanas, três laboratórios anunciaram resultados positivos, após análise dos dados preliminares dos ensaios clínicos alargados. Em breve, as entidades reguladoras receberão os pedidos de licenciamento, com carácter de urgência. 

Pfizer, Moderna e Astrazeneca são os nomes que de que todos falam e as empresas para as quais se viraram todas as atenções.

As vacinas da Pfizer+BioNTech e da Moderna recorrem à inovadora tecnologia RNA mensageiro (mRNA). Ambas têm uma eficácia na casa dos 95%, mas apresentam desafios logísticos significativos, porque têm que ser transportadas e conservadas a vários graus negativos (apesar de a vacina da Moderna ser menos exigente que a concorrente da Pfizer), o que poderá impossibilitar o seu uso em algumas regiões do mundo.

A vacina da AstraZeneca (Oxford) tem uma eficácia estimada entre 62% e 90%, consoante a dosagem administrada. Esta vacina é baseada numa tecnologia denominada de vector viral não replicante. Uma das suas vantagens é o custo de produção, baixo, e as exigências de armazenamento, mais comuns.

O investigador cabo-verdiano da Universidade de Cambridge, Jailson Brito Querido, relembra que as vacinas estimulam o nosso corpo a produzir anticorpos capazes de reconhecer um agente infeccioso e impedir que este infecte as nossas células.

“Para este propósito, tradicionalmente, recorre-se às vacinas que contêm o agente infeccioso inteiro, como por exemplo a vacina contra o vírus da poliomielite, ou apenas às proteínas do mesmo, como é o caso da vacina contra o HPV [Papilomavírus Humano]. Para além dessas, existem as vacinas mais modernas, como as que utilizam apenas a informação genética do agente infeccioso, como é o caso das vacinas de mRNA e as vacinas de vetor viral. No caso das vacinas de vetor viral, a informação genética do agente infecioso é introduzida num outro vírus – por exemplo, de uma constipação comum – que foi enfraquecido no laboratório, de forma a não causar nenhuma doença. Nas vacinas de mRNA, a informação genética é introduzida nas nossas células sem recurso a nenhum vetor viral. Em ambos os casos, as nossas células utilizam a informação para fabricar a proteína do agente infeccioso, o que vai desencadear a produção de anticorpos”, explica.

Se tudo correr como planeado – e até agora tem corrido – é provável que ainda este ano sejam administradas as primeiras doses. Contudo, a oferta limitada, nesta fase, levará os governos a definir planos de vacinação que dêem prioridade a profissionais de saúde e grupos de risco. Só lá para 2021 avançará, então, a distribuição em larga escala.

Pelo menos na Europa, o virologista Pedro Simas acredita ser possível, ao longo de 2021, vacinar uma percentagem da população suficiente para controlar a pandemia, tornando o vírus endémico.

“Havia muita confiança, pelos estudos pré-clínicos, da fase 1 e 2, então, começou-se logo a produzir a vacina. O que prevemos é que, no primeiro semestre de 2021, na Europa, praticamente todos os países tenham a vacina e estejam a vacinar as pessoas. Se conseguirmos, durante quatro meses, cobrir praticamente 80% da população, ali entre Março, Abril, Maio e Junho, daqui a um ano, a coisa estará muito diferente”, estima.

Processo em marcha

Por cá, as autoridades sanitárias já estão a trabalhar num plano de vacinação. O Banco Mundial deverá ser um parceiro do processo, necessariamente dispendioso e complexo.

Conforme o Director Nacional de Saúde, Jorge Barreto, o país ainda não tomou uma decisão sobre que vacina adquirirá, mas está atento ao mercado.

“Cabo Verde está à espera das decisões finais das pesquisas relacionadas com as vacinas. De acordo com aquilo que estiver disponível, há toda uma organização por detrás. A partir do momento em que haja uma vacina, eficaz, segura e disponível, será essa a que Cabo Verde irá ter acesso. Se houver mais do que uma, provavelmente haverá alguma análise, no sentido de ver qual será a melhor opção”, esclarece.

A lógica de priorizar determinados grupos também será seguida no arquipélago.

“Como em todos os países, serão priorizados determinados grupos, nomeadamente os profissionais de saúde, os grupos de risco e os idosos”, resume Jorge Barreto.

Esta terça-feira, o total mundial de infecções por SARS-CoV-2, o agente causador da covid-19, estava próximo da fasquia dos 60 milhões (59,6 milhões às 12h00). Há mais de 1,4 milhões de óbitos associados à doença.

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Vacinas são seguras

A par da esperança, as vacinas desenvolvidas para a covid-19 também suscitam receios. Ouvem-se vozes de quem desconfia da validade de um processo tão rápido.

O médico João Júlio Cerqueira, autor do portal de divulgação científica, Scimed, sublinha que todos os passos de segurança e eficácia foram cumpridos.

“O que aconteceu foi toda uma organização por parte da indústria farmacêutica e das instituições que regulam o desenvolvimento de fármacos, para acelerar o processo. Foi um acelerar, mas da burocracia. Relativamente aos estudos, necessários para garantir a segurança e eficácia da vacina, esses foram todos realizados”, reforça.

Na mesma linha, o investigador Jailson Brito Querido comenta que as vacinas para o SARS-CoV-2 “são de fácil produção e seguras”.

“Não temos nenhuma razão objectiva para não confiar na segurança destas vacinas. Contudo, nada é 100% seguro, nem mesmo o pão que compramos na padaria da nossa rua”, observa.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 991 de 25 de Novembro de 2020.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,28 nov 2020 8:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  24 jan 2021 23:20

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