O prazer está a ‘sair do armário’ - Parte I

PorSara Almeida,21 ago 2021 7:32

Lingerie, anéis penianos, vibradores, “bolinhas”, plugs, géis, etc, etc… a lista é imensa, e a variedade dentro de cada tipo de produto também. O negócio dos artigos eróticos está em expansão, impulsionado (também) pelas potencialidades do online, mas enfrenta ainda a vergonha da sociedade, principalmente entre eles.

Entre elas, apesar dos tabus, há cada vez mais a procura do prazer e do bem-estar. Entretanto, para lá das sex shops, propriamente ditas, há novos conceitos e olhares sobre os brinquedos sexuais que mostram que o assunto é, na verdade, muito mais do que sexo. É saúde, emancipação e aceitação. Para eles e para elas.

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Há muito que Ema usa produtos e objectos eróticos, seja para apimentar o sexo com os parceiros, seja para usufruto individual. Lingerie ousada, diferentes tipos de gel, vibradores, algemas… já experimentou de tudo um pouco e garante que vai continuar a experimentar.

O primeiro “brinquedo” sexual propriamente dito adquiriu-o num evento por si organizado. Há cerca de dez anos, o seu companheiro de então, decidiu fazer um “biscate” e trouxe de uma viagem ao estrangeiro uma série de objectos eróticos. Mas os produtos não saiam… Então Ema decidiu organizar um convívio com as amigas e conhecidas, um “chá de panela” como decidiu chamar-lhe, durante o qual fez uma apresentação dos produtos.

“Quando houve a demonstração ao vivo e a cores, houve muitas interessadas”. E entre os produtos com mais sucesso estava o anel peniano, que “o homem usa e a mulher usufrui”. Foi também esse que ela escolheu para si.

Depois do anel, não mais parou e foi experimentando outros “brinquedos”.

Os próprios parceiros de Ema, o de então como o de agora, ofereceram-lhe alguns desses objectos e alinham no seu uso conjunto. “Mas alinham muito mais, por exemplo, ao anel do que ao vibrador”, reconhece.

Para Ema, estes brinquedos não melhoraram a sua vida sexual. “Acrescentaram”, resume. Servem, acima de tudo, para apimentar a relação. “Sais do normal. Mesmo com teu marido ou parceiro tu inventas, mas quando tens também um brinquedo tu inventas ainda mais”.

Ema não tem tabus neste tema, mas nem todas as mulheres são assim, reconhece. Uma amiga sua, conta, comprou um vibrador, mas “não consegue usar porque lhe dá vergonha dar prazer a si mesma”.

Além disso, no caso dos casais, os próprios parceiros muitas não percebem esse uso. Têm preconceitos contra uma mulher que se masturba. E alguns sentem-se complexados pelo objecto ou pensam que a mulher já não tem interesse por eles.

Foi o que aconteceu com Nádia. A experiência com o parceiro correu tão mal que não repetiu. Até aí, apenas “apimentava” a relação com lingerie sexy ou óleos, algo que o então marido gostava. Mas quando decidiu comprar um vibrador e levá-lo para o leito, para usar durante o sexo conjugal, a coisa não correu bem. “Desisti, porque o ele não sabia lidar com essas coisas”.

Comprou então um anel peniano, mas mais uma vez a experiência não correu bem. Nádia, passou a usar os seus “brinquedos” sozinha. Estes, diz, trouxeram conhecimento sobre o seu corpo, sobre si mesma. Também a exigir mais do acto sexual. “Aprendi a ir buscar o meu prazer”.

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SEX SHOP SIM

Em Cabo Verde muitas mulheres (e homens) compram produtos eróticos. Pode ser uma mera lingerie sexy, um óleo ou gel especial, mas também há cada vez mais procura de “brinquedos” como anéis, bolinhas, plugs, vibradores, dildos, enfim… brinquedos sexuais.

Se antes eram vendidos às escondidas em alguma loja, ou vinham na mala de alguma viagem para venda ocasional, foram aparecendo principalmente na Praia e Mindelo, lojas físicas – as chamadas sex shop - dedicadas à venda destes produtos. Umas fecham outras abrem, mas já vão sendo frequentes. Até já algumas lojas chinesas importam esses produtos.

No entanto, o que parece estar a fazer mais sucesso, principalmente após o início da pandemia, são as vendas online. Sem se expor, sem ninguém ver, basta o cliente fazer a encomenda e recebe o seu produto em casa. E há cada vez gente, formal ou informalmente dedicada ao negócio.

Leila Monteiro estava a estudar no Brasil quando a sua irmã, no Sal, teve uma ideia de negócio. Importar produtos eróticos, até porque no Sal ainda não havia nenhuma loja do tipo.

E foi assim que em 2018/2019 nasceu a Sex Shop Sim – Na Ponta da Língua. Leila mandava uma vasta gama de produtos que iam de gel, a lingerie, passando por próteses e vibradores e a irmã vendia na loja.

Em 2019, a loja teve um espaço físico, em Santa Maria, em parceria com outra loja. Mas a população que “gosta de comprar” não entrava muito. Já preferiam as compras online. Com a pandemia, e o encerramento da loja física, todo o processo passou então a ser virtual.

E se houve negócios que foram prejudicados com a pandemia e confinamentos, definitivamente a venda de artigos eróticos e sexuais não foi um deles.

“No início da pandemia, na quarentena, a venda aumentou muito. Estava todo o mundo em casa, então muita gente pedia e nós fazíamos a entrega em Santa Maria e Espargos”.

Hoje, a sex shop tem representantes em São Vicente e Praia e envia para todas as ilhas.

Quanto aos clientes, apesar de no Sal o público ser mais feminino, há também bastantes clientes homens. Um dado interessante é a idade. “Mulheres [clientes] são mais jovens, 30-35 anos. Já os homens têm 50, 60 anos”, conta Leila.

Quanto aos produtos comprados, há de tudo. Uns para “usar” a solo, outros com o/a companheiro/a. Uns caros, outros baratos – “os cabo-verdianos não tem o hábito de gastar muito dinheiro nessas coisas, então tentamos ser acessíveis. E como somos apenas “virtual” já conseguimos preços mais em conta. Temos público de todos os níveis”, garante.

Entre os muitos produtos, há, entretanto, dois que fazem mais sucesso. “As bolinhas e os vibradores de clitóris para mulheres. É o que mais vende. Chega e acaba”, diz.

A pandemia trouxe mais vendas, como referido, mas trouxe também obstáculos. Neste momento, a reposição de stock tem estado comprometida com a falta de voos.

“Este é um bom negócio, o problema tem sido mesmo o transporte. Estamos com pouco stock e muita procura”, lamenta Leila. Uma queixa referida por outros vendedores destes produtos, nomeadamente na Praia.

Entretanto, se as sex shop estão a ser “um bom negócio”, a verdade é que começam a ser apenas uma parte, dentro de um conjunto de ofertas e conceitos diferenciados que fazem do mundo do prazer uma área cada vez mais rica e aberta. O prazer ‘saiu do armário’.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1029 de 18 de Agosto de 2021. 

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Autoria:Sara Almeida,21 ago 2021 7:32

Editado porSara Almeida  em  25 set 2021 23:20

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