Orlando Dias: "É preciso reerguer o MpD e devolver o partido aos militantes"

PorAndré Amaral,6 jun 2026 8:11

A demissão de Ulisses Correia e Silva abriu uma disputa pela presidência do MpD em que os candidatos entrevistados pelo Expresso das Ilhas partem do mesmo diagnóstico: dois resultados eleitorais negativos e um partido que se afastou das suas bases durante os anos de governação. Paulo Veiga e Orlando Dias prometem ambos devolver o partido aos militantes e assumem, sem hesitação, o papel de líderes de transição, mas divergem sobre quem reúne as condições para conduzir essa recuperação e a que ritmo o MpD pode voltar a ser competitivo.

O que é que o leva a avançar para a sucessão de Ulisses Correia Silva na presidência do MpD?

Eu fui candidato à liderança do MpD em 2023. E depois das eleições internas, eu informei que seria novamente candidato à liderança do partido na próxima convenção, que será no mês de Agosto. Sou candidato à liderança do MpD porque considero que tenho percurso e experiência para reorganizar o partido, reaproximar as bases do partido e, durante os próximos três anos, fazer com que o MpD regresse à sua origem. O MpD é um partido democrático, onde os militantes são respeitados, são levados em conta, onde as decisões são legais, colectivas e todos têm a voz. Esses são os objectivos da minha candidatura. Nós vamos trabalhar por todos. Há dois candidatos mais jovens, mas este não é ainda o tempo deles. Nós consideramos que o próximo presidente deve estar no Parlamento, o lugar próprio para se fazer uma actividade de oposição positiva. Queremos um partido impulsionador que trabalhe numa base intergeracional, com jovens, com menos jovens. Portanto, todos devem ser incluídos para trabalhar para que o MpD seja um partido verdadeiramente prático, em contacto com a sua origem e objectivos.

Uma das principais críticas que fez à actual direcção do MpD foi que se tem afastado das bases do partido. As coisas consigo na liderança do partido vão mudar?

Com certeza, esse é o objectivo: estarmos sempre juntos, próximos das bases. O MpD tem de reconciliar com a sua história, os seus objectivos programáticos e a sua espinha dorsal, popular e sustentado nas bases. Há que reerguer o MpD, há que reorganizar o MpD para que seja um partido democrático, cada vez mais pluralista e amante da liberdade e optar por um amplo debate interno. Portanto, é preciso reerguer o MpD devolvendo o partido aos militantes. Significa que será juntamente com os militantes que nós iremos liderar o partido, ter estruturas não só concelhias, mas também ter estruturas a nível regional, vamos ter condições políticas regionais, vamos propor a revisão dos estatutos e vamos também trabalhar para que o partido deixe de ter as dificuldades financeiras que tem, arranjando parcerias. Temos de fazer com que haja sustentabilidade. Temos de estar sempre presentes, próximo das bases. Além disso, estamos a pensar que, caso sejamos nós a vencer as eleições, convidar os outros dois candidatos a serem vice-presidentes. Nós pensamos que esses dois candidatos são jovens. É bom que sejam jovens, que tenham pretensão de ser candidatos a primeiro-ministro, mas ainda é cedo. Nós estamos a começar um ciclo político em que o MpD acaba de perder as eleições legislativas. O PAICV venceu as eleições, com certeza vai ficar cinco anos no poder e, provavelmente, poderá renovar o mandato. Vai depender do trabalho que nós fizermos. O nosso objectivo é unirmos as bases e trabalharmos para termos um bom resultado nas presidenciais que se avizinham, ganhar as eleições autárquicas e relançar o partido. Os candidatos colegas, companheiros mais jovens, deviam esperar por 2029, que será a convenção a seguir a esta, e aí nós poderíamos fazer um estudo de opinião e ver se eles estarão em condições de se candidatarem. Estamos a trabalhar num consenso com eles, já tivemos encontro com o candidato Paulo Veiga, já telefonámos ao candidato Herménio Fernandes e ele ficou de dizer quando é que a gente pode se encontrar para conversar. Vai ser uma disputa pacífica. Estou a fazer tudo para que não haja disputa, para convencê-los em esperarem por 2029.

Um líder que é eleito a seguir aquele que se demite é visto muitas vezes como um líder de transição, um líder que recupera o partido, mas que depois muitas vezes não chega ao próximo período eleitoral. Acha que corre esse risco?

Em princípio, o objectivo é eu só ser um líder transitório. Porque acho que é muito cedo termos um líder que venha a ser candidato a primeiro-ministro em 2031. É isso que nós devemos fazer à semelhança daquilo que os outros partidos têm feito. Um líder transitório, um líder que seja eleito pelos militantes, mas que reorganize o partido, que prepare o partido para os próximos embates eleitorais, mas que não seja, a priori, candidato a primeiro-ministro em 2031. Este é o aconselhamento que dou aos outros dois companheiros que já se disponibilizaram para serem candidatos. O PAICV fez isso, teve um líder, Rui Semedo, que preparou o partido, organizou-o e o PAICV ganhou depois as eleições autárquicas. Depois elegeram um novo líder que acabou por ganhar as eleições legislativas. Eu penso que esse é o caminho que o MpD deve procurar. Eu sei que os jovens estão um bocadinho apressados com isso, mas ainda é cedo. Qualquer líder que tenha pretensão de ser primeiro-ministro em 2031, se for presidente do MpD agora, vai ter desgaste, vai ter problemas, poderá não ser o candidato do partido nessa altura. E, por outro lado, os outros dois candidatos, tanto o Paulo Veia como o Herménio Fernandes, eles não são deputados. Como é que vão fazer a oposição no Parlamento? Como é que vão confrontar com o líder do PAICV, o Primeiro-Ministro? Como é que vão participar nos debates? Estão fora do Parlamento. No caso do Herménio Fernandes, ele ainda é Presidente da Câmara. O Presidente da Câmara vai fazer oposição ao Primeiro-Ministro? Eu penso que ele devia pensar ainda nas eleições [autárquicas] de 2028. Ganhar as eleições e depois concorrer nas eleições de 2029 a presidente do MpD. Em relação ao Paulo Veiga, a mesma coisa. Não está no Parlamento, se for agora vai ter desgaste, não vai ter espaço para fazer oposição.

Que mensagem é que quer passar para os militantes do MpD?

Serenidade, espírito construtivo, todos devem contribuir, participar nessas eleições com ideias, sem ofensas, numa disputa saudável. Somos um partido democrático, temos de conviver com as diferenças de ideias, dar a nossa contribuição. É um processo normal e tentaremos o máximo possível chegar a um consenso nesta matéria.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.

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Autoria:André Amaral,6 jun 2026 8:11

Editado porDulcina Mendes  em  6 jun 2026 12:19

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