Prova Nacional de Matemática suspensa no Sal e contestada em São Vicente; Ministério da Educação defende rigor do sistema

PorEdisângela Tavares*,10 jun 2026 15:02

A suspensão da Prova Nacional de Matemática na ilha do Sal e as queixas de estudantes em São Vicente sobre a inclusão de conteúdos alegadamente “não leccionados” estão a gerar contestação no sistema de avaliação. O Ministério da Educação garante que as provas seguem os programas oficiais e que a suspensão no Sal foi um “acto isolado”.

No Sal, a decisão de suspender a prova foi tomada após relatos de irregularidades na correspondência entre o exame e a matéria efectivamente leccionada nas escolas. A situação provocou momentos de incerteza nas salas de aula e levou à interrupção do processo avaliativo.

Segundo relatos dos estudantes e dos encarregados de educação, o ambiente foi de grande confusão. “Antes de o teste começar, mandaram os alunos deixar as provas viradas para trás porque estavam a coordenar as directrizes com a Praia [Direcção Nacional de Educação]”, explicou uma encarregada de educação, com base no testemunho da filha.

Após cerca de meia hora de espera, os estudantes foram informados da suspensão definitiva da prova, o que gerou frustração generalizada entre alunos e encarregados de educação. A prova foi posteriormente reagendada para 18 de Junho.

Declarações

No centro da contestação estão as alegações de que o exame continha conteúdos que não tinham sido leccionados em sala de aula, o que, segundo os estudantes, comprometeu o desempenho. Uma aluna no Sal afirmou que a maioria das questões não correspondia ao que foi trabalhado durante o ano lectivo. “Das questões do exame, conseguia responder a cerca de cinco. O resto da matéria nunca nos foi dado aqui na ilha”, desabafou.

Em São Vicente, o cenário de contestação repete-se. Estudantes do 12.º ano manifestaram descontentamento, defendendo que o exame incluía conteúdos fora do programa leccionado e apresentava um grau de dificuldade elevado.

O estudante Dilan Tavares relatou que vários colegas tiveram dificuldades logo no início da prova. “Houve colegas com médias muito boas que apresentaram as mesmas reclamações sobre o teste”, afirmou, acrescentando que alguns estudantes não conseguiram iniciar a resolução durante vários minutos.

O aluno defende que as provas nacionais são importantes para a avaliação do sistema educativo, mas considera essencial que haja maior alinhamento entre o que é ensinado e o que é avaliado.

A indignação dos estudantes também ganhou força nas redes sociais, onde vários alunos denunciaram aquilo que consideram ser uma situação de injustiça no processo de avaliação. Numa publicação divulgada no Facebook, uma estudante da ilha de São Vicente afirmou que a prova provocou frustração generalizada entre os alunos e afectou emocionalmente muitos estudantes em diferentes ilhas.

“O que aconteceu não foi apenas um teste difícil; foi um desrespeito gritante pelo nosso percurso académico, pelo nosso esforço e pela nossa saúde mental”, escreveu.

Segundo a estudante, a prova incluía conteúdos que “nunca foram ensinados ou que foram abordados de forma extremamente superficial nas salas de aula”, situação que, alegadamente, terá provocado crises de ansiedade em alguns alunos durante a realização do exame. Na mesma publicação, a aluna questiona o facto de a prova ter sido suspensa apenas na ilha do Sal, defendendo que o sentimento de injustiça foi partilhado por estudantes de outras ilhas, incluindo São Vicente.

“Solidarizamo-nos com os nossos colegas do Sal, mas o sentimento de incapacidade e o nível de injustiça foram exactamente os mesmos em todo o país”, afirmou.

A estudante criticou ainda o comunicado emitido pelo Ministério da Educação, considerando ofensiva a posição segundo a qual o grau de dificuldade da prova não constitui motivo para anulação.

“Chamar ‘dificuldade’ ao facto de colocarem numa prova nacional matérias que não foram dadas é querer mascarar as falhas do sistema e deitar as culpas para cima dos alunos”, escreveu, defendendo que os estudantes “não estão a pedir facilidades”, mas sim “justiça”.

Na cidade da Praia, estudantes de vários liceus concentraram-se em frente ao Liceu Domingos Ramos, no Plateau, numa manifestação de contestação à Prova Nacional de Matemática. Os alunos demonstraram preocupação com o impacto que os resultados poderão ter nas médias finais e até na eventual reprovação de alguns estudantes. À semelhança do que aconteceu noutras ilhas, os manifestantes apelaram à “justiça” e a uma solução que, segundo defendem, não penalize os alunos afectados.

Ministério da Educação

Perante as críticas, o Ministério da Educação emitiu um comunicado no dia 7 de Junho, no qual esclarece detalhadamente o processo de elaboração, validação e correcção das Provas Nacionais.

Segundo o documento, as provas correspondem aos conteúdos dos programas das disciplinas em vigor e são elaboradas por professores em efectividade de funções, com validação científico-pedagógica realizada por docentes da mesma área. A correcção é feita com base em grelhas previamente definidas e validadas pelos mesmos profissionais.

A tutela sublinha ainda que o grau de dificuldade de uma prova não constitui motivo para suspensão ou cancelamento, desde que esteja alinhado com os programas oficiais. Acrescenta igualmente que a existência de conteúdos não leccionados numa turma não justifica, por si só, a suspensão da prova, existindo mecanismos para a sua gestão na classificação final dos alunos.

O Ministério da Educação reforça também que o processo decorre sem interferência política, em conformidade com a legislação em vigor e com o calendário oficial do ano lectivo 2025/2026.

Sobre o caso do Sal, o Ministério classifica a suspensão como um “acto isolado”, cuja responsabilidade será apurada, garantindo, contudo, que os alunos terão acesso à segunda chamada da prova, conforme previsto no regulamento.

O Ministério da Educação apela à serenidade dos encarregados de educação e demais agentes educativos, sublinhando a importância de estabilidade no sistema de avaliação num momento considerado sensível do calendário escolar.

* Mindelinsite.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1280 de 10 de Junho de 2026.

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Autoria:Edisângela Tavares*,10 jun 2026 15:02

Editado porClaudia Sofia Mota  em  12 jun 2026 23:21

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