Autárquicas 2020: O que motiva as candidaturas independentes?

PorAntónio Monteiro,15 ago 2020 7:26

Conforme o calendário eleitoral divulgado esta terça-feira pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) a campanha para as eleições autárquicas de 25 de Outubro decorre de 08 a 23 de Outubro e as candidaturas devem ser apresentadas até o dia 15 de Setembro. O MpD irá querer pelo menos manter as 18 câmaras municipais e o PAICV vai tentar alargar o seu poder autárquico no país. Já a UCID e o PP esperam conquistar as primeiras câmaras municipais para os seus partidos. Entretanto, as candidaturas independentes podem baralhar as contas aos quatro partidos que vão disputar as 22 câmaras municipais de Cabo Verde.

Grupo Independente MUDAR – Plataforma Alternativa Ribeira Grande Mais Desenvolvida

A primeira candidatura independente anunciada para as autárquicas-2020 foi a do economista Paulino Dias que apresentou há já 6 meses a sua candidatura à Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santo Antão.

Ao Expresso das Ilhas explicou, na altura, as três grandes motivações que o levaram a apresentar a sua candidatura a uma autarquia que está há mais de 20 anos nas mãos do MpD.

“A primeira é compreender que o modelo de gestão do município da Ribeira Grande, que se vem prolongando por mais ou menos 30 anos, já não está a dar resposta aos desafios que o município tem e que exigem novas abordagens de gestão, novas políticas, uma nova visão, uma nova forma de trabalhar as coisas”. A outra principal motivação reside no facto de acreditar que é possível mobilizar uma equipa que não esteja comprometida com agendas políticas partidárias. A terceira motivação, para o candidato santantonense é de foro pessoal: tendo trabalhado na ilha e feito várias propostas tanto ao governo como à autarquia, “entendemos que, não tendo havido um ambiente favorável para avançar com esses projectos, tenho uma certa responsabilidade pessoal de, pelo menos, submeter essas ideias ao escrutínio dos eleitores e ver se me dão essa confiança para implementar os projectos e essas ideias pessoalmente”.

João Félix Cardoso, por um novo modelo de gestão para Santa Catarina

O magistrado explicou que a sua entrada na corrida à Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago surgiu como resposta ao “apelo forte” da sociedade civil santacatarinense por uma candidatura capaz de desenvolver o papel que o concelho sempre teve em Santiago Norte.

“As pessoas assinaram e convidaram-me para ser candidato à Câmara Municipal de Santa Catarina”, precisou Félix Cardoso à Inforpress, realçando que a sua candidatura é “plural e congrega várias sensibilidades e todas as forças da sociedade civil, jovens, quadros, intelectuais e a diáspora”.

João Félix Cardoso exerceu magistratura judicial nas comarcas da Brava, Tarrafal de Santiago e Sal e foi assessor jurídico do ex-presidente da Camara Municipal de Santa Carina, Francisco Tavares.

Milton Paiva, lidera a candidatura AMI E SAN DOMINGUS

A última candidatura independente a ser apresentada, o acto aconteceu há justamente uma semana, é também aquela que mais comentários tem suscitado, pois Milton Paiva é deputado da Nação eleito pelas listas do MpD e a sua candidatura, como repara a Inforpress, integra Mike Silves, que foi um dos pré-candidatos do MpD à liderança da Câmara Municipal de São Domingos e antigo líder da bancada municipal do MpD na Assembleia Municipal, e Rui Pereira que exerceu o cargo de vereador em três mandatos da Câmara Municipal. Entretanto, o jurista escusa-se a vestir a pele de candidato independente, preferindo antes utilizar o termo suprapartidário. “Conscientemente, e no seu espírito, não utilizamos o termo candidatura independente, mas o termo plataforma porque ocupamos um espaço maior e mais transversal. Ser de São Domingos é mais abrangente e completo do que fazer parte de listas temporárias e de estruturas políticas ou associativas. Por isso, Ami e San Domingus”, sublinhou Milton Paiva na apresentação pública da candidatura.

“Tarrafal é di nós. Nu trabadjal” quer relançar desenvolvimento local

Outra candidatura independente saída das hostes no MpD é a de Domingos Semedo. O engenheiro informático, ao apresentar a sua candidatura, no dia 2 de Junho na sua página do Facebook, anunciou os seis eixos da sua plataforma eleitoral: mudar a forma de governar e relançar o desenvolvimento; incentivar a resolução dos problemas do financiamento das empresas locais; promover o emprego, combater a precariedade; implementar uma nova força para que Tarrafal concorra com as cidades mais desenvolvidas de Cabo Verde; transformar Tarrafal em um município sustentável, inteligente e moderno; e valorizar Tarrafal.

Empresário italiano candidata-se à Câmara Municipal da Boa Vista

Chama-se Sérgio Corra e vive na Boa Vista há mais de 20 anos. O empresário italiano decidiu entrar na corrida autárquica para “resgatar a Boa Vista”, que em seu entender, “tem sido governada sob a bandeira da corrupção, desorganização e incumprimento das leis”.

“A motivação principal é ver que nem o MpD nem o PAICV estão a dar a necessária atenção à ilha da Boa Vista, principalmente porque esta, assim como as ilhas do Maio, Brava e São Nicolau, tem (apenas) dois deputados nacionais”, justificou Sérgio Corrá em entrevista à Inforpress.

Regresso de filhos pródigos

Dos 22 candidatos aprovados pelas listas do MpD às camaras municipais sobressaem o regresso do actual presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, José Luís Santos, que tinha concorrido pela lista BASTA e que concorre agora pela lista do MpD; o ex-autarca Pedro Alexandre Rocha que encabeça a lista do MpD para a Câmara Municipal de Santa Cruz; e Lourenço Lopes que concorre pela segunda vez à presidência da Câmara Municipal dos Mosteiros.

Do lado do PAICV surge o ex-autarca de São Filipe cuja candidatura independente, que há quatro anos foi derrotado pela candidatura de Jorge Nogueira à mesma edilidade, mas que agora encabeça a lista do PAICV para a Câmara Municipal de Santa Catarina.

Para o analista político António Ludgero Correia as várias candidaturas surgidas, inclusive do empresário italiano, demostram que os cidadãos acreditam cada vez mais nas virtualidades da cidadania para a resolução de seus prolemas, para a satisfação das demandas das comunidades. Na sua opinião, os eleitos municipais fazem malabarismos para pintarem tudo de azul, mesmo quando o mais crédulo membro da comunidade tem consciência de como as coisas estão realmente.

“Se lhes fosse permitido candidatarem-se ao parlamento é que seria o bom e o bonito. Está-se esgotando a esperança dos cidadãos em dias melhores sob a batuta dos eleitos em listas de partidos, sempre predispostos a defenderem a sigla sob a qual foram eleitos, relegando para plano secundário as aspirações e as demandas das comunidades que representam ou deviam representar”.

Ludgero Correia acredita que depois das proezas protagonizadas por edis que são gestores profissionais, a tendência deveria ser a aposta nesse nicho de profissionais. “A manutenção da aposta em Óscar Santos, o retorno de Eugénio Veiga, etc., são tímidas manifestações do perfil dos futuros candidatos a Presidente de Câmara”, considera.

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Campanha decorre de 8 a 23 de Outubro

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) anunciou esta terça-feira que a campanha para as eleições autárquicas irá decorrer de 8 a 23 de Outubro.

Conforme o timing apresentado pela CNE, os partidos, as coligações ou grupo de cidadãos devem apresentar entre 5 e 15 de Setembro as suas candidaturas junto dos tribunais de comarca dos respectivos círculos eleitorais.

Já o sorteio das listas admitidas pelos magistrados judicias para a atribuição da ordem das candidaturas nos boletins de voto realiza-se no dia 25 de Setembro.

Apresentadas as candidaturas, o sorteio das listas admitidas pelos magistrados judiciais para efeito de atribuição da ordem nos boletins de voto acontece no dia 25 de Setembro.

De acordo com o calendário apresentado pelo vice-presidente da CNE, Amadeu Barbosa, a partir do dia 26 de Agosto, ou seja, 60 dias antes das eleições, ficam igualmente proibidas as cerimónias públicas de lançamento de primeiras pedras e inaugurações e a aprovação ou concessão de subvenções, donativos, patrocínios e contribuições, a particulares como forma de garantir o princípio da neutralidade e a imparcialidade das entidades públicas.

Em relação às formas de realização das acções de campanha, devido à pandemia da Covid-19, Amadeu Barbosa disse que a CNE está a estabelecer os contactos necessários com a Direcção Nacional de Saúde e outros intervenientes para programarem e definirem quais as balizas a serem respeitadas durante a campanha eleitoral e que nos próximos dias as directrizes serão dadas a conhecer aos partidos políticos e à sociedade civil.   

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 976 de 12 de Agosto de 2020.

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Autoria:António Monteiro,15 ago 2020 7:26

Editado porAntónio Monteiro  em  3 dez 2020 23:20

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